Luís salvou Boris, mas arrisca ter de pagar a taxa de saúde britânica

Primeiro-ministro britânico criticado por defender manutenção e o aumento da sobretaxa anual de saúde aplicada aos trabalhadores imigrantes. Originários da União Europeia ainda são isentos mas o Brexit pode consumar-se em janeiro e portugueses como o enfermeiro Luís Pitarma, que tratou Boris no hospital, passam a pagar.

Os profissionais de saúde do Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico que nasceram fora do Reino Unido estão a sentir-se atraiçoados por Boris Johnson. O primeiro-ministro inglês defende que os estrangeiros - mesmo os médicos e enfermeiros do NHS - devem pagar ainda mais pela sobretaxa de utilização dos serviços de saúde públicos.

Assim, a neozelandesa Jenny McGee, que com o enfermeiro português Luis Pitarma salvou Boris Johnson quando o governante esteve internando com covid-19, tem de pagar agora 400 libras (445 euros) por ano, mas o valor em outubro sobe para 624 (695 euros), foi hoje anunciado. O português ainda não está sujeito à taxa, que para já não se aplica a originários de países da UE, mas pode ficar a partir de janeiro, quando se consumar o Brexit.

Boris Johnson agradeceu, em abril, aos dois enfermeiros, referindo-se ao português como "o Luís de perto do Porto" [é de Aveiro], pela forma como o trataram no período em que esteve nos cuidados intensivos do St Thomas Hospital, em Londres. Agora, no Parlamento, admitiu que foram profissionais estrangeiros que lhe salvaram a vida mas apontou a sustentabilidade do sistema como justificação para pagarem a sobretaxa. São 900 milhões por ano, apontou.

"Apunhalados pelas costas", foi como muitos enfermeiros e médicos estrangeiros se sentiram, relata a imprensa inglesa, quando ouviram a manutenção da sobretaxa e o aumento do valor a pagar. Para mais, Johnson defendeu a sobretaxa de saúde de imigração ao mesmo tempo em que revelava que 321 profissionais do NHS e de assistência social, muitos deles nascidos fora da Reino Unido, morreram depois de contrair Covid-19.

Além disso, muitos destes imigrantes - os porteiros, pessoal de limpeza e assistentes, que têm salários mais baixos - foram excluídos do modelo de luto do NHS, que concede às famílias um subsídio e a licença por tempo indeterminado para permanecerem no Reino Unido, se o familiar morrer de coronavírus.

O líder trabalhista Keir Starmer instou Johnson a repensar a legislação. Mas o primeiro-ministro defendeu a proposta: "Salvaram-me a vida, é verdade. Mas temos de olhar para a realidade. Este é um ótimo serviço nacional, é uma instituição que precisa de financiamento e essas contribuições ajudam a arrecadar cerca de 900 milhões de libras (1000 milhões de euros), e é muito difícil, nas circunstâncias atuais, encontrar fontes alternativas. É o caminho certo a seguir."

Starmer disse que ficou "dececionado" com a resposta e prometeu apresentar uma emenda ao Projeto de Lei.

Atualmente, sob as regras de imigração britânicas, os trabalhadores que chegam ao Reino Unido de fora do Espaço Económico Europeu são obrigados a pagar a taxa para poder usar o serviço de saúde.

A sobretaxa do NHS custa 300 libras (334 euros) por ano para vistos de estudante e 400 (445 euros) para todos os outros pedidos de visto e imigração. Em outubro irá subir para 624 libras (695 euros) por ano.

Donna Kinnair, secretária geral do sindicato que representa 450 mil profissionais de saúde e assistência médica em todo o Reino Unido, disse que a "pandemia atual serviu para reafirmar a importância de nossa equipa com formação internacional".

"Pedimos ao governo que reconsidere e renuncie a essa cobrança para a equipa de saúde do exterior por uma questão de urgência. Já recebemos contas devastadoras de membros que estão a lutar para pagar a taxa e o impacto que isso causa na vida das suas famílias", afirmou. "Sem eles aqui, o atendimento ao paciente estaria em risco", assegurou.

De acordo com dados divulgados pela Ordem dos Enfermeiros, em janeiro, o Reino Unido é o país para onde emigraram mais enfermeiros portugueses. É o caso de Luís Pitarma que depois de ter terminado a licenciatura (2013), foi para o Reino Unido. Começou por trabalhar nos arredores de Londres, no Hospital Universitário Luton e Dunstable - sempre no serviço nacional de saúde. E, passados dois anos, integrou a equipa do Hospital de St. Thomas. É um dos muitos profissionais de saúde a exercer no Reino Unido.

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