Itália. Suspeitas atrapalham arranque de Zingaretti na oposição

Nicola Zingaretti quer refundar o Partido Democrático e unir a esquerda. Mas dois dias depois de tomar as rédeas ao partido soube-se que está a ser investigado por financiamento ilícito.

Nicola Zingaretti, de 53 anos, foi confirmado no domingo passado como o novo secretário-geral do Partido Democrático (PD), atualmente na oposição ao governo da Liga Norte e do Movimento 5 Estrelas (M5E). Fora eleito nas primárias abertas à população no dia 3, e desde então tem estado a tentar unir o partido e a esquerda para as eleições europeias.

"Nicola é um diesel, talvez a aceleração não seja o seu forte, mas uma vez em movimento não o detêm", disse um dos seus colaboradores mais próximos ao La Repubblica, sobre a forma como vai agir como secretário-geral do partido para mudar tudo de alto a baixo e reaproximar os eleitores desencantados que migraram para os partidos populistas e extremistas.

Durante a assembleia nacional, o novo líder e governador da região do Lácio sugeriu mudanças radicais no partido."Devemos mudar tudo. Penso num partido aberto e pluralista, aperto à civilidade e ao voluntariado", defendeu. "Devemos colocar as pessoas no centro [da política], como fizeram os jovens que saíram às ruas contra as alterações climáticas. É preciso mais reformismo para enfrentar o futuro."

Anunciou depois os quatro novos pilares que vão sustentar as bases do programa do PD para Itália: investimento nas infraestruturas, uma política ambiental compatível com o desenvolvimento sustentável, investimento no sistema de ensino e a promoção da saúde e do bem-estar.

Na assembleia, que juntou mais de dois mil militantes em Roma, o ex-primeiro-ministro e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Paolo Gentiloni foi eleito presidente do partido. Gentiloni foi a voz da ambição no que respeita ao futuro: "O objetivo é voltar a vencer", disse. Uma meta, para já, impossível de alcançar.

Um ano depois do resultado historicamente baixo nas eleições gerais (18,7%), e que teve como consequência a saída do governo e a demissão de Matteo Renzi, o PD está a começar a inflexão nas sondagens. Após ter estado em terceiro lugar, está agora a par do M5E, com 21% de intenções de voto. Ambos a larga distância da Liga, o partido de extrema-direita de Matteo Salvini cuja ascensão ao primeiro lugar ocorreu em julho, tendo ultrapassado o colega de coligação, o partido populista de Luigi Di Maio.

O partido fundado por Beppe Grillo sofreu um revés nas últimas horas. O presidente da assembleia de Roma, Marcello De Vito, foi preso por corrupção numa investigação sobre a construção do novo estádio da Roma. Grillini de primeira hora, Vito - como o M5E - fez campanha eleitoral a culpar os partidos do sistema de corrupção e elegeu a luta contra a corrupção como prioridade. "Vamos atacar a corrupção que é praticada pelos partidos há anos". De Vito foi expulso do partido por Di Maio.

As tensões e a rivalidade entre os partidos da coligação não são um segredo e o aproximar das eleições europeias e regionais são mais um fator de instabilidade. Mas num teste às fundações da aliança governamental, na quarta-feira o M5E votou ao lado da Liga no Senado ao rejeitar o levantamento da imunidade ao ministro do Interior, Matteo Salvini, e dessa forma impedir que o líder da Liga responda perante a Justiça por não ter autorizado o desembarque de 177 migrantes de um navio da guarda costeira italiana no verão passado.

Simbolismo e suspeitas

A primeira deslocação de Nicola Zingaretti enquanto líder partidário foi carregada de simbolismo. "Como secretário-geral do Partido Democrático decidi colocar uma coroa de flores na Porta de São Paulo para homenagear a memória daqueles que lutaram pela nossa liberdade."

Zingaretti referia-se aos que ali combateram a entrada do exército nazi em Roma, em 1943. E com isso lembrou de que lado o Partido Democrático está, numa época em que protagonistas da vida política, como a candidata pela Liga nas regionais de Basilicata, Gerarda Russo, admitem ser fascistas. Aconteceu num comício em Melfi, quando alguns cidadãos se manifestavam contra a sua presença, chamando-a de fascista.

Se o homem que foi da juventude comunista faz questão de separar as águas e de tentar unir a esquerda numa "aliança ampla em toda a Itália" - as conversações mais recentes foram com o deputado Roberto Speranza do movimento Articulo Uno - fará sentido, como alguns especulam, convidar o Movimento 5 Estrelas para uma aliança?

Os eleitores não apoiam essa solução. Segundo sondagem publicada pela RAI, 87% dos eleitores do PD dizem não e 57% do M5E também rejeitam essa hipótese.

Após as últimas eleições, tendo em conta os resultados eleitorais - o M5E venceu mas não dispunha de maioria parlamentar -, Luigi Di Maio declarou que o primeiro partido com que iria tentar fazer uma coligação seria o PD, segundo mais votado. Mas não há pontos em comum entre os dois partidos. Por exemplo, na quinta-feira, o Partido Democrático colocou a bandeira da Europa na varanda da sede nacional, na sequência do apelo de Romano Prodi em resposta aos nacionalismos. O M5E chegou a defender um referendo sobre o euro e Di Maio tem um histórico de relações pouco amigáveis com a França de Emmanuel Macron.

E para mais o 5 Estrelas pediu a demissão de Zingaretti na sequência das notícias de que o governador do Lácio está a ser investigado. Segundo o L'Espresso, dois procuradores estão a conduzir as investigações após declarações de dois advogados sicilianos, detidos por corrupção. Um deles, Giuseppe Calafiore, terá declarado que nunca esperaria ser preso "graças às doações feitas para encorajar a atividade política de Zingaretti", um esquema em que estaria envolvido Fabrizio Centofanti, que terá boas relações com Zingaretti e é parceiro de negócios do outro advogado preso, Piero Amara. "Disse-me que não tinha problemas com a região do Lácio porque Zingaretti estava à sua disposição".

Não há, até à data, prova destas alegações. Zingaretti reagiu numa declaração na qual afirma "não estar intimidado" pelo M5E e que confia na justiça.

Perante esta notícia, mas sobretudo sobre muitos boatos e mentiras que correm nas redes sociais, o La Repubblica conta que o secretário-geral do PD foi forçado a agir tendo sido criada uma equipa para monitorizar os ataques nas redes sociais. Exemplo: a suspeita de ligações à organização criminosa Mafia Capitale, processo arquivado há um ano. "Há centenas de ataques falsos, a reembalagem de notícias falsas sobre três vertentes principais: as relações com a Mafia Capitale, o diploma de Zingaretti, e a administração da região [Lácio]", lê-se.

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