Trump manda escolher: ou têm negócios com o Irão ou com os EUA

Presidente dos EUA assinou na segunda-feira ordem executiva que prevê a reposição de várias sanções contra o Irão, depois de já ter retirado o país do acordo sobre programa nuclear iraniano.

Donald Trump elevou esta terça-feira a sua guerra comercial com o mundo a um novo patamar. Depois de na segunda-feira ter ordenado a reposição das sanções contra o regime do Irão, o presidente republicano avisou que quem quiser fazer negócios com os Estados Unidos tem que escolher entre norte-americanos ou iranianos.

"As sanções contra o Irão voltaram oficialmente. São as sanções mais duras alguma vez impostas. Quem quer que esteja a fazer negócios com o Irão NÃO fará negócios com os Estados Unidos. Estou a pedir a PAZ MUNDIAL, nada menos!", escreveu esta terça-feira Trump na sua conta na rede social Twitter.

O aviso do presidente norte-americano está a ser levado muito a sério pelas empresas. A alemã Daimler, por exemplo, anunciou que desistiu de expandir os seus negócios para o mercado iraniano. "Cessámos as nossas atividades, já restritas, no Irão, em concordância com as sanções aplicáveis", indicou o fabricante automóvel, hoje citado pela Reuters. Também a francesa Peugeot indicou que começou já a tomar medidas para suspender a joint venture com o Irão e a sua rival Renault que vai aderir às sanções dos EUA.

Entre as ameaças de Trump e as garantias da UE

A União Europeia, que discorda da denúncia do acordo sobre o nuclear do Irão por parte dos EUA, anunciou na segunda-feira a entrada em vigor de uma nova legislação para proteger as empresas europeias no Irão, de modo a menorizar o efeito das novas sanções dos Estados Unidos contra o país.

"Lamentamos profundamente a reposição de sanções por parte dos Estados Unidos, na sequência da retirada do acordo nuclear com o Irão", sublinharam os ministros dos Negócios Estrangeiros de França, Alemanha e Reino Unido, os três países comunitários que assinaram o acordo concluído em 2015.

Num comunicado conjunto com a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, os representantes dos três países declararam-se "determinados a proteger os operadores económicos europeus envolvidos em negócios legítimos com o Irão".

"Por conseguinte, a legislação de bloqueio elaborada pela UE entra em vigor a 7 de agosto, a fim de proteger as empresas comunitárias contra as consequências das sanções extraterritoriais norte-americanas", precisaram os signatários da declaração.

A legislação de bloqueio autoriza os operadores da UE a obter indemnizações pelos danos decorrentes da aplicação das sanções extraterritoriais norte-americanas junto das pessoas que os causaram e anula o efeito na UE de quaisquer decisões judiciais estrangeiras baseadas nessas sanções.

Esta proíbe igualmente as pessoas singulares ou coletivas do bloco comunitário de cumprirem essas sanções, salvo se excecionalmente autorizadas pela Comissão Europeia no caso de o incumprimento prejudicar gravemente os seus interesses ou os interesses da UE.

Guerra comercial com a China pode afetar jogo em Macau

Entretanto, especialistas do jogo consideram que Macau pode ser palco da guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, nomeadamente as operadoras norte-americanas que querem renovar as licenças, quando se aproxima o final das concessões.

"O processo de licenciamento dos casinos está a ser analisado pelo governo de Macau para determinar que operadores podem continuar a fazer negócios" na capital mundial do jogo, sendo "possível que a China aproveite esta oportunidade para diluir a influência dos investidores estrangeiros" no território, disse à Lusa a analista da Bloomberg Margaret Huang, especialista no jogo na Ásia.

As licenças de jogo terminam entre 2020 e 2022. Até à data não é conhecido um calendário para a revisão das licenças, nem é claro se será mantido o modelo de concessões e subconcessões.

"A China tem estado atenta às questões relativas ao fluxo de capital", lembrou Margaret Huang.

Macau é o único local na China onde o jogo em casino é legal. Em 2017, a receita do jogo em Macau cresceu 19,1% para 265,7 mil milhões de patacas (27,5 mil milhões de euros).

Para o fundador da Newpage Consulting, consultora especializada em regulação de jogos em Macau, o desenvolvimento futuro da guerra comercial EUA/China será fulcral para perceber se Macau será palco, ou não, deste conflito económico.

"A guerra comercial ocorre num momento em que os EUA estão a promover a militarização do mar do Sul da China e estão a tentar formar uma aliança de países com o objetivo de serem um contrapeso à iniciativa chinesa 'Uma Faixa, Uma Rota'", disse à Lusa David Green.

O risco é real, mas "se ficar restrita às tarifas, é difícil ver os operadores afiliados aos EUA em Macau a serem muito afetados", analisou o fundador da Newpage Consulting.

Em julho, Donald Trump impôs taxas alfandegárias de 25% sobre 34 mil milhões de dólares (29 mil milhões de euros) de importações chinesas, contra o que considerou serem "táticas predatórias" de Pequim, que visam o desenvolvimento do setor tecnológico.

A China retaliou com o aumento dos impostos sobre o mesmo valor de importações oriundas dos EUA.

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