Situação pode depender do Podemos de Pablo Iglesias, diz especialista

Pablo Iglésias, líder do Podemos

Académico português analisa evolução das relações entre Espanha e a Catalunha. onde este mês se realizam eleições autonómicas.

O especialista em Relações Internacionais Felipe Vasconcelos Romão considerou esta terça-feira que as eleições autonómicas da Catalunha, este mês, podem resultar numa extensão da intervenção de Madrid sobre a região, caso o Podemos ajude os independentistas a formar maioria.

"Podemos estar a caminho de uma extensão do 155 [número do artigo da Constituição espanhola que permite a suspensão da autonomia] em 2018, para lá destas eleições. Julgo que o Podemos [esquerda radical, liderado por Pablo Iglesias] pode ter um posição muito importante neste enquadramento", disse à agência Lusa o especialista, que na quinta-feira lança o livro "Espanha e Catalunha: Choque de Nacionalismos".

Felipe Vasconcelos, professor de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e do ISCTE, considera que uma das principais incógnitas políticas na Catalunha - onde alguns partidos nacionalistas declararam a independência unilateral, depois de inviabilizada por ação do Governo central em Madrid, advém do facto de não existir "uma maioria social" a favor desse movimento.

"Estamos perante a ausência de uma maioria social clara e ampla a favor da independência na Catalunha. (...) Por muitas contas que façamos, neste momento o nacionalismo/independentismo não chega sequer aos 50%", explicou o professor.

O Governo espanhol suspendeu, de forma inédita, a autonomia política da Catalunha na sequência da declaração unilateral de independência da região por parte do então presidente regional Carles Puigdemont e do parlamento regional, demitindo todo o governo regional e convocando eleições autonómicas para 21 de dezembro.

No entanto, as sondagens indicam dificuldades de ambos os campos - independentistas catalães e constitucionalistas (pró-unidade de Espanha) - em obter maiorias claras num cenário pós-eleitoral.

As sondagens indicam o partido de centro-direita Ciutadans (liderado na Catalunha por Inês Arrimadas) e os independentistas de esquerda (Esquerra Republicana Catalana, de Oriol Junqueras) na liderança, quase empatados nas intenções de voto, seguidos da plataforma com que Carles Puigdemont concorre a partir de Bruxelas (para onde fugiu para evitar a detenção, por rebelião e sedição ao declarar a independência).

Os socialistas catalães (Partido Socialista da Catalunha) de Miquel Iceta surgem em quarto, com os últimos lugares reservados para os radicais de extrema esquerda da CUP (que apoiaram o anterior governo de Puigdemont e Junqueras), para a versão catalã do Podemos (Catalunya En Comu/Podem) e para o PP catalão.

Em teoria, o lado que rejeita uma independência unilateral poderia ter vantagem sobre os nacionalistas, mas para tal seria preciso que o Podemos catalão aceitasse entregar a Generalitat (governo regional) ao Ciutadans de Inês Arrimadas, juntando o seu voto de apoio ao do PSC e do PP. Filipe Vasconcelos Romão não acredita.

"Acho que quem pensa que vamos ter, de caras, um governo do Ciudadanos caso haja mais votos no espanholismo do que no catalanismo, está a fazer mal as contas. Porque está a julgar que o Podemos na Catalunha vai dar os seus votos a Inês Arrimadas. Julgo que é mais provável o Podemos dar o voto a Oriol Junqueras", disse à Lusa o professor.

"Não tenho dúvidas nenhumas de que o Podemos irá inviabilizar qualquer governo que coloque o Ciudadanos na primeira linha da política catalã", disse.

Assim, se o Podemos catalão der o apoio ao independentismo, e este conseguir "uma maioria clara" no Parlamento regional, Filipe Vasconcelos Romão não descarta "que Mariano Rajoy seja tentado a estender o 155 durante mais algum tempo".

Por isso mesmo, Filipe Vasconcelos Romão escreve no livro que lança na quinta-feira que "a independência da Catalunha num contexto de normalidade é, hoje, uma causa impossível".

"Por muito que custe ao independentismo e aos seus simpatizantes, a Catalunha não será, a médio prazo, um Estado independente reconhecido pela comunidade internacional e pela União Europeia. E, a longo prazo, se vier a sê-lo, nunca o será pela via unilateral", conclui.

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