Trump revoga norma de Obama e deixa milhões de mulheres em risco

Decisão permite aos empregadores negar seguros de saúde que cubram o planeamento familiar e métodos contracetivos a mulheres

A administração Trump revogou, esta sexta-feira, uma norma do Obamacare que fazia com que os empregadores tivessem de fornecer seguros de saúde que cobrissem planos contracetivos para mulheres. Esta decisão vem no seguimento de uma promessa eleitoral do Presidente dos EUA que agradou bastante os apoiantes de Trump que são cristão conservadores.

Fontes governamentais afirmaram, segundo a Reuters, que duas novas regras federais vão permitir que qualquer entidade, tenha como objetivo lucrar ou não, possa evocar razões religiosas ou morais para obter uma exceção à lei de contraceção.

A decisão irritou alguns ativistas mas agradou aos cristãos conservadores. Não é ainda claro quantas mulheres vão perder o direito a contraceção e que empresas vão usar a exceção agora permitida.

"A administração Trump atingiu 62 milhões de mulheres", afirmou Cecile Richards, presidente da Federação Americana de Planeamento Familiar.

"É um ataque inaceitável a cuidados de saúde básicos em que a maioria das mulheres confia. Com esta regra, qualquer empregador pode decidir que as funcionárias não tenham um seguro de saúde que cubra a contraceção e o planeamento familiar", acrescentou.

Trump, que criticou o controlo de nascimentos e o planeamento familiar na última campanha eleitoral, ganhou um suporte bastante forte dos votantes cristãos e conservadores. O Presidente assinou uma ordem executiva, em maio, a pedir que as regras permitissem a grupos religiosos negar aos seus funcionários cobertura de seguro de saúde a que se opunham devido a crenças religiosas.

"Devemos ter espaço para as organizações viverem de acordo com as suas ideias religiosas sem enfrentarem discriminação", disse fonte do Departamento de Saúde à BBC.

As novas regras, que entram desde já em vigor, estão a ser criticadas por ativistas dos direitos das mulheres e democratas no Congresso.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.