Lei proíbe publicar sondagens em Espanha. Eleitores viram-se para Andorra

O jornal 'El Periòdic d'Andorra' contorna a proibição em Espanha com um 'tracking' diário até domingo. O primeiro ainda não reflete o debate de segunda-feira à noite.

A campanha eleitoral mais curta de sempre em Espanha vai a meio e a divulgação de sondagens é proibida desde a meia-noite. O resultado é que os olhares dos eleitores espanhóis se voltam para o pequeno país dos Pirenéus e para o jornal El Periòdic d'Andorra que, à semelhança de outros anos, contorna a proibição e vai publicar até domingo o "tracking" pré-eleitoral feito pelo catalão Gabinete de Estudos Sociais e Opinião Pública (GESOP).

Os primeiros dados divulgados em Andorra ainda não refletem o debate eleitoral de segunda-feira à noite (as 861 entrevistas foram feitas entre 31 de outubro e 4 de novembro) e mostram o que tem sido tendência até agora: um desgaste das forças de esquerda, nomeadamente o PSOE de Pedro Sánchez e a aliança Unidas Podemos de Pablo Iglesias, com o Más País, do ex-líder e fundador do Podemos Íñigo Errejón, que entrou em rutura com Iglesias, a surgir como mais uma alternativa.

Em relação ao anterior estudo do GESOP, divulgado a 31 de outubro, o PSOE cai um ponto percentual dos 27,7% para os 26,6%. A estimativa de deputados é agora de 115 a 120, frente aos 123 que conquistou em abril. Já a Unidas Podemos cai de 13,4% para 12,8% e pode perder até oito deputados em relação aos atuais 42. O Más País surge com entre 2 e 4 deputados,

À direita, os ganhos são do partido com a posição mais extremada, o Vox, que poderá duplicar o número de deputados, pouco mais de seis meses depois de se estrear no Congresso espanhol e chegar a terceira força política do país. O partido de Santiago Abascal sobe de 14,2% para 15%, podendo eleger entre 50 e 55 deputados, frente aos 24 que conquistou em abril.

A ascensão do Vox é feita às custas do Ciudadanos, de Albert Rivera, que passaria de 57 deputados para entre 13 e 17. Surge na sondagem com 8,2%, menos 0,2 pontos do que na sondagem de 31 de outubro.

O Partido Popular, de Pablo Casado, também está em queda. Em relação à última sondagem GESOP cai de 19,5% para 19%, apesar de o resultado ser melhor do que nas eleições de abril em que só conseguiu 66 representantes. Podem agora ter entre 80 e 85 representantes.

A sondagem do El Periòdic d'Andorra dá à esquerda entre 151 e 162 deputados, colocando a direita com entre 143 e 157 representantes. A maioria absoluta são os 176 deputados. Ou seja, repete-se o bloqueio verificado após as eleições de abril.

Quando emojis são partidos

Em 2015, depois de a lei que proíbe as sondagens ser modificada para incluir como crime a reprodução dos números, o Electrograph no Twitter inventou a ideia da "frutaria de Andorra", no qual os partidos eram substituídos por frutas, vegetais e até gotas de água e as percentagens por preço por quilo.

A mesma ideia foi adaptada agora pelo site Electomania: o PSOE é uma rosa, o PP é uma gota de água, a Unidas Podemos é uma beringela, o Ciudadanos é uma laranja, e o Vox são brócolos.

Debate eleitoral

O candidato socialista, Pedro Sánchez, procura no domingo uma maioria reforçada, desta vez com mais um adversário à esquerda capaz de lhe roubar votos: o Más País, de Errejón, que não teve contudo lugar no debate a cinco de segunda-feira à noite entre Sánchez, Casado, Rivera, Iglesias e Abascal.

Errejón, ao contrário de Iglesias, mostra-se mais aberto a negociar um acordo com Sánchez que, no frente a frente, insistiu que deve haver um pacto entre os partidos para que deixem governar o mais votado, evitando novo bloqueio. Iglesias insiste na ideia de um governo de coligação, não parecendo aberto a essa hipótese.

