Senado rejeita aborto e Argentina fica com lei de 1921

Senadores votaram contra a legalização da interrupção voluntária da gravidez até às 14 semanas

Depois de uma maratona de 16 horas de debate, os senadores argentinos votaram contra a legalização do aborto - 38 contra e 31 a favor. Este resultado significa que só no próximo ano os legisladores terão outra oportunidade para revogar uma lei que data de 1921.

Neste momento, o aborto só é permitido na Argentina em caso de violação ou se a vida da mãe estiver em causa. Em julho, a legalização até às 14 semanas de gravidez fora aprovada pela Câmara baixa do congresso argentino por uma margem mínima.

Enquanto decorria o debate e a votação, no exterior do Senado amontoavam-se manifestantes pró e contra o direito ao aborto. "O que este resultado mostra é que a Argentina ainda é um país que representa os valores da família", disse à Reuters a ativista Victoria Osuna, de 32 anos. Victoria era uma das manifestantes que saudaram a decisão do Senado, exibindo lenços azuis e segurando bandeiras da Argentina, o país natal do papa Francisco.

Os apoiantes do direito ao aborto, que se distinguiam por ter lenços verdes na cabeça, dançaram nas ruas até à votação final, apesar do vento e da chuva fria do inverno argentino. Muitos estavam acampados diante do Congresso em Buenos Aires há vários dias. "Ainda estou otimista. Não passou hoje mas vai passar amanhã, ou noutro dia", disse também à Reuters Natalia Carol, de 23 anos.

Apesar de ser pessoalmente contra o aborto, o presidente Mauricio Macri já dissera estar disposto a aassinar a nova lei, se fosse aprovada pelo Senado. Todos os anos há pelo menos 350 mil abortos ilegais feitos na Argentina, estima o Ministério da Saúde, mas os grupos de defesa dos direitos humanos garantem que serão muitos mais

Na América do Sul

Cuba e Uruguai são os dois únicos países da América do Sul a ter legalizado o aborto. No Brasil, o assunto está em debate e o Supremo Tribunal vai decidir que a lei atual, que apenas permite interromper a gravidez em caso de violação, malformação do feto ou risco de vida para a mãe, é constitucional. A legalização enfrenta a oposição feroz dos evangélicos, cada vez mais poderosos no Brasil.

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