Maduro prende gerentes de supermercados onde há fila

Desabastecimento é o problema mais grave para 30% dos inquiridos pela Datanálisis.

A história foi contada pelo próprio Nicolás Maduro num ato político transmitido pelo canal estatal de televisão. O presidente venezuelano ia a passar por um supermercado "desses grandotes" em Guarenas, a 40 km de Caracas, e resolveu parar porque viu a porta fechada. "Mandei investigar o que estava acontecer", afirmou, explicando que descobriu que o supermercado estava cheio de produtos, mas que o gerente tinha "recebido ordens para fechar as portas" e fazer o povo "fazer fila e sofrer". Resultado, deu ordem para que fosse preso de imediato. "Assim se fez, está preso", concluiu o presidente venezuelano.

O estabelecimento em causa é uma sucursal de uma rede de supermercados que é propriedade de empresários portugueses radicados na Venezuela, os Automercados Plaza"s. Na realidade, algumas das principais redes privadas de supermercados do país são de portugueses ali radicados. "Onde existirem gerentes que ponham o povo a fazer fila, têm de ir presos. Justiça, justiça", clamou o presidente em plena campanha para as eleições parlamentares de domingo, que podem ditar a perda da maioria chavista na Assembleia Nacional.

Uma sondagem Datanálisis, feita no início de novembro, revelava que para 30% dos venezuelanos o principal problema do país é o desabastecimento. Segundo Maduro, que diz estar a travar-se uma "guerra económica", a culpa da escassez e da falta de produtos é do setor empresarial que se opõe ao chavismo. Contudo, segundo a mesma sondagem, 70% das pessoas inquiridas não acredita na "guerra económica".

Na Venezuela são cada vez mais frequentes as filas junto dos supermercados de pessoas à procura de produtos como o café, a massa, o arroz, o açúcar, os ovos, o leite em pó, o óleo vegetal, entre outros produtos básicos, como sabão ou papel higiénico. Muitas vezes, os produtos são vendidos à medida que são descarregados dos camiões, sem chegarem a ser colocados nas prateleiras. Nestes casos, as vendas são feitas perante oficiais da Guarda Nacional Bolivariana (polícia militar) e de membros do Conselho Comunal (associação de vizinhos) e até de militantes do PSUV.

"Nos últimos meses, a situação piorou de forma horrível. Por exemplo, não há fraldas para crianças e adultos. E quando chegam, temos de chamar a polícia para que evite que as pessoas entrem como animais", indicou Orlando Medina, auxiliar de farmácia em Caracas, ao jornal colombiano El Tiempo, numa reportagem feita em julho. Desde então, a situação não parece contudo ter melhorado.

À porta das lojas estão afixados cartazes que indicam as quantidades máximas de produtos que cada pessoa pode comprar. E o dia específico em que os podem comprar - depende do número do bilhete de identidade. Para controlar as compras, em alguns sítios são registadas as impressões digitais. O objetivo é impedir o açambarcamento de produtos e travar os "bachaqueros", nome dado às pessoas que compram os produtos cujos preços são regulados pelo governo para depois os vender mais caros no mercado negro ou noutro país.

Com os preços baixos, a indústria não produz o suficiente para fazer face à procura e a falta de dólares impede a importação de matérias-primas e outros produtos. Isso leva a um aumento dos preços, com a inflação a chegar aos 200%, segundo organismos internacionais.

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