Itália à beira de acordo desafia a UE e estende a mão à Rússia

Di Maio e Salvini discutem medidas que põem em causa zona euro. A nível internacional, pedem o fim de sanções contra Moscovo e falam de Putin como "interlocutor estratégico"

O acordo de governo em Itália entre o Movimento 5 Estrelas (M5E), de Luigi di Maio, e a Liga Norte, de Matteo Salvini, está por horas e inclui vários aspetos que fazem soar as campainhas de alarme na União Europeia (UE), como um mecanismo que permita a saída da zona euro ou um pedido de perdão da dívida. Ao mesmo tempo, a nível da política externa, os dois partidos estendem a mão à Rússia, exigindo o "fim imediato" das sanções europeias e defendendo uma abertura a Moscovo.

"Confirmamos a nossa ligação à NATO, com os EUA como aliado privilegiado e uma abertura à Rússia, que não deve ser vista como uma ameaça, mas como um parceiro económico e comercial", diz o rascunho do acordo entre Di Maio e Salvini, ao qual o site Huffington Post italiano teve acesso. Coloca ainda o presidente Vladimir Putin como "interlocutor estratégico" em zonas de conflito como a Síria ou a Líbia, pedindo o "fim imediato" das sanções europeias contra a Rússia.

Os 28 introduziram as sanções pela primeira vez em 31 de julho de 2014, por um período de um ano, em resposta às ações da Rússia que estavam a desestabilizar a situação na Ucrânia, e foram reforçadas em setembro de 2014. Visam os setores das finanças, da energia ou da defesa e têm sido prorrogadas - a última vez, em dezembro, até 31 de julho. Entretanto, a relação da UE com Moscovo deteriorou-se mais devido ao caso Skripal - Londres acusou a Rússia de estar por detrás do envenenamento do ex-espião e da sua filha no Reino Unido, com vários países europeus a expulsarem diplomatas russos.

Mas os sinais de alarme na UE com o rascunho do acordo entre os dois partidos eurocéticos, que saíram vencedores das eleições inconclusivas de 4 de março, vão além da política internacional. Ontem, a ideia de que o futuro governo poderia avançar para a saída do euro, renegociar os tratados europeus (falaram em recuar aos parâmetros pré-Maastricht, o tratado que lançou as bases da união monetária) ou pedir ao Banco Central Europeu o perdão de uma dívida de 250 mil milhões levou à queda da bolsa de Milão.

Mesmo que estas ideias não vão para a frente, com os dois partidos a dizerem que o rascunho datava de segunda-feira e já estava ultrapassado (nomeadamente quanto à moeda única, que não põem em causa), o tom das medidas previstas no rascunho preocupa os mercados e os analistas. "Destruir a Itália para prejudicar a Europa", escreveu o jornal La Repubblica. Salvini rejeitou as críticas e os "insultos" dos media, nomeadamente do Financial Times, que escreveu que "Roma abriu as portas aos bárbaros modernos". Num vídeo no seu Facebook, o líder da Liga Norte respondeu: "É melhor os bárbaros do que os lacaios que vendem a dignidade, o futuro, as empresas e até as fronteiras da Itália. Os italianos em primeiro!"

Por seu lado, Di Maio disse que o governo estaria disponível para dialogar com a UE, mas não para receber ordens dela. "Vai haver diálogo com a Europa, mas não nos vamos subordinar aos eurocratas", afirmou, dizendo perceber que "o acordo possa assustar parte dos burocratas europeus". Antes, já o fundador do M5E, o ex-humorista Beppe Grillo, tinha deixado críticas numa entrevista à Newsweek. "A UE teve muitos méritos no passado, mas agora é disfuncional. Precisa de reforma. O Parlamento Europeu não tem poder, as decisões são tomadas pelos comissários. E, se olharmos para quem está nas comissões, encontramos um político rodeado de sete lobistas. Adivinhem quem toma as decisões?" Grillo defendeu uma "visão da Europa inspirada no modelo suíço de democracia direta", apoiando "um referendo consultivo sobre o euro" e a existência de dois euros diferentes, um para o norte e outro para o sul da Europa.

Os dois líderes estão disponíveis para abdicar de um cargo no executivo para garantir o acordo. "Espero poder estar envolvido no governo, para me pôr à prova. Mas, se for necessário, eu e o Salvini estamos disponíveis para ficar de fora", explicou o líder do M5E. Segundo o rascunho do acordo, será criado um "comité de conciliação", uma estrutura ligada aos partidos e paralela ao governo que será a responsável por resolver os desacordos entre ambos.

RASCUNHO DO ACORDO

"Ultrapassado"

> O rascunho de 39 páginas do acordo de governo, ao qual o Huffington Post italiano teve acesso, datava de 14 de maio. Segundo o M5E e a Liga Norte, está "ultrapassado" e foi "amplamente modificado".

Saída do euro

> O documento inicial falava na saída do euro, mas o discurso foi suavizado. Defendem agora um mecanismo "económico e judicial" para a saída de "forma acordada" se existir "uma vontade popular clara" nesse sentido.

Anulação da dívida

> Uma das medidas é pedir ao Banco Central Europeu (BCE) o perdão de 250 mil milhões de euros da dívida, comprados ao abrigo do quantitative easing. Mas a Liga negou este ponto, dizendo querer contudo que o BCE não contabilize esses títulos quando calcula o nível da dívida (hoje mais de 130% do PIB) para o pacto de estabilidade. A coligação quer cortar nos impostos, rasgar a reforma das pensões de 2011 e garantir um rendimento mínimo para os mais pobres - o que vai custar caro aos cofres públicos.

Imigração

> Partidos dizem que a situação é "insustentável" e defendem um "papel mais decisivo" nas negociações europeias, exigindo que os imigrantes sejam distribuídos pelos Estados membros e não tenham de pedir asilo no país de entrada.

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