Macron aplica restrições a partir de terça-feira e adia eleições municipais

"O inimigo está aí", declarou Macron. Franceses proibidos de se reunirem no exterior e eleições adiadas, como alguma oposição exigia desde sábado à noite, horas antes da primeira volta das municipais.

O presidente francês voltou a dirigir-se aos compatriotas numa mensagem televisiva. Apenas cinco dias depois de ter dado ordens para o encerramento de todas as escolas mas mantido a primeira volta das eleições municipais, agora o tom mudou de solene para grave, com a aplicação de restrições de movimentos e o adiamento das eleições. "Este esforço que vos peço que façam, sei que é inédito, mas as circunstâncias obrigam-nos a fazê-lo. Estamos em guerra, a nível sanitário, é certo, mas o inimigo está aí, e isso requer a nossa mobilização geral", explicou Emmanuel Macron.

"Não serão mais permitidas reuniões externas, reuniões familiares ou encontros amigáveis... Em todo o território francês, tanto na França metropolitana como no estrangeiro, só devem permanecer as viagens necessárias para ir às compras com disciplina, para ir receber tratamento, para ir ao trabalho e para fazer alguma atividade física", disse. Macron pediu aos franceses para ficarem em casa e manterem a calma. "Todos temos de ter um espírito de responsabilidade."

Antes, criticara o comportamento dos franceses no fim de semana. "Vimos pessoas a juntarem-se em parques, mercados apinhados, restaurantes, bares que não respeitavam as instruções de fecho, como se a vida não tivesse mudado. A todos aqueles que desafiaram as ordens finais, quero dizer esta noite muito claramente: não só não se está a proteger a si próprio (...) como não está a proteger os outros", disse Macron.

Com base nesta restrição de movimentos, que durará pelo menos 15 dias, as eleições foram adiadas sine die.

Além das medidas tomadas para que os cidadãos evitem os ajuntamentos, Macron anunciou o encerramento das fronteiras da UE com o exterior. "A partir de amanhã ao meio-dia, as fronteiras à entrada da União Europeia e do espaço Schengen serão fechadas. Em termos concretos, todas as viagens entre países não europeus e países da UE serão suspensas por 30 dias."

Mudança de discurso

O tom mudou radicalmente desde quinta-feira sobre o adiamento das eleições municipais, agora exigidas por quase toda a classe política. No domingo, a abstenção atingiu um recorde (56%). E o número de mortes pelo covid-19 aumentou para 120, estando identificados 5.400 casos de pessoas infetadas.

O primeiro-ministro Édouard Philippe começou segunda-feira de manhã a consultar por telefone os líderes partidários e os presidentes da Assembleia Nacional e do Senado sobre a pertinência de manter a segunda volta das eleições municipais agendada para domingo.

"A situação da saúde no nosso país deve orientar todas as nossas decisões. Tudo o resto é secundário", disse o líder dos socialistas franceses Olivier Faure, segundo o qual organizar a segunda volta sob estas condições "pareceria lunar".

Segundo a AFP, o presidente Emmanuel Macron já tinha considerado, na quinta-feira passada, o adiamento da votação, incluindo a primeira volta. Mas a oposição, especialmente à direita, mostrou-se contra. E, numa alocução ao país, naquele dia, o chefe de Estado disse que iria manter a realização do escrutínio, após ter ouvido os especialistas em saúde.

"Se assim fosse, seria um golpe de Estado", disse o presidente de Os Republicanos Christian Jacob, que entretanto ficou infetado com o novo coronavírus. Ainda mais à direita, o número dois da União Nacional Jordan Bardella, criticou um "amadorismo extremamente preocupante para o futuro".

No grupo de políticos que se mostrou contra o adiamento incluiu-se o presidente do Senado Gérard Larcher, o presidente da Associação de Autarcas Franceses, François Baroin, assim como alguns notáveis maires como as socialistas Martine Aubry e Anne Hidalgo.

Perante o anúncio, sábado à noite, das novas medidas de contenção anunciadas pelo primeiro-ministro políticos de todos os campos apelaram, escassas horas antes, ao adiamento das eleições.

"A segunda volta não terá obviamente lugar dado o previsível agravamento da epidemia", disse domingo à noite Marine Le Pen, a presidente da União Nacional, que decidiu confinar-se "como precaução" em casa na segunda-feira.

Também o líder da bancada parlamentar de Os Republicanos no Senado, Bruno Retailleau, considerou "irrazoável manter a segunda ronda".

Entretanto muitos candidatos pararam a sua campanha.

No entanto, muitos pedem para não anular a eleição. As vitórias na primeira volta devem ser tomadas como "adquiridas" e as outras "adiadas", disse Le Pen. Do outro lado do espetro político, a mesma ideia: "Gostaria que os presidentes de câmara eleitos na primeira volta fossem admitidos, por respeito aos eleitores", disse o secretário-geral do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, à AFP.

O secretário dos Verdes, Julien Bayou, pediu uma resposta rápida e " transparente". "O que queremos é que esta decisão seja fruto de um consenso político", disse, e que "se baseie numa base científica".

Emmanuel Macron deverá tomar a decisão nas próximas horas.

Com a discussão centrada na epidemia, os resultados (que antes tinham um peso como teste à popularidade de Macron e do seu partido) passaram para segundo plano. Em Paris, Anne Hidalgo, a atual autarca, recebeu 29,3% dos votos, seguida da republicana Rachida Dati (22,7%) e da ex-ministra da Saúde Agnès Buzyn (La République en Marche, 17,2%).

O ministro das Finanças, Gérald Darmanin, foi eleito à primeira volta em Tourcoing. O primeiro-ministro, Édouard Philippe, lidera com 43% a corrida a Havre, enquanto em Lille, a metrópole do Norte, a socialista Martine Aubry lidera a contagem (30%).

(Atualizada às 19.40)

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