Tudo mudou com Francisco. Mas esta Igreja é a mesma morada de Bento XVI

Papa Ratzinger resignou há cinco anos, abrindo a porta ao arcebispo de Buenos Aires. Logo no primeiro momento em que surgiu como papa, Francisco (e o seu nome já é um programa de ação) mostrou diferenças profundas

Há cinco anos, quando o Papa Bento XVI resignou, o seu gesto inesperado apanhou a Igreja Católica de surpresa - é preciso recuar seis séculos, a 1415, para encontrar idêntica atitude em Gregório XII.

Os cardeais que escutavam (a 11 de fevereiro de 2013) o seu discurso em Latim não acreditavam no que ouviam - e só uma jornalista da agência italiana Ansa percebeu o texto original. Cansado da Cúria Romana, frágil para forçar alterações necessárias ao governo do Vaticano, Bento XVI retirou-se, oficializando a abdicação a 28 de fevereiro.

O seu sucessor, quando chegou à varanda de São Pedro, anunciou-se como bispo de Roma (e não como papa), marcando assim, também por palavras, um estilo diferente. De vestes brancas, despojado da murça vermelha com estola de vinho e bordada a dourado - como se vestiu Bento XVI na hora da eleição como papa, em 19 de abril de 2005 - tomou o nome de Francisco de Assis. Significativo, para quem faz das periferias um campo de ação. E o Papa também abdicou do anel do pescador de ouro dos seus antecessores (é de prata como a cruz que usa).

"Não há dúvida absolutamente nenhuma de que houve uma mudança fundamental, que é bem apercebida pela opinião pública", defende ao DN o padre e teólogo Anselmo Borges. "Raramente na História terá havido um papa tão amado como o Papa Francisco e, diria, tão influente como referência político-moral global", aponta o também colunista do DN. "Mesmo se esse amor seja talvez mais notório fora da Igreja do que dentro da Igreja, concretamente na Igreja oficial", acrescenta.

Na comparação entre os pontificados, Anselmo Borges nota que "cada um tem a sua história, o seu temperamento". A deputada centrista Ana Rita Bessa, que se apresenta publicamente como crente e tem um percurso próximo dos jesuítas, socorre-se das palavras do evangelista João - "Na casa do Pai, há muitas moradas" - para sublinhar que, na mesma Igreja, "num espaço tão curto de tempo, sejam possíveis exemplos muito diferentes, mas em que todos falam de Deus". "Mais do que contraste" entre uns e outros, Ana Rita Bessa aponta o facto de um papa "mais cerebral" que "abriu caminho a que outro faça de outro modo".

Anselmo Borges recua até João Paulo II (antecessor de Bento XVI) para notar como o papa polaco, Karol Wojtyla, "vinha de uma igreja perseguida", que se recolheu numa "ortodoxia estabelecida e nem sempre compreendeu a necessidade de avançar com outras atitudes dentro da Igreja", remetendo-se ao "quadro de uma igreja monolítica". Por outro lado, nota o teólogo, "enquanto João Paulo II contribuiu decisivamente para a queda do muro de Berlim e com isso reconfigurou o mundo", o Papa Francisco é marcado por ser filho de imigrantes italianos e por ser arcebispo de uma grande cidade, onde se envolve com as periferias, vivendo num pequeno apartamento e deslocando-se de metro.

Bento XVI "acredita em Jesus e no Deus de Jesus, mas é uma pessoa frágil, um homem tímido e vive dentro dele próprio um conflito". Essa conflitualidade é própria de alguém que quando jovem teólogo participa como perito do Concílio Vaticano II e escreve, em 1972, "com uma abertura não esperada à comunhão dos recasados". E que participou, ao lado de João Paulo II, "na condenação de dezenas de teólogos" - é esta conflitualidade que o leva a resignar.

"Põe a sua fé viva no Deus de Jesus, mas não teve forças para operar mudanças", nota. No entanto, para o seu sucessor, Bento XVI prepara um relatório (cujo conteúdo nunca foi completamente revelado) sobre a gestão do Vaticano, suficiente iluminado para Francisco atuar como tem atuado junto da Cúria.

O bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, afirma que "mudou quase tudo" entre o tempo de Bento XVI e o atual pontificado de Francisco. "Mudou o primado dos anseios e dos objetivos da Igreja", começa por responder, para apontar que "houve uma visibilidade daqueles a quem os homens da Igreja nunca consideraram ou nunca tiveram na devida conta", que são "os mais oprimidos e mais pobres".

Com "uma preparação teológica de grande gabarito", como diz D. Januário de Joseph Ratzinger, o antigo bispo castrense regista que Bento XVI foi o "vigilante da doutrina e da ortodoxia que provocou o distanciamento de muitos teólogos", como também argumenta Anselmo Borges.

"Bento XVI foi à popa relativamente a algumas pessoas que tinham gosto pela intelectualidade". Mas, replica, "havia problemas do homem da rua" que ficaram esquecidos. "O fundamental é que as pessoas mais carentes não foram atingidas pelo pontificado dele." Já com Francisco há uma nova centralidade com o "problema das periferias", com a solidão, os refugiados e as minorias étnicas a entrarem no discurso diário do bispo de Roma. "Aqui há um salto na doutrina e no serviço pontifical", avalia Torgal Ferreira.

Ana Rita Bessa concilia estas diferenças, sublinhando que o pontificado é avaliado "com um ingrediente muito específico que é a personalidade concreta de cada um". Sendo Francisco jesuíta, "remete para um imaginário" que lhe é "mais familiar". Mas, regista a deputada, "tem mais a ver comigo do que com ele". "Acho que a história da Igreja se faz num caminho, numa fita do tempo", na qual é preciso "um caminho anterior", de que Bento XVI também fez parte. "Sem necessidade de valorar ou avaliar como cada um exerce o seu pontificado", Rita Bessa regressa a João para dizer que Francisco e Bento moram na mesma casa.

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