Malala regressa emocionada e pede prioridade à educação

Pela primeira vez desde que foi baleada, em 2012, Nobel da Paz volta ao seu país e defende unidade face à ameaça islamita.

"Eu não costumo chorar... só tenho 20 anos e já passei por tanta coisa na minha vida. Mas se dependesse de mim nunca teria deixado este lugar", declarou ontem Malala Yousafzai, visivelmente emocionada naquela que é a primeira visita ao Paquistão desde o ataque dos talibãs, a 9 de outubro de 2012, que a deixou entre a vida e a morte. A jovem procurava assim justificar o sentimento intenso que vivia no momento de regresso "à minha nação e de estar, de novo, entre o meu povo".

Malala falava em Islamabad, numa intervenção, transmitida em direto pelas televisões, perante um auditório superlotado, após um encontro com o primeiro-ministro Shahid Khaqan Abbasi. Acompanhada pelo pai e pelo irmão mais novo, por mais de uma vez na sua intervenção, a jovem não conseguiu impedir que as lágrimas lhe corressem pelo rosto. Um rosto que teve de ser submetido a cirurgia reconstrutiva por causa dos tiros dos talibã e que lhe desfizeram também parte do crânio. Hoje, a jovem vive com uma placa de titânio adaptada ao crânio e teve de receber um implante auditivo no ouvido esquerdo.

O ataque talibã, que ocorreu quando Malala regressava de exames, foi reivindicado pelo Tehrik-i-Taliban, com os islamitas a afirmarem que a jovem fora visada por ser "a favor da paz", anti-talibã e defender uma agenda secular.

Envergando o traje tradicional do Paquistão, o salwar kameez, e um lenço longo, a dupatta, associado à modéstia na Ásia do Sul, Malala, falando em urdu, defendeu aquelas que considera as prioridades para o Paquistão: a educação, a saúde, o desenvolvimento económico. E apelou ainda à unidade entre todas as forças políticas não extremistas no país em defesa daquela que definiu como "a primeira preferência do povo paquistanesa: a democracia".

A visita de Malala, não anunciada previamente, decorre entre importantes medidas de segurança, deslocando-se a Nobel da Paz de 2014 acompanhada de forte escolta policial. A jovem, que foi admitida em 2017 na Universidade de Oxford, no mesmo curso realizado por Benazir Bhutto (que Malala tem como modelo a seguir), estará quatro dias no Paquistão, não se sabendo se irá visitar o local onde nasceu e viveu até aos 14 anos, o vale de Swat, cuja beleza, que leva a região a ser considerada "a Suíça da Ásia", evocou na sua intervenção de ontem.

No encontro com o primeiro-ministro Abbasi, Malala voltou a insistir na importância da educação, especialmente na "educação dos mais novos". E notou que o fundo que criou com a verba do Nobel da Paz já permitiu investimentos de "seis milhões de dólares para a educação de raparigas no Paquistão".

Malala foi largamente elogiada por Abbasi pelo exemplo dado na denúncia da violência talibã. "Eras uma rapariga de 13 anos quando partiste e agora és a pessoa mais famosa do país. O mundo inteiro respeita-te e assim também será no Paquistão". O governante garantiu ainda que a "tua segurança é nossa responsabilidade", e será garantida. Este é um ponto fulcral no futuro de Malala. Se os próximos anos serão passados no Reino Unido, a jovem desde há anos que diz querer enveredar por uma carreira política para influenciar as mudanças na sociedade paquistanesa. Mas como o destino de Benazir Bhutto, assassinada em dezembro de 2007 pelo mesmo grupo que atentou contra Malala, esta é uma ambição de muito alto risco.