Marielle Franco foi a oitava ativista assassinada em 2018

Desde 2017, 40 políticos foram executados. No período eleitoral de 2016, morreram outros 28. Fora 24 líderes comunitários desaparecidos. Vereadora do PSOL é só ponta do icebergue

Marielle Franco era uma estrela política em ascensão, pré-candidata a vice-governadora nas próximas eleições pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e dada como eventual prefeita do Rio de Janeiro ou como deputada federal em Brasília num futuro próximo. E era jovem, fotogénica e do Sudeste do Brasil, a região dos dois estados mais mediáticos do país, Rio e São Paulo. Mas antes dela, só neste ano, já sete líderes comunitários haviam sido executados, num total de 24 desde 2014. Nos últimos dois anos, 40 políticos eleitos foram assassinados. No sangrento período eleitoral que antecedeu as eleições municipais de 2016, morreram 28 candidatos.

Na última segunda-feira, 48 horas antes da morte de Mariella no centro do Rio de Janeiro, Paulo Nascimento, líder da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazónia, foi alvejado a tiro do lado de fora da sua casa, em Barcarena, no Pará. Denunciava os dejetos tóxicos libertados pela refinaria Hydro Alunorte nas águas da região desde o início do ano. Uma semana antes, George Rodrigues, líder comunitário do Recife, foi encontrado com marcas de tiros e um arame enrolado ao pescoço num matagal às margens de uma estrada de terra. Ele havia sido sequestrado por quatro homens que se apresentaram como polícias. A lista, divulgada pelo site Opera Mundi, inclui uma interminável sequência de membros de movimentos sociais, líderes sindicais ou caciques indígenas mortos quase sempre a tiro e, eventualmente, torturados, Brasil afora.

No portal G1, o registo não inclui lideranças comunitárias - apenas políticos locais, prefeitos ou vereadores, assassinados. São quatro dezenas desde as eleições municipais de 2016, em cuja campanha já 28 candidatos haviam sido abatidos, apesar dos 25 mil agentes de segurança que acompanharam comícios e outros eventos pelo país. O Sudeste, a mediática e mais densamente povoada das cinco regiões do Brasil, soma apenas seis casos, já contando com o brutal assassinato de Marielle. Os outros 34 são no Nordeste (15), no Norte (9), no Centro-Oeste (5) e no Sul (5). No dia 24 de janeiro, por exemplo, foi executado a tiro à porta de casa Marcos Rocha, prefeito de Pau Brasil, na Bahia, que, por sua vez, havia estado preso por suspeita de ter mandado matar o presidente da Câmara de Vereadores da cidade, Walderlins Matos, em 2012.

Luís Fux, um dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, resumiu a epidemia de mortes políticas a "um défice civilizatório". "As execuções são efetuadas tanto por gente completamente na ilegalidade, como traficantes, como por gente que opera no mundo legal", acrescentou ao G1 o pesquisador do Grupo de Violência e Cidadania da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Francisco Amorim. "Mata-se para marcar território, intimidar ou silenciar uma voz e para dar um recado a toda a sociedade de que a regra paralela é mais forte", acrescentou.

Para Paulo Cesar Moreira, da coordenação da Pastoral da Terra, as zonas rurais e as periferias dos grandes centros são as áreas mais afetadas: "No campo e nas regiões mais pobres das cidades vive-se um momento de acirramento e conflito marcado pela sensação de impunidade." "A Marielle era de uma grande cidade mas falava para as pessoas da periferia sobre as violências das autoridades e do Estado, a perda por isso é grande."

O primeiro crime de um ativista a ganhar a repercussão nacional - e mundial -, que o de Marielle e do motorista Anderson Gomes ganhou nos últimos dias, foi o de Chico Mendes, ambientalista nascido no estado do Acre que defendia os direitos dos seringueiros da Amazónia, em 1988. Mendes, que foi o mentor de Marina Silva, a terceira mais votada nas eleições presidenciais de 2010 e 2014 e pré-candidata pelo Rede Sustentabilidade em outubro, foi assassinado a tiros de caçadeira na porta dos fundos da sua casa. Dois anos depois, dois fazendeiros da região, pai e filho, foram condenados a 19 anos de prisão pelo crime. Devido à cobertura da execução nos media internacionais, foi criada uma reserva extrativista na Amazônia, batizada de Reserva Chico Mendes, uma das suas reivindicações.

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