"Invasão de telefone é crime". Bolsonaro ataca jornalistas do "Vaza Jato"

Mensagens alegadamente trocadas entre procuradores da Lava Jato na aplicação Telegram deram origem a um escândalo conhecido como "Vaza Jato", que começou em junho do ano passado, quando o The Intercept divulgou reportagens que colocam em causa a imparcialidade da maior operação contra a corrupção no país.

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, disse esta segunda-feira que o jornalista norte-americano Glenn Greenwald pagou pelas mensagens publicadas no site The Intercept que colocaram em causa a imparcialidade da operação Lava Jato.

"Eu acho que, no meu entender, ele [Greenwald] cometeu um crime porque noutro país estaria já numa outra situação. Espero que a Polícia Federal chegue, ligue realmente todos os pontos. No meu entender isso teve transações pecuniárias", disse ao ser questionado por jornalistas na saída do Palácio da Alvorada, em Brasília.

Segundo Jair Bolsonaro, "pelo que tudo indica a intenção é sempre atingir a Lava Jato, atingir o [ministro da Justiça] Sérgio Moro", mas também ele próprio, ao tentar desqualificá-lo e desgastá-lo.

"Invasão de telefone é crime, ponto final", acrescentou o chefe de Estado.

Mensagens alegadamente trocadas entre procuradores da Lava Jato e também com o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, na aplicação Telegram deram origem a um escândalo conhecido como "Vaza Jato", que começou em 9 de junho, quando o The Intercept e outros media parceiros começaram a divulgar reportagens que colocam em causa a imparcialidade da maior operação contra a corrupção no país.

A Polícia Federal iniciou uma investigação sobre pirataria cibernética que terá sido usada para obter as conversas privadas das autoridades e, na semana passada, prendeu quatro suspeitos de piratear telemóveis de centenas de pessoas, incluindo o do próprio Presidente brasileiro.

Um dos suspeitos, Walter Delgatti Neto, confessou à polícia que enviou o conteúdo de mensagens do Telegram em ações de pirataria cibernética contra autoridades envolvidas na Lava Jato para o The Intercept sem pedir dinheiro em troca.

Para o chefe Estado brasileiro, Greenwald "não pode ser protegido" por ser jornalista.

"O jornalista tem de fazer o seu trabalho. Preservar o sigilo da fonte, tudo bem, agora [com] uma origem criminosa [da informação] vai preservar o crime invadindo a República, desgastando o nome do Brasil lá fora, inclusive?", questionou também hoje Bolsonaro.

No último sábado, o Presidente brasileiro descreveu Greenwald como uma pessoa "malandra" por ser casado com outro homem, o deputado federal brasileiro David Miranda, e ter filhos adotivos brasileiros, o que impede a sua deportação.

O comentário surgiu na controvérsia gerada por um decreto do Ministério da Justiça que permite a deportação sumária de estrangeiros residentes no Brasil considerados perigosos, que os partidos de oposição ao Governo de Bolsonaro interpretaram como uma ameaça a Greenwald.

Baseadas em informações obtidas de uma fonte não identificada, as reportagens do The Intercept apontam que Moro terá orientado os procuradores da Lava Jato, indicado linhas de investigação e adiantado decisões enquanto era juiz responsável por analisar os processos do caso em primeira instância.

Se confirmadas, as denúncias indicam uma atuação ilegal do antigo magistrado e dos procuradores brasileiros porque, segundo a legislação do país, os juízes devem manter a isenção e, portanto, estão proibidos de auxiliar as partes envolvidas nos processos.

Moro e os procuradores da Lava Jato, por seu turno, negam ter cometido irregularidades e fazem críticas às reportagens do The Intercept e seus parceiros (Folha de S. Paulo, revista Veja, El País e o jornalista Reinaldo Azevedo), afirmando que são sensacionalistas e usam conversas que podem ter sido adulteradas e foram obtidas através de crime cibernético.

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