Lula divulga carta onde diz esperar "justiça, simplesmente justiça"

Divulgado nesta noite, no documento o ex-Presidente brasileiro diz que foram praticados "atos injustificáveis de violência contra" si e a sua família. Leia a carta na íntegra

Numa carta divulgada nesta madrugada de quinta-feira (ainda quarta-feira no Brasil), Lula da Silva declara que a sua "intimidade", bem como a da sua "esposa", "filhos" e "companheiros de trabalho" tem sido "violentada por meio de vazamentos ilegais de informações que deveriam estar sob a guarda da Justiça".

"Foram praticado atos injustificáveis de violência contra minha pessoa e de minha família", acusa Lula, referindo-se a "processos" que foram "conhecidos primeiro pela imprensa e só depois pelos diretamente e legalmente interessados".

Lula referia-se à polémica gravação e divulgação de conversas telefónicas. O diálogo entre o ex-Presidente e Dilma Rousseff e o seu antecessor Lula da Silva foi registado pelas autoridades e divulgado pela comunicação social na quarta-feira. O juiz Sérgio Moro afirmou já que não pretende excluir a escuta das investigações realizadas no âmbito da operação Lava-Jato. Nelas há indícios que podem ser interpretados como uma tentativa de evitar a prisão de Lula através da sua nomeação para o governo.

O ex-Presidente assinou esta manhã a tomada de posse como ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff, um cargo equivalente ao de primeiro-ministro, mas logo a viu suspensa. O juiz Itagiba Neto, da Justiça Federal do Distrito Federal, suspendeu a sua nomeação, decisão.

Horas depois, foi uma juíza da 6.ª Vara Federal do Rio de Janeiro que deu esta tarde de quinta-feira (noite em Lisboa) deferimento a uma ação popular suspendendo a posse do ex-Presidente como chefe da Casa Civil.

Reiterando confiança nas instituições do Estado democrático, Lula diz na carta aberta esperar "justiça, simplesmente justiça". O ex-Presidente evocou ainda o respeito pelo "Judiciário" que manifestou nos oito anos em que governou o Brasil.

Leia na íntegra:

Carta aberta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Creio nas instituições democráticas, na relação independente e harmônica entre os Poderes da República, conforme estabelecido na Constituição Federal.

Dos membros do Poder Judiciário espero, como todos os brasileiros, isenção e firmeza para distribuir a Justiça e garantir o cumprimento da lei e o respeito inarredável ao estado de direito.

Creio também nos critérios da impessoalidade, imparcialidade e equilíbrio que norteiam os magistrados incumbidos desta nobre missão.

Por acreditar nas instituições e nas pessoas que as encarnam, recorri ao Supremo Tribunal Federal sempre que necessário, especialmente nestas últimas semanas, para garantir direitos e prerrogativas que não me alcançam exclusivamente, mas a cada cidadão e a toda a sociedade.

Nos oito anos em que exerci a presidência da República, por decisão soberana do povo - fonte primeira e insubstituível do exercício do poder nas democracias - tive oportunidade de demonstrar apreço e respeito pelo Judiciário.

Não o fiz apenas por palavras, mas mantendo uma relação cotidiana de respeito, diálogo e cooperação; na prática, que é o critério mais justo da verdade.

Em meu governo, quando o Supremo Tribunal Federal considerou-se afrontado pela suspeita de que seu então presidente teria sido vítima de escuta telefônica, não me perdi em considerações sobre a origem ou a veracidade das evidências apresentadas.

Naquela ocasião, apresentei de pleno a resposta que me pareceu adequada para preservar a dignidade da Suprema Corte, e para que as suspeitas fossem livremente investigadas e se chegasse, assim, à verdade dos fatos.

Agi daquela forma não apenas porque teriam sido expostas a intimidade e as opiniões dos interlocutores.

Agi por respeito à instituição do Judiciário e porque me pareceu também a atitude adequada diante das responsabilidades que me haviam sido confiadas pelo povo brasileiro.

Nas últimas semanas, como todos sabem, é a minha intimidade, de minha esposa e meus filhos, dos meus companheiros de trabalho que tem sido violentada por meio de vazamentos ilegais de informações que deveriam estar sob a guarda da Justiça.

Sob o manto de processos conhecidos primeiro pela imprensa e só depois pelos diretamente e legalmente interessados, foram praticado atos injustificáveis de violência contra minha pessoa e de minha família.

Nesta situação extrema, em que me foram subtraídos direitos fundamentais por agentes do estado, externei minha inconformidade em conversas pessoais, que jamais teriam ultrapassado os limites da confidencialidade, se não fossem expostas publicamente por uma decisão judicial que ofende a lei e o direito.

Não espero que ministros e ministras da Suprema Corte compartilhem minhas posições pessoais e políticas.

Mas não me conformo que, neste episódio, palavras extraídas ilegalmente de conversas pessoais, protegidas pelo Artigo 5º. da Constituição, tornem-se objeto de juízos derrogatórios sobre meu caráter.

Não me conformo que se palavras ditas em particular sejam tratadas como ofensa pública, antes de se proceder a um exame imparcial, isento e corajoso do levantamento ilegal do sigilo das informações.

Não me conformo que o juízo personalíssimo de valor se sobreponha ao direito.

Não tive acesso a grandes estudos formais, como sabem os brasileiros. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado; o justo do injusto.

Os tristes e vergonhosos episódios das últimas semanas não me farão descrer da instituição do Poder Judiciário. Nem me farão perder a esperança no discernimento, no equilíbrio e no senso de proporção de ministros e ministras da Suprema Corte.

Justiça, simplesmente justiça, é o que espero, para mim e para todos, na vigência plena do estado de direito democrático.

Luiz Inácio Lula da Silva

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