Irão versus EUA: que meios têm um e outro?

Presença militar norte-americana no Golfo Pérsico foi reforçada pela chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln

Donald Trump esteve para ordenar - mas não o fez - um ataque ao Irão depois de um drone norte-americano ter sido abatido pela força aérea iraniana. Segundo disse o presidente norte-americano, em entrevista à NBC News, os aviões não estavam ainda no ar e, sensivelmente meia hora antes, decidiu não levar o ataque por diante por considerar que a resposta seria desproporcionada e que, segundo informações dos generais norte-americanos, morreriam 150 iranianos.

Este foi o último de vários episódios de uma espécie de batalha naval irano-americana em curso ao longo das últimas semanas. Em seguida, o presidente que retirou os EUA do acordo sobre o nuclear iraniano no ano passado solicitou, via Qatar, um diálogo com o Irão, avançou esta sexta-feira a agência noticiosa internacional Reuters

A resposta será dada, segundo fontes citadas pela mesma agência, pelo líder Supremo do Irão ayatollah Ali Khamenei. Os conservadores iranianos estão a emergir numa altura em que a política de paciência estratégica do presidente moderado Hassan Rouhani - e seus aliados - começa a ser entendida como um falhanço face aos EUA. Enquanto Trump denunciou o acordo sobre o nuclear do Irão, a União Europeia mantém o seu apoio ao mesmo, mas sem conseguir pressionar ou exercer qualquer tipo de influência sobre o presidente norte-americano.

Trump, bem como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanhyanu, não acreditam nas intenções de Teerão e consideram que a república islâmica xiita procura chegar à bomba atómica. No passado, políticos conservadores iranianos, como o ex-presidente Mahmud Ahmadinejad, por exemplo, sugeriram apagar Israel do mapa. O papel fulcral dos iranianos na Síria em auxílio do regime do presidente Bashar al-Assad permitiu ao Irão construir bases na Síria e, dessa forma, ficar mais perto de Israel. Ataques israelitas em território sírio visarão, precisamente, travar o avanço iraniano.

Apesar de tudo, segundo o jornalista Chuck Todd, que entrevistou Trump para o programa Meet the Press da NBC News, o presidente dos EUA diz estar disposto a dialogar com o regime iraniano sem grandes condições para chegar a um acordo, sendo que os mísseis balísticos teriam que constar de um qualquer acordo sobre o nuclear iraniano. A entrevista à NBC News na íntegra vai para o ar neste domingo.

No entretanto, os norte-americanos reforçaram a sua presença militar no Golfo Pérsico, com mais homens, mas enviando também para a região o porta-aviões USS Abraham Lincoln. Foi a bordo desta embarcação que o ex-presidente norte-americano George W. Bush, também republicano, anunciou, a 1 de maio de 2003, a vitória no Iraque. Conseguiu derrubar Saddam Hussein, mas pelo que se sabe até hoje, a situação não melhorou, tanto no Iraque como nos países à volta.

Na equipa de Trump está, atualmente, como Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, que era subsecretário de Estado de W Bush à altura da invasão militar do Iraque sem aval internacional das Nações Unidas. Bolton será partidário de uma intervenção contra o Irão, tal como o secretário de Estado Mike Pompeo e o vice-presidente Mike Pence, mas outros setores do Pentágono e do Congresso defendem um regresso à calma alertando que um ataque ao Irão seria algo que iria incendiar toda a região do Golfo Pérsico e do Médio Oriente. Isto numa altura em que o genro de Trump, Jared Kushner, se prepara para apresentar na próxima semana o novo plano de paz norte-americano para o Médio Oriente.

Numa apresentação da entrevista, o jornalista Chuck Todd da NBC News dá a entender que há divergências de visão na equipa de Segurança Nacional de Trump e, a certa altura, a outra jornalista da mesma estação que fala com ele sugere que existe a hipótese de Bolton estar a ocultar algumas informações do presidente norte-americano. Neste momento os EUA não têm um secretário da Defesa. Patrick M. Shanahan é interino. Em substituição de James Mattis, que saiu do cargo em janeiro, depois de se ter demitido por diferenças de opinião com o chefe do Estado norte-americano. "Ele referiu-se sempre aos generais e, neste caso, é claramente a quem ele está a dar ouvidos", disse Todd, sobre a entrevista com Trump.

Enquanto a tensão não baixa entre iranianos e norte-americanos, importa perceber os meios que detêm os dois potenciais beligerantes, Irão e EUA, a nível militar e não só. Segundo dados do jornal Guardian e do site armedforces.eu, que agrega informações dos governos dos países e de sites como cia.org, icanw.org e wikipedia.org, o cenário é o seguinte:

População:
Irão: 78 milhões
EUA: 324,5 milhões

Área:
Irão: 1 648 195 Km2
EUA: 9 857 306 Km2

Armas nucleares:
Irão: 0
(acordo sobre o nuclear iraniano visa, em troca de incentivos, garantir que o Irão não desenvolve nuclear para fins militares)
EUA: 7200 ogivas


Despesas militares:
Irão: 14 mil milhões de dólares ou 2,5% do PIB
EUA: 610 mil milhões de dólares ou 3,1% do PIB

Pessoal militar ativo:
Irão: 550 mil
EUA: 1 281 900
Os norte-americanos têm atualmente 15 mil militares no Koweit, 11 mil no Qatar, 7 mil no Bahrein, 5 mil nos Emirados Árabes Unidos, 5100 no Iraque, 4 mil no Djibuti, 2500 na Turquia, 1500 na Jordânia e 200 em Omã

Pessoal militar na reserva:
Irão: 350 mil
EUA: 811 mil

Pessoal disponível para mobilização militar
Irão: 23 619 215
Os iranianos contam com aquilo a que os analistas chamam combatentes por procuração. A Força Quds dos Guardas da Revolução iranianos controla 140 mil combatentes xiitas no Iraque. A mesma força estará na Síria. No Líbano, o comandante da Força Quds, Qassem Suleimani, tem relação próxima com o Hezbollah, grupo xiita anti-Israel. No Iémen, a insurreição Ansar Allah, dos houthis, é a principal força a combater os inimigos sauditas dos iranianos. E na Faixa de Gaza (terrirórios palestinianos) os iranianos apoiam a Jihad Islâmica contra aquilo a que Teerão chama "o inimigo sionista"
EUA: 73 270 043

Tanques
Irão: 2531
EUA: 6393

Veículos blindados de combate:
Irão: 1625
EUA: 41 760

Aviões caça
Irão: 850
EUA: 12 304

Helicópteros:
Irão: 324
EUA: 4889

Porta-aviões:
Irão: 0
EUA: 20
Um deles, o USS Abraham Lincoln, foi enviado para o Golfo Pérsico

Destroyers:
Irão: 0
EUA: 85

Submarinos:
Irão: 40
EUA: 71

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Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.