Vitória do Ciudadanos não trava maioria independentista

Inés Arrimadas elegeu 37 deputados e ficou à frente de Carles Puigdemont e de Oriol Junqueras numas eleições autonómicas com participação recorde

Foi o dia mais curto e a noite mais longa do ano. A divisão que marca a Catalunha ficou patente à medida que iam caindo os resultados a conta-gotas. O Ciudadanos, de Inés Arrimadas, vencia em votos e em deputados eleitos, mas os três partidos independentistas mantinham a maioria absoluta no Parlamento catalão.

"Ganhámos as eleições", lançou Arrimadas aos apoiantes que a esperavam na Praça de Espanha, que responderam clamando "presidenta", mas a maioria independentista deve impedir esse cenário. "A maioria social sente-se catalã, sente-se espanhola, sente-se europeia e vai continuar a sentir-se", afirmou, explicando que as forças nacionalistas não podem continuar a dizer que a maioria quer a independência e não podem falar em nome de todos.

Com 98% dos votos contabilizados, o Ciudadanos ultrapassava o milhão de votos e elegia 37 deputados, com o Junts per Catalunya, do ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont, a conseguir 34, superando (ao contrário do que previam as sondagens) os 32 da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), de Oriol Junqueras. Com os quatro da Candidatura de Unidade Popular (CUP), o independentismo tinha contudo 70 deputados, mais dois do que a maioria absoluta (mas menos dois do que em 2015).

"É uma vitória, vamos celebrar", dizia Alejandra, com uma bandeira espanhola no local da festa do Ciudadanos, na Praça de Espanha, que só a partir das 23.00 começou a ficar composta para o discurso de Arrimadas. "É um excelente resultado para o partido, mas não chega para parar os independentistas. Mas espero que eles não insistam nisso", acrescentou.

Uma viagem de 15 minutos na linha L1 do metro e o cenário era muito diferente no centro eleitoral da ERC, na Estação do Norte, onde o ambiente ao princípio da noite era mais pesado e não havia música. Com o seu líder detido, acusado de rebelião, sedição e peculato na organização do referendo de 1 de outubro e consequente declaração unilateral de independência, o partido parecia superar o seu melhor resultado, mas perdia a guerra entre independentistas para Puigdemont. Ainda assim havia quem olhasse para o copo meio cheio: "Isto valida o referendo", lançava Jorge no exterior, enquanto fumava um cigarro.

Na reação oficial, Marta Rovira reiterava que os catalães tinham votado maioritariamente a favor da república. "A república ganhou ao 155", disse, referindo-se ao artigo da Constituição espanhola que permitiu ao governo de Mariano Rajoy intervir na Generalitat e convocar eleições.

O Partido Popular do primeiro-ministro elegeu apenas três deputados. "É um dia mau para o futuro da Catalunha", declarou Xavier García Albiol, o cabeça-de-lista dos populares. O Catalunya en Comú-Podem conseguiu oito deputados e os socialistas catalães, liderados por Miquel Iceta, subiram um, para 17.

Independentemente do resultado, esta foi uma eleição recorde na Catalunha, com a participação nos 82%, pulverizando os números já recordistas da eleição de 27 de setembro de 2015 (74,95%).

Votação sem problemas

Rosana e MariCarmen chegaram ao Colégio Ramon Llull 15 minutos antes de abrirem as urnas e eram as sextas na fila. "Era muito importante vir votar porque queremos que a situação política mude, porque isto está muito mal", disse Rosana, adiantando que não votaram a 1 de outubro porque consideraram que o referendo não era legal. "Hoje, pelo contrário, votámos à primeira hora. Espero que venha muita gente dos que não vieram então", acrescentou, indicando que a sua escolha foi para Arrimadas: "O que ela diz é exatamente o que eu penso."

No referendo de 1 de outubro, convocado pelo governo catalão mas considerado ilegal pelo Tribunal Constitucional, este colégio foi um dos palcos das cargas policiais. As imagens dos eleitores a serem arrastados pelos agentes antidistúrbio da Polícia Nacional, que procuravam retirar as urnas, foram notícia em todo o mundo e houve até quem tivesse perdido um olho com um disparo de uma bala de borracha.

"Eu por um metro de distância não fui ferido. Felizmente", recordou Sergi, que votou numa opção independentista, falando da diferença desse dia em relação ao ambiente de normalidade que se viveu ontem. Uma normalidade apenas aparente. "Estas são umas eleições especiais e muito estranhas, porque há muitos candidatos na prisão. Se isto fosse um jogo de futebol, o jogo tinha começado com três a zero a favor dos partidos ditos unionistas", indicou o reformado. "Para as pessoas que têm uma formação democrática isto é algo que não entra na nossa cabeça."

De ambos os lados, as previsões eram para resultados "muito apertados" e para dúvidas em relação ao futuro. Para Rosana, confiante numa surpresa do Ciudadanos, "o pior que pode acontecer é o resultado ser tão parecido que vamos ficar como estamos". Já Sergi, que apesar de ter votado independentista "por uma questão de dignidade" defende uma solução que passa pela aposta no federalismo em Espanha, acredita que será muito difícil formar governo. E não afasta a hipótese de novas eleições. "Em Espanha tudo é possível."

No Colégio La Sedeta, o ambiente não podia ser diferente do vivido a 1 de outubro, quando as filas começaram ainda de madrugada para garantir que a polícia não fechava a escola ou apreendia as urnas. Na altura, havia duas filas que davam quase a volta ao quarteirão e gritos de "hem votat" (nós votámos). Ontem, as filas eram mínimas. Maria e Alicia saíram juntas. A primeira votou no Partido Socialista da Catalunha, a segunda prefere não revelar.

"Considero que se não há uma maioria absoluta as alianças que Iceta pode fazer são as que mais me convêm. Isto é, que não haja independência", afirmou Maria, justificando o seu voto nos socialistas e explicando que não poderia votar Ciudadanos porque não partilha a ideologia de direita. Contudo, disse acreditar que seria este o partido mais votado. O cabeça-de-lista socialista tem-se mostrado aberto tanto a liderar uma coligação não independentista como a fazer uma aliança de esquerda com a ERC e o Catalunya en Comú-Podem.

Maria, que trabalha nos serviços de saúde (os catalães tinham direito a tirar quatro horas do dia para ir votar), teme que no final os partidos não consigam pôr-se de acordo entre eles e acabe por ser necessário novas eleições. "Vamos ver, uma coisa é o que dizem antes das eleições, outra coisa é o depois. Pode ser que se sentem a dialogar", explicou a jovem de 28 anos. A investidura do presidente tem de ocorrer até 6 de fevereiro.

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