Juncker para Farage no Parlamento Europeu: "O que está aqui a fazer?"

Presidente da Comissão Europeia não deixou passar em branco a responsabilidade do líder do UKIP na vitória do brexit no referendo de dia 23 no Reino Unido

Há muito que Nigel Farage, o líder do eurocético UKIP, habituou a UE aos seus one man show no Parlamento Europeu (onde se senta desde 10 de junho de 1999). No passado chamou comunista e idiota a Durão Barroso (ex-presidente da Comissão Europeia) e comparou a uma esfregona húmida Herman Van Rompuy (ex-presidente do Conselho Europeu). Mas o dia de ontem foi diferente: em vez de one man show, houve two men show. Numa sessão especial da eurocâmara, ontem em Bruxelas, o atual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não deixou passar em branco a responsabilidade do eurodeputado britânico na vitória do brexit no referendo de dia 23.

"Até certo ponto estou surpreendido por vê-lo aqui. Lutou por uma saída [da UE], o povo britânico votou a favor da saída. O que é que está aqui a fazer?", disparou Juncker na direção de Farage, o qual surgiu com uma bandeira do Reino Unido em cima da mesa. O presidente da Comissão, ex-primeiro-ministro do Luxemburgo a quem muitos chamam o último dos federalistas da UE, comentou o resultado do referendo britânico, 52% pelo "sair" e 48% pelo "ficar". A Europa, afirmou, "deve respeitar a democracia britânica e a forma como se expressou". Nesse momento Farage aplaudiu, Juncker ripostou na sua direção: "É a última vez que aplaude aqui."

Em seguida foi a vez de o líder do UKIP passar ao ataque. "É engraçado que, há 17 anos, quando eu disse que queria liderar uma campanha para tirar os britânicos da União Europeia, todos aqui se tenham rido de mim. Bem, agora não vejo ninguém a rir", declarou, defendendo que o Reino Unido deve ativar o mais rapidamente possível o artigo 50.º do Tratado de Lisboa para sair da UE. "Vou deixar uma previsão aqui hoje: o Reino Unido não será o último Estado membro a sair da UE." E como se ainda não tivesse enfurecido os seus colegas o suficiente, Farage fez ainda esta acusação: "Agora sei que nenhum de vós teve alguma vez um emprego digno desse nome, trabalhou em negócios, trabalhou no comércio, criou um único posto de trabalho."

Juncker meteu depois ainda mais o dedo na ferida, acusando a campanha de Farage pelo "sair" de ter enganado os eleitores ao prometer que se votassem pelo brexit havia 350 milhões de libras que em vez de irem para a UE poderiam servir para financiar o serviço nacional de saúde (ver reportagem nas páginas 8 e 9). Farage corrigiu ontem essa cifra e falou em apenas 34 milhões, noticiou a agência Reuters. "Se tivesse dito isso antes da votação eu tê-lo-ia congratulado. Mas mentiu", acusou o líder da Comissão Europeia.

A cólera de Juncker foi partilhada por outros e a dada altura o burburinho na sala foi de tal ordem que o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, teve de apelar à ordem. Acusando os políticos britânicos de criarem "um ambiente tóxico", o líder dos liberais e ex-primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt, classificou o primeiro-ministro britânico demissionário, David Cameron, como "um homem egoísta". Manfred Weber, líder do PPE, aliado da chanceler alemã Angela Merkel, também não poupou Farage. "Se tivesse um pingo de decência pediria desculpa aos britânicos. É uma vergonha."

A única voz de peso ouvida para defender o líder do UKIP e o resultado do referendo de dia 23 foi a de Marine Le Pen, líder da francesa Frente Nacional (FN). "É um grito de amor de um povo pelo seu país e é uma grande vitória para a democracia. É uma bofetada numa União Europeia construída com base no medo, na chantagem e nas mentiras." UKIP e FN venceram nos seus países as europeias de 2014, conseguindo cada um eleger 24 eurodeputados e fazer aumentar a pressão sobre os partidos dominantes no Reino Unido e em França.

Apesar da acesa troca de acusações Farage-Juncker, a sessão de ontem acabou com imagens descontraídas dos dois a rir-se. E o luxemburguês, como é seu hábito, até deu um beijo ao britânico. No final, já fora da sala, Farage disse aos jornalistas: "Temos de ser bons amigos, bons vizinhos e bons parceiros comerciais."

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