As sondagens não dão a maioria à esquerda, mas também não a dão à direita. A ascensão da extrema-direita do Vox faz-se às custas do Ciudadanos. Se Albert Rivera estava à espera de um bom desempenho no debate para reverter a situação, face ao estreante Abascal, então deparou-se com más notícias.

Nas sondagens feitas após o debate por vários meios de comunicação espanhóis nas suas páginas da Internet, Rivera era apontando como tendo tido o pior desempenho. E várias delas deram até Abascal como o vencedor da noite, depois da promessa de ilegalizar os partidos separatistas, uma redução "histórica" dos impostos e "combater a imigração ilegal" que "enche de crime as nossas ruas e discrimina e prejudica os espanhóis mais modestos".

Para os partidos, todos foram contudo os vencedores da noite. Sánchez porque esteve melhor do que em abril e não perdeu o ar de líder de governo. Casado porque é a única alternativa à direita e Rivera porque é uma alternativa ao bipartidarismo. Iglesias porque, diante das negativas do socialista em formar um governo progressista, mostrou que este só quer um acordo com a direita e surge como a alternativa à esquerda. Abascal porque conseguiu passar a sua mensagem na estreia nestes formatos.

O debate foi o menos visto dos últimos anos: foi seguido por 8632 mil espetadores, frente aos 9,5 milhões do debate de abril.

A última sondagem do Centro de Investigações Sociológicas (CIS) dizia que a política e os partidos são o segundo maior problema para os espanhóis -- só atrás do desemprego. Para 19,7% dos inquiridos eram até o primeiro problema, sendo que o quinto problema era "a falta de acordos" e a "instabilidade política". No mesmo estudo, 78,9% disseram que a situação política era má ou muito má (42,1% neste último caso).

O CIS perguntou ainda aos inquiridos que disseram que provavelmente não iriam votar (2779 numa amostra total de 17650) quais eram as suas razões: 35% disseram que estavam fartos da política, enquanto 22,5% diziam não estar de acordo com a repetição das eleições e 22% indicaram não estar convencidos por nenhum partido ou líder político.

Regresso à campanha

De volta à campanha, ainda a digerir o debate, Sánchez disse em Valladolid que viu uma "direita acobardada" e uma "extrema-direita encorajada". Na opinião do líder socialista, o frente a frente serviu para confirmar que "há apenas duas opções" no domingo: "Votar no PSOE para que se possa formar um Governo em Espanha ou votar no resto dos grupos políticos para continuar com o bloqueio."

Noutro comício, em Badajoz, Sánchez reforçou a ideia: "A primeira coisa que temos que fazer é acabar com o principal problema do nosso país, que é o bloqueio político. Se não tivermos governo, dificilmente vamos poder resolver esses problemas", referiu o líder socialista. "O senhor Iglesias diz que temos um pacto com o PP, o PP diz que temos um pacto com a extrema-direita, a extrema-direita que temos um pacto com os independentistas... este é o nível. Nós temos um plano, sim, que é o plano do PSOE, um governo progressista e forte", acrescentou.

Por seu lado, Casado assegurou em Santander que Sánchez perdeu o debate eleitoral "pelo seu silêncio e insegurança" e assegurou que "não há nada mais patriótico" do que expulsá-lo de Moncloa. O líder do PP disse ser "humilde" e por isso não iria dizer quem ganhou esse debate, ao mesmo tempo que insistiu que tinha sido Sánchez quem o havia perdido, ao confirmar, com o seu silêncio "ruidoso", que pretende "voltar a negociar" com os partidos independentistas catalães.

Errejón, que não esteve no debate, esteve em Bilbau e deixou o desafio: "Pomos sobre a mesa dois compromissos e duas garantias. Se toda a gente for votar haverá uma maioria progressista. Se houver, é preciso pôr a andar um governo e, se não o conseguirmos, nós os três devíamos ir embora: Pedro Sánchez, Pablo Iglesias e eu."

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