Jovem que se suicidou era fechado numa jaula e "espancado pelos colegas"

Inquérito à morte do britânico George Cheese, de 18 anos, revela meses de sofrimento numa oficina da Audi onde trabalhava

Um jovem estagiário numa fábrica britânica da Audi suicidou-se por não aguentar a forma como era tratado pelos colegas, segundo foi esta quinta-feira revelado no inquérito judicial à sua morte.

Perante o juiz de instrução, testemunhas afirmaram que George Cheese, de 18 anos, era vítima de 'bullying' violento por parte dos colegas, que o "espancavam".

Numa ocasião, foi relatado, o jovem contara que os seus colegas o prenderam numa jaula, atiraram-lhe líquido inflamável para cima e incendiaram-lhe as roupas, segundo noticia o The Guardian.

O pai da vítima, Keith Cheese, relatou ainda que o filho tinha ficado "muito feliz" quando conseguiu emprego na oficina da Audi, pois trabalhar em mecânica era um dos seus sonhos.

George tinha-se alistado no exército como engenheiro mecânico em 2014, mas foi obrigado a deixar o serviço militar após ter fraturado ambas as pernas.

A fábrica da Audi era assim uma oportunidade de voltar a fazer o que gostava. No entanto, segundo descreveu Keith Cheese, George começou a voltar para casa com nódoas negras e buracos de queimaduras nas roupas.

Ainda assim, o pai recomendou-lhe que não abandonasse o emprego, algo que, agora reconheceu, ter sido algo "ridículo".

A 9 de abril de 2015, cerca de seis meses depois de ter começado a trabalhar na Audi, o pai viu filho sair de casa com uma mochila. Pensou, segundo disse em juízo, que ele fora passear o cão.

Horas mais tarde, as sirenes da polícia deram nota de que algo de errado se passava. George Cheese tinha-se enforcado num trilho pedonal que liga à rua de sua casa, O corpo foi descoberto por um vizinho.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...