Shamima fugiu do Reino Unido para se juntar ao Estado Islâmico. Agora quer voltar

Shamima Begum tinha 15 anos quando fugiu para do Reino Unido para se juntar ao Estado Islâmico. Quatro anos depois está grávida e quer voltar para ter o bebé.

Shamima Begum e Amira Abase tinham 15 anos e Kadiza Sultana 16, quando desapareceram das suas casas em Londres para se juntarem ao Estado Islâmico. Quatro anos depois, uma das jovens, Shamima Begum, pede ao Reino Unido que a aceite de volta, numa entrevista partilhada esta quinta-feira e feita pelo The Times. Grávida de nove meses e sem o marido, depois de este ter sido capturado por um grupo de combatentes sírios, a jovem de 19 anos encontra-se num campo de refugiados entre milhares de pessoas e pode dar à luz "a qualquer momento".

O que motiva Shamima a querer voltar para o Reino Unido é a preocupação com a saúde do filho. Depois de ter perdido duas crianças, tem receio que a história se repita, o que a fez abandonar Baghuz e o campo de batalha. A primeira criança morreu com um ano e nove meses e foi enterrada há um mês. O segundo filho morreu há três meses, devido à falta de nutrição. "Quando o levei ao hospital não havia medicação suficiente para o ajudar". Mesmo já tendo deixado Baghuz, Shamima receia que o filho adoeça no campo de refugiados e apela ao Reino Unido para que a receba de volta. "Eu sei que no Reino Unido tudo vai ser resolvido - pelo menos, no que toca à saúde."

Mesmo querendo voltar ao seu país, a jovem britânica não mostrou em momento algum, qualquer tipo arrependimento da sua escolha em se juntar ao Estado Islâmico. Conta que a sua vida enquanto membro do Estado Islâmico foi "normal" e de acordo às suas expectativas. "Às vezes, há bombas e assim, mas de resto...". Quando questionada se algum dia tinha assistido a uma execução respondeu negativamente mas chegou a ver cabeças decepadas em caixas o que "não a incomodou minimamente". Justifica-se dizendo pensar "no que ele faria a uma mulher muçulmana se a apanhasse".

Segundo o correspondente da BBC Dominic Casciani, ​​​​se houver autorização para Shamima voltar esta terá que percorrer um longo caminho." Se ela tivesse menos de 18 anos de idade, o governo teria o dever de levar em consideração o que seria melhor para o seu filho", no entanto, a jovem já atingiu a idade adulta, o que a torna responsável pelas suas escolhas.

Casciani compara a história de Shamima a outra jovem britânica, Tareena Shakil, que saiu da zona de guerra com o filho e mentiu aos serviços de segurança para conseguir voltar. Foi presa e acusada de pertencer a um grupo terrorista. "Supondo que Shamima conseguiria chegar a um aeroporto, o Reino Unido poderia bani-la temporariamente até que esta concordasse em ser investigada e monitorizada. Os serviços sociais também, certamente interviriam para questionar se o seu filho deveria ser retirado para o proteger da radicalização."

Algo que pode jogar a favor de Shamima foram as suas afirmações sobre o futuro do Estado Islâmico. A jovem conta que existe tanta corrupção e opressão a acontecer que não acredita " que eles mereçam a vitória." Quando questionado sobre o caso, o ministro da Segurança, Ben Wallace, disse que não iria colocar em risco a vida das autoridades britânicas para resgatar cidadãos britânicos que foram à Síria e ao Iraque para se juntarem ao Estado Islâmico. "Apesar de a Grã-Bretanha ter o dever de cuidar dos filhos dos britânicos na Síria, também tem o dever de proteger todos os cidadãos do Reino Unido" disse à Rádio BBC. Atualmente, não há diplomatas britânicos na Síria por causa dos riscos de segurança, logo, "se Begum quiser voltar ao Reino Unido, terá de ir à Turquia ou ao Iraque para serviços consulares"

Peter Fahy, um ex-chefe de polícia que liderou o programa de prevenção ao terrorismo, na época da fuga da jovem comentou a história de Shamima afirmando que se a jovem se mostrasse arrependida, a situação seria vista de uma forma diferente."Seria um grande desafio e exigiria uma grande quantia de dinheiro mantê-la segura e impedir que atraísse extremistas islâmicos e extremistas de direita"

Segundo o The Times, Kadiza Sultana, morreu num ataque aéreo em Raqqa, a antiga capital do território do Estado Islâmico.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?