"Marcelo está cá. Nós vemo-lo muito em Lisboa. Aproveitem vocês"

Cimeira da CPLP decorre até esta quarta-feira em Santa Maria, na ilha do Sal, em Cabo Verde. Presidente português é um dos líderes que participam neste importante evento da lusofonia

Os habitantes de Santa Maria já estão acostumados a grandes eventos culturais e políticos com a presença de convidados estrangeiros. O movimento na cidade também é algo que já faz parte da rotina dos salenses, ou não fosse a ilha o principal destino turismo do país, titulo que nos últimos anos tem vindo a repartir com a ilha vizinha da Boa Vista.

À porta de uma galaria de artes, o taxista Eduardo, faz esperar alguns minutos uma cliente para atender à curiosidade do jornalista. "Se a Cimeira da CPLP traz mais movimentos à cidade, mais negócios?" O jovem, que quando não está ao volante do seu táxi é Dj numa das muitas noites tórridas de Santa Maria, repete a pergunta, mas a resposta, esta, parece preparada há muito tempo: "Para ser sincero é a primeira vez que todo este movimento aqui na Ilha do Sal, em Santa Maria, mas não vejo nada de diferente. Não sei, tenho que ver qual o objetivo disto tudo, mas, para já, não vejo nada."

Um pouco mais frente há um grupo de turistas que pelo teor da conversa parecem estar a regatear o preço de uma peça de artesanato local. Francisco Dias veio do norte de Portugal passar uns dias de sol e praia e desde ontem soube que o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, está em Cabo Verde, mas prefere não ir ao hotel onde ele está: "A gente vê-o tantas vezes em Lisboa, tira fotografias com ele, ele é muito simpático, aproveitem vocês".

O portuense sabe que Marcelo é um dos chefes do Estado convidados para a XII cimeira da CPLP, mas quanto à missão da comunidade... "Lisboa é ótima, tudo o que é português é bom, e todos aqueles que tiverem os portugueses a ajudar também é bom, aliás eu penso que o sentimento é recíproco".

Quem parece depositar mais esperanças que a cimeira da CPLP traga resultados concretos para os cidadãos da comunidade é o guineense Dema Balde. Há cinco anos a viver na ilha do Sal, ainda não tem autorização da residência. À porta da sua "barraca" no mercado de artesanato no centro da cidade, o guineense, de 25 anos, queixa-se das exigências do serviço de emigração e fronteiras: "A situação é a mesma quer estejas cá há sete ou há 10 anos, pedem-nos oito documentos para podermos ter acesso à autorização de residência. É uma coisa que faz muita falta, temos que ter os documentos para podermos viver aqui na tranquilidade".

A XII cimeira da CPLP decorre esta terça e quarta-feira em Cabo Verde, na ilha do Sal, onde já se encontram os chefes do Estado de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe. O presidente do Brasil, Michel Temer, país que detém ainda a presidência rotativa da comunidade lusófona, tinha chegada marcada para mais tarde. O presidente timorense, Francisco Guterres, que já havia confirmado a sua presença na cimeira, cancelou a viagem devido à situação politica interna do país.

Na ilha do Sal,
Cabo Verde

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