John Major ataca brexit e chama "bobo da corte" a Boris Johnson

As divisões dentro do Partido Conservador sobre o referendo de 23 de junho ficaram ontem bem patentes, nas críticas do antigo primeiro-ministro ao ex-mayor de Londres

O antigo primeiro-ministro britânico John Major não está feliz com a campanha dos que defendem a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), acusando-os de estarem a passar informações "incorretas" e "falsas" aos eleitores. Em causa não estão só os ataques contra a imigração, as contas sobre os alegados custos da atual adesão, mas também as promessas de proteger o sistema de saúde - que disse estar tão seguro com eles como "um hamster junto de uma pitão esfomeada". Numa entrevista à BBC, o conservador não poupou nas críticas aos companheiros de partido que estão à frente do brexit, apelidando Boris Johnson de "bobo da corte".

A menos de três semanas do referendo de 23 de junho, Major lançou um ataque sem precedentes contra o brexit - que está a ganhar terreno nas sondagens. Os últimos números da Opinium, para a revista Observer , revelam que o campo do "ficar" na UE perdeu quatro pontos percentuais nas últimas duas semanas, quando os defensores do "sair" centraram a campanha no tema da imigração. O brexit surge, nesta sondagem (para a qual foram feitas mais de duas mil entrevistas), com 43% de apoio, contra 40% do "ficar".

"Penso que esta é uma campanha enganadora em termos do que estão a dizer sobre imigração, uma campanha verdadeiramente deprimente e horrível, estão a enganar as pessoas de uma forma extraordinária", disse John Major, que esteve no número 10 de Downing Street entre 1990 e 1997, ao programa do jornalista Andrew Marr, da BBC.

A questão da imigração tornou-se central no debate depois de se saber que, no ano passado, imigraram 330 mil pessoas para o Reino Unido, 184 mil de países comunitários. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, tinha prometido reduzir para as dezenas de milhares o número de imigrantes. A proposta do brexit é alargar aos trabalhadores comunitários o visto por pontos, ao estilo australiano, que já existe para os que chegam de fora dos países da UE.

Ainda ontem, o líder dos independentistas do UKIP, Nigel Farage, disse que o risco de ataques sexuais contra as mulheres, como os que aconteceram na passagem de ano em Colónia e foram atribuídos a refugiados, é a "bomba nuclear" da campanha para o referendo. Questionado sobre se esse tipo de ataques podia ocorrer no Reino Unido, Farage respondeu: "Depende se eles conseguirem passaportes europeus. Depende se votarmos no brexit ou não."

Custos da adesão

Mas as críticas de Major não se limitaram à questão da imigração, com o ex-primeiro-ministro a acusar o brexit de enganar os eleitores ao dizer que Inglaterra paga 350 milhões de libras por semana a Bruxelas. Esquece-se, lembra, que dois terços desse valor regressam em subsídios e devoluções. Os apoiantes do "sair" dizem que o dinheiro pode ser mais bem usado, por exemplo na saúde. "Estas promessas de gastar mais em saúde e noutras áreas são um engano", referiu Major.

"Estou zangado pela forma como os britânicos estão a ser enganados, isto é muito mais importante do que umas eleições legislativas, isto vai afetar as pessoas, as suas vidas, o seu futuro, durante muito tempo", afirmou o ex-primeiro-ministro. "Se, com base nos factos verdadeiros, honestos, reais, as pessoas decidirem sair, então é uma decisão delas. Mas se decidem sair com base em informações imprecisas, que se sabe serem imprecisas, então vejo isso como enganador", conclui.

O maior alvo das críticas de Major foi o ex-presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, que foi comedido na resposta, dizendo também na BBC que havia muitos "ataques azul contra azul", numa referência à cor dos Tories. O principal rosto do brexit disse que queria focar-se nos argumentos e defendeu as contas da sua campanha, de que a UE custa 350 milhões de libras ao Reino Unido por semana.

Além de apelidar Boris Johnson de "bobo da corte", o antigo líder conservador deixou-lhe um conselho: "Se a campanha do brexit continuar a dividir o Partido Conservador como está a fazer atualmente, e se o Boris tiver a louvável ambição, porque é uma louvável ambição, de se tornar primeiro-ministro, vai descobrir que não tem a lealdade do partido que dividiu."

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