Um aeroporto sem passageiros recebe carros sem condutores

São duas vítimas da eficiência alemã... ou da falta dela: O aeroporto de Berlim, que devia ter sido inaugurado em 2011 e espera por passageiros, vai receber carros da Volkswagen que, depois do escândalo dieselgate, esperam pelos testes de emissões.

Nem com o cinto de segurança bem apertado e as costas da cadeira direitas é possível evitar as muitas turbulências desta viagem que começou em 2006. Foi nessa altura que despegaram as construções do que deveria ser o novo aeroporto internacional de Brandemburgo em Berlim, pensado para substituir os dois já existentes. Mas falhou a primeira data de inauguração, em outubro de 2011, e a segunda, em junho de 2012, e a terceira, e a quarta, ... E já lá vão mais de dez... e nada.

Logo ao chegar ao aeroporto de Schönefeld (o que fica mais distante da cidade e é usado maioritariamente pelas companhias de baixo custo) encontram-se as primeiras sinalizações. Mas nas placas que indicam o caminho para "Berlin Brandenburg" o símbolo do avião aparece cortado a vermelho. Pouco depois entramos numa espécie de cidade fantasma, onde até há ruas com nomes. À entrada, há um hotel de uma conhecida cadeia que se mantém aberto e uma publicidade luminosa gigante a uma empresa farmacêutica alemã. Um autocarro vazio encosta numa paragem sem ninguém e ali fica à espera. Todos os caminhos estão acessíveis aos curiosos, mas não é possível chegar ao principal terminal das partidas, o que tem dado mais problemas aos responsáveis pela abertura do aeroporto de Willy-Brandt, mais conhecido por BER.

Na realidade, a lista de problemas é tão extensa que nem parece real, muito menos num país como na Alemanha, conhecido pela eficiência. Foram contabilizados mais de 1500 erros que vão desde o espaço entre os degraus das escadas rolantes, às falhas nos sistemas de deteção de incêndios ou de refrigeração. Para Dieter Faulenbach da Costa o erro começou em 1996 com a "péssima escolha do local de construção". Para o urbanista, que se especializa há 33 anos na projeção de aeroportos e de terminais de passageiros, "à incompetência do arquiteto que desenhou o BER, juntou-se uma empresa aeroportuária sem qualquer experiência".

Apesar de alguns candeeiros já estarem fundidos, é possível ver as instalações do aeroporto à distância porque tudo está iluminado. Está e esteve nos últimos mais de sete anos. Apenas os 750 ecrãs que deveriam mostrar as partidas e chegadas já deixaram de funcionar, sem nunca terem cumprido o seu real objetivo. Meia dúzia de curiosos vão tirando fotografias a uma raposa que por ali passa, enquanto dois seguranças fumam calmamente em frente a uma das portas principais da zona de chegadas. O silêncio é tanto que se ouvem os motores dos aviões ao longe, no vizinho aeroporto de Schönefeld, que tenta funcionar por dois.

Há vestígios de obras, andaimes, plásticos e fios pendurados. Em todos os cantos há parques de estacionamento desertos, são oito no total. Para ocupar esses lugares livres devem chegar em breve carros saídos das fábricas da Volkswagen, enquanto esperam pelos novos e mais criteriosos testes de emissões. Uma exigência depois do escândalo que envolveu a empresa alemã que usava software ilegal para manipular emissões de poluentes. Carros novos, num aeroporto novo, à espera de melhores viagens.

Outubro de 2020 é a nova data apontada para a abertura, mas Faulenbach da Costa acredita que "não há condições para que o prazo seja cumprido". O projetista acredita que o aeroporto é "uma mina de ouro para os consultores e para as empresas que o estão a construir" e por isso "para que terminá-lo?" Os custos já atingem os 600 milhões de euros e deverão aumentar caso se mantenha a intenção de alargar a capacidade do aeroporto para receber mais passageiros. Entretanto, de acordo com a Deutsche Welle, mais de um milhão de euros por dia é gasto num aeroporto que, para já, recebe apenas animais selvagens e ervas daninhas. O último a sair que apague a luz. Se conseguir.

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