"Trump é tóxico na Europa". Só 5% dos europeus confiam nos EUA

Estudo do Conselho Europeu para as Relações Exteriores, em 14 países da União Europeia, revela que existe maior apoio para uma política comum mais coerente e efetiva em matérias como aquecimento global, imigração, comércio e defesa e segurança.

Menos de um em cada 20 europeus, ou seja 5%, confia no presidente norte-americano, Donald Trump, segundo as conclusões de um estudo do Conselho Europeu para as Relações Exteriores (European Council on Foreign Relations, ECFR), que será divulgado esta terça-feira. "Trump é tóxico na Europa" e isso "está a alimentar a desconfiança" na chamada "garantia de segurança dos EUA", segundo a autora do estudo, Susi Dennison, citada num comunicado de imprensa.

"O facto de os europeus estarem agora divididos sobre se os recursos de defesa devem ir para a União Europeia ou a NATO sugere que já não confiam na Aliança como antes confiavam", acrescentou Dennison, investigadora e diretora do programa de Poder Europeu do ECFR. Os europeus, lê-se no estudo, querem que "a União Europeia amadureça como ator geopolítico e trace o seu próprio caminho", ao mesmo tempo que defendem um travão no processo de alargamento e consideram essencial uma política a nível europeu para responder aos problemas existenciais, como o aquecimento global ou a imigração.

"Apesar de estarem desapontados com o desempenho da política externa da UE nos últimos anos, os europeus estão mais à frente do que os seus políticos em entender a necessidade de uma Europa mais forte num mundo onde pode ser empurrada por superpotências cada vez mais agressivas e nacionalistas. Não precisam de ser convencidos da ideia de uma Europa de Defesa -- precisam ser convencidos de que a Europa pode cumprir", indicou a autora.

O Conselho Europeu para as Relações Exteriores encomendou, no início deste ano, uma sondagem ao YouGov a mais de 60 mil pessoas, em 14 países da União Europeia (Portugal não foi um deles). A ideia deste think-tank paneuropeu era perceber os desafios que a política externa da União Europeia enfrenta, segundo os seus cidadãos, numa altura em que um novo representante vai assumir o cargo -- o espanhol Josep Borrell. A totalidade da nova comissão europeia, liderada por Ursula van der Leyen, será conhecida esta terça-feira.

"Os eleitores querem saber que os seus líderes políticos continuam em controlo do projeto europeu, que este serve um objetivo claro em áreas de política cruciais. Os eleitores não afastaram necessariamente a ideia de maior coordenação entre os estados-membros da UE em política externa, mas ainda não estão convencidos da necessidade de o fazer", lê-se no estudo, que rejeita como desatualizada a ideia de que os eleitores cada vez mais nacionalistas não vão tolerar uma política externa coletiva.

Confiança

Um terço dos cidadãos europeus acredita que é possível um conflito entre estados-membros, sendo que em todos os países ouvidos (à exceção de Espanha) mais de 40% acreditam que é possível que a UE possa desintegra-se nos próximos dez ou 20 anos. E, com essa desintegração, a maior perda seria a capacidade de os Estados cooperarem nas áreas de segurança e defesa e atuar como contraponto a países como China, Rússia e os EUA.

Questionados sobre em que poder mais confiam: nos dos EUA ou no da União Europeia, a maior parte dos inquiridos no estudo diz ter mais confiança na União Europeia, com franceses, italianos, checos e gregos a dizer que não confiam em nenhum deles.

A ideia comum é que a União Europeia se torne num ator forte, independente, que recuse uma estratégia de confronto. Em eventuais conflitos entre os EUA e a China ou a Rússia, os europeus defendem a neutralidade europeia.

Quanto à China, os inquiridos estão céticos na capacidade de a União Europeia proteger os interesses económicos numa guerra comercia: menos de 20% dos eleitores em cada estado membro sentem que os interesses do seu país estão protegidos das práticas agressivas de concorrência da China. Em todos os países, à exceção da França e da Roménia, os eleitores acreditam que os estados são os que melhor representam os interesses do seu país em negociações comerciais.

Alargamento, alterações climáticas e imigração

O estudo revela que a maioria dos europeus não vê com bons olhos um novo alargamento da União Europeia. Polónia, Roménia e Espanha são os únicos estados membros em que mais de 30% dos eleitores acreditam que mais países dos Balcãs devem entrar na União Europeia nos próximos dez ou 20 anos.

Os europeus acreditam que há duas áreas em que é verdadeiramente necessária uma ação de conjunto a nível comunitário: alterações climáticas e imigração. Mais de metade dos cidadãos europeus nos países que participaram na sondagem, exceto a Holanda, consideram as alterações climáticas como o desafio que deve ser prioritário.

Os eleitores consideram também que, ao nível da política de migração, os países se devem virar para os problemas que levam os migrantes a deixar os eu país e viajar para a Europa -- a assistência económica em países em desenvolvimento é considerada a segunda forma mais importante de desencorajar a migração, depois de maior policiamento nas fronteiras.

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