Cinco mortos, dezenas de feridos, alerta máximo de avalancha nos Alpes

O risco de avalanche era hoje máximo nos Alpes franceses, após a passagem pela Europa ocidental da tempestade Eleanor, que fez em dois dias cinco mortos e um desaparecido, em França e Espanha.

Durante mais de 24 horas, ventos violentos e chuvas torrenciais abalaram Inglaterra, Irlanda, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, França e Espanha, deixando um rasto de destruição que fez dezenas de feridos, perturbando o tráfego aéreo e privando milhares de habitações de eletricidade, enquanto, do outro lado do Atlântico, a costa leste dos Estados Unidos enfrenta uma tempestade que também está a causar cancelamento de voos, encerramento de escolas e até o adiamento de todas as votações desta semana no Senado.

Em França, uma mulher de 93 anos morreu hoje em Isère (sudeste), na sua casa inundada por uma corrente de água e lama, e um agricultor morreu soterrado por neve em Sabóia (leste).

Na véspera, um esquiador de 21 anos morreu atingido por uma árvore em queda, na estância alpina de Morillon.

Um bombeiro francês desapareceu num rio de Sabóia a meio do dia, ao socorrer uma família que se refugiou em cima de uma viatura, estando a decorrer buscas num setor que se tornou muito perigoso devido à intempérie que fez também cerca de 30 feridos no país.

A ilha mediterrânica da Córsega foi, por sua vez, palco de incêndios "de uma intensidade excecional em pleno inverno", devido a uma "explosiva combinação" de ventos violentos e solo seco.

Em plenas férias escolares, as estâncias de esqui dos Alpes, na maioria encerradas na quarta-feira, começaram lentamente a reabrir, mas alertando para o perigo de avalancha: muitos maciços montanhosos foram colocados em alerta 5, o nível máximo na escala de risco.

Val d'Isère adiou a abertura das suas pistas e Chamonix proibiu o acesso à maioria dos elevadores e teleféricos.

"O objetivo é colocar toda a gente em segurança, tanto os clientes como os funcionários", explicou o presidente da secção Sabóia das Zonas Esquiáveis de França, David Ponson.

Em Espanha, a costa basca, atingida por ventos violentos, manteve-se em estado de alerta, um dia após a morte de um casal arrastado por uma vaga.

Quando se encontravam no cais de uma aldeia costeira, um homem de 67 anos e a sua mulher, de 65, morreram afogados e um jovem que tentou socorrê-los foi salvo no limite.

O sexagenário perdeu a consciência quase de imediato, mas a mulher chegou a agarrar uma corda lançada por pessoas que passavam, antes de a largar, levada pela corrente, relatou o presidente da câmara da cidade vizinha de Mutriku, José Angel Lizardi, à televisão basca.

"Estavam ambos no cais, a ver as ondas, quando uma grande os projetou para a água. E a corrente levou-os", comentou.

Na Alemanha, onde o serviço de meteorologia Deutsche Wetterdienst levantou na quarta-feira à noite o alerta de ventos violentos, é agora o nível das águas que preocupa as autoridades de vários estados regionais.

No oeste do país, a circulação de barcos no rio Mosela foi interrompida devido à chuva intensa.

"O Mosela está completamente encerrado", indicou o diretor-adjunto dos serviços de navegação em Coblença, Tobias Schmidt, citado pela agência noticiosa alemã DPA.

O nível da água do rio Reno está também a ser atentamente monitorizado em Colónia (oeste), onde deverá atingir hoje sete metros e ultrapassar na sexta-feira 7,7 metros, noticiou o diário alemão Bild.

O tráfego fluvial, já limitado na quarta-feira no setor de Colónia, é suspenso a partir dos 8,3 metros, recordou a DPA.

Na quarta-feira, a tempestade Eleanor mobilizou as equipas de socorro em várias regiões da Alemanha, onde diversas estradas foram cortadas e a circulação ferroviária sofreu perturbações.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.