Junqueras sugere Puigdemont apenas como presidente simbólico

Numa entrevista a partir da prisão, líder da ERC fala em combinar a presidência legítima, simbólica, com uma executiva. Juiz Pablo Llarena quer ouvir mais dirigentes independentistas por rebelião. Presos recorrem à ONU

O líder da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), Oriol Junqueras, detido há mais de três meses em Madrid, admitiu pela primeira vez que Carles Puigdemont possa não voltar a ser o presidente da Generalitat. Pelo menos não de forma efetiva. Junqueras sugeriu numa entrevista ao jornal espanhol Diario16, feita através dos advogados, que possa haver um presidente simbólico e outro executivo. O simbólico seria o cabeça de lista da Junts per Catalunya, autoexilado em Bruxelas para evitar a justiça espanhola.

Junqueras disse que "as circunstâncias podem obrigar ou impedir" que haja "uma presidência efetiva" da Generalitat, mas que "a questão é se o Parlamento pode investir um deputado eleito". Lembrando que esse é um "princípio democrático elementar", sugeriu que se combine "uma presidência legítima, apesar de simbólica, com uma executiva". E admitiu que uma presidência desde o exílio ou desde a prisão tem as mesmas dificuldades. Junqueras disse ainda esperar que não haja a repetição de eleições.

Questionado sobre a postura de Puigdemont, o líder da ERC respondeu que respeita a sua decisão. "Isso não significa que não haja diferentes pontos de vista", referiu, dizendo que "é preciso acender os máximos, porque às vezes os médios não deixam ver todo o caminho ou o horizonte". O líder da ERC fugiu à pergunta sobre se ficou magoado por o eleitorado ter preferido votar num Puigdemont em fuga do que nele, que estava detido, respondendo que "ficou magoado por ter sido privado de poder participar na campanha". Defendeu ainda assim um "grande resultado" para a ERC, que conquistou 32 deputados, frente aos 34 do Junts per Catalunya.

Para o presidente do Parlamento, Roger Torrent, "Puigdemont é e será o candidato à investidura" e a sessão vai realizar-se "quando for efetiva e estejam asseguradas todas as garantias". Numa entrevista à rádio RAC1, Torrent não saiu do guião que já usara para adiar a sessão de investidura, após o Tribunal Constitucional rejeitar que esta fosse feita à distância. Contudo, acrescentou: "É óbvio que avançámos mais quando fomos mais generosos, quando os partidos políticos e o conjunto do movimento da defesa da república fomos mais generosos. Então, por agora e para o futuro, também devemos assumir que avançaremos se formos o mais generosos possível".

Declarações que para alguns são um recado para que Puigdemont dê um passo ao lado - especialmente depois da divulgação das mensagens privadas, por parte da Telecinco, em que o ex-presidente da Generalitat admite que "isto acabou" e que está a ser "sacrificado".

Novos arguidos?

O juiz do Supremo Tribunal Pablo Llarena quer ouvir outros dirigentes independentistas, ao abrigo do processo por rebelião que mantém Junqueras detido em Madrid e Puigdemont autoexilado em Bruxelas. O ex-presidente da Generalitat, Artur Mas, as dirigentes da ERC, Marta Rovira, e do Partido Democrata Europeu Catalão, Marta Pascal, as ex-deputadas da Candidatura de Unidade Popular, Mireia Boya e Anna Gabriel, e a presidente da associação de municípios independentistas, Neus Lloveras, serão presentes ao juiz entre os dias 14 e 20 de fevereiro. Todos fariam parte do "comité estratégico" que desenhou o plano para declarar a independência unilateral da Catalunha.

A investigação já abrange todos os ex-membros do governo catalão, sendo que Junqueras e Joaquim Forn (Interior) estão presos e Puigdemont e outros quatro ex-consellers em Bruxelas. Envolve ainda seis membros da anterior Mesa do Parlamento por alegadamente facilitarem o processo independentista. Também detidos estão os dois ex-líderes das associações civis, Jordi Sánchez (Assembleia Nacional Catalã) e Jordi Cuixart (Òmnium Cultural), por causa de um protesto prévio ao referendo de 1 de outubro.

Forn sabe hoje a decisão do juiz sobre a sua libertação, depois de já ter renunciado a ser deputado e ter admitido que a declaração de independência foi simbólica. O ex-conseller , ao contrário de outros membros do governo, não foi libertado sob fiança por ser o responsável pelos Mossos d"Esquadra - que podem ter recebido ordens para facilitar o processo independentista.

Forn não se juntou aos outros três detidos no recurso apresentado junto do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária. "A sua detenção por Espanha constitui um insulto aos direitos humanos e destina-se a impedi-los de desempenharem o seu papel de representantes do povo catalão", disse o advogado Ben Emmerson, que representa Junqueras e os Jordis, num evento em Londres. "O caso não se destina a pedir à ONU para se pronunciar sobre a questão da independência da Catalunha, mas sim para que a ONU reafirme que um Governo não pode reprimir opositores políticos através de uma detenção arbitrária. Espanha deve libertar estes homens."

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