Macri consolida poder em dia de derrota para Kirchner

Ex-presidente foi eleita senadora, mas admite que resultados foram insuficientes

O presidente argentino, Mauricio Macri, conseguiu nas legislativas de domingo consolidar o seu poder, ao ver a coligação de centro-direita Cambiemos aumentar a sua representação no Congresso, apesar de não ter conseguido a maioria. Menos sorte teve a sua antecessora, Cristina Kirchner, que, apesar de ter conseguido ser eleita senadora, não foi a mais votada na província de Buenos Aires, e os resultados a nível nacional deixaram a União Cidadã como a segunda maior força na Câmara dos Deputados e a terceira no Senado.

Com os resultados das legislativas deste domingo - no qual estavam a concurso quase metade da Câmara dos Deputados (127 em 257) e um terço do Senado (24 em 72) -, o Cambiemos de Macri passa a ter 107 deputados (mais 21) e 24 senadores (mais nove) - para a maioria precisava de 129 no primeiro caso e 37 no segundo.

Quanto à Câmara dos Deputados, o kirchnerismo perdeu sete lugares, passando agora a ter 66 parlamentares. Seguem-se os peronistas, que, com 34 deputados, neste domingo conseguiram duplicar a sua representação. No Senado, o peronismo é a segunda maior força, com 22 eleitos, apesar de ter perdido cinco senadores. A União Cidadã manteve os seus 11 assentos - Kirchner conseguiu ser eleita por Buenos Aires, mas foi a segunda mais votada, tendo ficado atrás de Esteban Bullrich, do Cambiemos, com cerca de 400 mil votos de diferença.

No domingo à noite, Kirchner garantiu que a sua União Cidadã é a força política que "mais cresceu nestas eleições", apesar de reconhecer que os resultados foram insuficientes. "Não nascemos como uma força televisiva, sempre fomos uma força nacional e popular. A União Cidadã veio para ficar. É a base da construção para a alternativa a este governo", afirmou a mulher que habitou a Casa Rosada entre 2007 e 2015.

Mauricio Macri não conseguia esconder no domingo a sua satisfação com os resultados destas legislativas, que vieram confirmar o poder do presidente e levaram vários analistas políticos argentinos a dizer que este pode começar a sonhar com a sua reeleição em 2019. "A etapa mais difícil já passou, estamos a crescer com transparência, equidade e trabalho de equipa", afirmou. "Hoje confirmámos o nosso compromisso com a mudança", acrescentou.

A nova composição do Congresso é também favorável a que Macri tenha o apoio político para acentuar a abertura económica do país e fazer as reformas fiscal e laboral de que precisa. Nesse sentido, ontem o presidente argentino anunciou ontem que irá alargar a cimeira de governadores que tinha prevista para sexta-feira - e que deverá ser adiada para a próxima semana - a legisladores, sindicalistas, empresários e membros do poder judicial. Objetivo: criar um consenso nacional para avançar com as "reformas de que o país precisa", disse.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.