Laura Haigh: "Isto é violência organizada pelo Estado"

Em conversa telefónica com o DN, Laura Haigh, uma das principais autoras do relatório de dezembro da Amnistia Internacional sobre a crise dos rohingya e especialista em Birmânia, explicou a que tipo de perseguições esta comunidade está a ser sujeita.

Que provas existem de estar em curso uma tentativa de genocídio da população rohingya?

O que a AI documenta na investigação realizada é que está em curso uma campanha de violência contra os rohingya pelas forças militares e de segurança, uma ação de punição coletiva contra esta comunidade que pode configurar uma situação de crimes contra a humanidade. Estamos a assistir à violação dos direitos básicos, como por exemplo, execuções à margem da lei, o uso de força pelas autoridades com os militares a deslocaram-se às vilas e a obrigarem as populações a deixá-las, algemando civis sem qualquer razão ou abatendo-os de modo aleatório, a detenção de feridos a quem não é concedido qualquer tratamento, ou pessoas que são levadas para local incerto sem conhecimento dos familiares, sem formalização de quaisquer acusações ou acesso a apoio jurídico. Estão ainda documentadas situações de violações ou outros abusos sexuais de mulheres pelas forças de segurança da Birmânia, que foram entrevistadas algumas neste país e outras já no Bangladesh, testemunhos corroborados por elementos de outras agências. Há também casos de mulheres forçadas a tomarem medicamentos para abortarem, o que prova terem sido vítimas de agressões sexuais. E muitos dos testemunhos obtidos são de pessoas que tinham acabado de atravessar a fronteira.

Tem-se falado de povoações que são totalmente destruídas...

Recorremos à análise de imagens de satélite da área em causa [o estado de Rakhine] e, segundo as nossas estimativas, foram destruídas dezenas de milhares de infraestruturas, na maioria habitações. O governo tem insistido que são as próprias populações a incendiarem as suas casas, mas se observarmos com atenção as imagens ao longo do tempo nota-se que o padrão de destruição não é aleatório, há claramente alvos específicos em cada aldeia ou de uma aldeia em si, incendiada de forma sistemática. O padrão obedece mais ao de uma operação militar do que ações de guerrilha, também um dos argumentos do governo, ou a casos isolados de incêndio.

Isso prova que as populações estão a ser forçadas a deixarem os locais onde vivem?

O incêndio das casas é disso exemplo. Segundo a ONU, 30 mil pessoas foram já forçadas a deixarem a sua habitação. Mas, de facto, não é claro quantas pessoas estão a ser afetadas. Poderão ser muitas mais. Estamos a falar apenas daquelas que chegaram ao Bangladesh; há muitas outras refugiadas no Norte da Birmânia, que procuram esconder-se das forças de segurança. Muitas delas estarão sem documentos de identidade, o que piora ainda a situação, já que os rohingya têm um estatuto diferenciado na Birmânia. E se a questão é agora a de garantir a sua segurança, a longo prazo é o de saber o que lhes irá suceder.

Em anteriores crises, verificaram-se conflitos entre os rohingya, muçulmanos, e a restante população, budista. Há notícia agora de situações semelhantes?

Algumas situações, com as aldeias rohingya a serem atacadas e, principalmente, as mulheres têm sido assaltadas e roubadas ou aqueles que têm algum gado, este tem sido levado. Mas, ao contrário de 2012, a grande maioria da violência tem origem nas forças de segurança.

É o Estado a perseguir a população.

É, sem dúvida, o Estado birmanês a perseguir e reprimir uma parte da sua população. Uma realidade que vem do início dos anos 80 quando as autoridades começaram a restringir todos os direitos dos rohingya. Isto a que estamos a assistir é violência organizada pelo Estado.

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