"Problemáticos", "injustos", "perigosos"..Estes são alguns dos qualificativos que a comissária europeia para a Justiça, Vera Jourová, aplica aos vistos Gold, sobre os quais há muito manifesta preocupação. Esta quarta-feira, em reação à publicação, pela OCDE, de uma lista negra de países, incluindo os europeus Malta e Chipre, onde o esquema de vistos facilita a evasão fiscal, voltou à carga.."Estes esquemas são bons para a economia, percebo, mas é injusto para as pessoas que não têm dinheiro para comprar cidadania. E a cidadania é uma coisa tão, tão importante e valiosa que pô-la à venda me parece muito problemático", diz Jourová..Além disso, acrescenta, "temos de nos preocupar, porque se um Estado europeu dá cidadania a uma pessoa perigosa, essa pessoa fica com cidadania em toda a Europa. Talvez tenhamos de renegociar todo este sistema e toda a competência europeia nesta matéria. Porque temos aqui uma contradição. Porque se houver pontos fracos no sistema onde é fácil entrar no espaço europeu, toda a Europa tem um problema.".Trata-se, no atual esquema dos vistos Gold, de colocar o dinheiro à frente da segurança, crê a comissária, que prepara um relatório, a ser publicado no final do ano, recomendando um controlo muito mais estrito..Jourová falava no primeiro aniversário da morte da jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia, assassinada com uma bomba no carro no seu país. A morte ainda está em investigação, embora três homens tenham sido já identificados como autores materiais do homicídio..Galizia era conhecida pelos seus trabalhos sobre corrupção e crê-se que a sua morte foi encomendada pelos interesses que andava a investigar. Agora, uma série de jornais e organizações jornalísticas (incluindo o Guardian, a Reuters, e o Le Monde) uniram-se para continuar o seu trabalho sob a denominação Projeto Daphne..Quem há muito se insurge também contra os vistos Gold é a eurodeputada portuguesa Ana Gomes, que os considera "imorais" e "uma prostituição do Sistema Schengen"..A 8 de outubro, enviou uma carta ao presidente da Assembleia da República protestando pelo facto de a lista de candidatos e de pessoas a quem é concedido o visto não ser pública. "Desde 2014 que venho alertando para o facto de o sistema de venda de Vistos Gold resultar num esquema que fomenta a corrupção, facilita o branqueamento de capitais, a evasão fiscal e a importação de crime organizado, pondo em causa a segurança nacional e a integridade do sistema Schengen", lê-se na carta, que prossegue: "Mesmo em programas semelhantes em Chipre e Malta, os nomes são publicados: em Chipre, antecipadamente, em lista de candidatos; em Malta, a posteriori, em listas de cidadãos que adquiriram a cidadania. Mas em Portugal a opacidade é total e serve para proteger os criminosos, corruptores e corruptos, entre os solicitantes, beneficiários e intermediários. Nem eu própria consegui até hoje ter acesso às listas de beneficiários, apesar de invocar a minha qualidade de eurodeputada (...)."