"Sem medidas enérgicas para defender os trabalhadores aumentarão as desigualdades"

Organização Internacional do Trabalho celebra 100 anos e alerta para desafio dos robôs e da inteligência artificial

Enquanto em Davos, na outra ponta da Suíça, os ricos e poderosos discutem como fazer a economia mundial crescer, aqui em Genebra celebra-se a organização que nos últimos cem anos conseguiu que a jornada de oito horas de trabalho fosse a regra, que as trabalhadoras grávidas tivessem proteção e que houvesse uma idade mínima para se entrar no mercado de trabalho. Sim, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) é já centenária e acaba de lançar um relatório com o título ambicioso de "Trabalhar para um Futuro mais Promissor". "Pedimos aos nossos 187 membros para aplicarem este relatório através de um trabalho conjunto de governos, empresas e trabalhadores para tornarmos as nossas sociedades mais justas", afirmou esta manhã o diretor-geral da OIT, o britânico Guy Ryder.

E como têm de ser feitas pontes com os tais poderosos que costumam ir a Davos, a comissão que elaborou o relatório é encabeçada por Stefan Lovfen e Cyril Ramaphosa, respetivamente primeiro-ministro sueco e presidente da África do Sul. Ambos têm passado de sindicalistas.

Lovfen não esteve presente por estar a formar governo em Estocolmo, mas Ramaphosa falou na cerimónia de apresentação de "o futuro da nossa sociedade depender de como vamos lidar com as oportunidades e os desafios do trabalho", destacando uma das ideias base do estudo.

"Novas forças estão a transformar o mundo do trabalho. As transições envolvidas nesta evolução exigem que se tomem medidas enérgicas", lê-se no relatório. "Esperam-nos inúmeras oportunidades para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, aumentar as opções disponíveis, fechar a desigualdade de género, reverter os estragos causados pelas desigualdades a nível mundial e muito mais. No entanto, sem essas medidas enérgicas, caminharemos para um mundo em que aumentarão as desigualdades e as incertezas existentes", acrescenta o documento, que fala da inteligência artificial e da robótica como desafios para a classe trabalhadora. E alerta para a necessidade de até 2030 terem de ser criados 344 milhões de empregos, além dos 190 milhões necessários para pôr fim ao atual desemprego global.

O relatório propõe revitalizar o contrato social "que assegura aos trabalhadores uma participação justa no progresso económico". Insiste também no investimento nas pessoas e no "direito a uma aprendizagem ao longo da vida que permita adquirir competências, aperfeiçoá-las e reciclar-se profissionalmente".

Em relação aos jovens, o relatório da OIT fala da necessidade de ajudá-los "para navegarem nas cada vez maiores dificuldades que envolve a transição da escola ao trabalho". Sobre os mais velhos, afirma que devem poder ser economicamente ativos enquanto o desejarem.

O combate à desigualdade de género deve ter "um programa transformador e mensurável". E haver "proteção social universal desde o nascimento até à velhice". Assim como total garantia dos direitos sindicais, de forma "a encaixar e administrar a tecnologia em favor do trabalho decente" e dar ao trabalhador "soberania sobre o seu tempo".

Ex-sede da Sociedade das Nações e exílio de Lenine

O imponente edifício da OIT, hoje especialmente engalanado, fica no complexo das Nações Unidas em Genebra, que foi até à Segunda Guerra Mundial sede da Sociedade das Nações (SDN). Uma das coroas de glória da OIT, diz-me um jornalista suíço, é ter conseguido que os Estados Unidos aderissem em 1934, apesar de estarem de contra a SDN. Ao longo das décadas, a OIT foi assim conseguido gerir as diferenças ideológicas entre os seus membros, tarefa sobretudo complexa quando após 1945 o mundo ficou dividido em bloco capitalista e bloco comunista. Curiosamente, foi em Genebra que o exilado russo Lenine planeou a Revolução soviética (a União Soviética entrou também em 1934 na OIT, mas já no tempo de Estaline).

A OIT aproveita também este relatório para recomendar "que se preste atenção especial à universalidade do seu mandato", de modo a proteger também "aquelas pessoas que, historicamente, permaneceram excluídas em grande escala da justiça social e do trabalho decente, em especial os que trabalham na economia informal". Calcula-se que dois mil milhões de pessoas no mundo vivam da economia informal, segundo o relatório agora divulgado.

Lovfen e Ramaphosa foram apoiados na elaboração do relatório por uma equipa que inclui o sociólogo guineense Carlos Lopes e a académica brasileira Cláudia Costin, ministra da Administração Pública na presidência de Fernando Henrique Cardoso.

Ontem, a Oxfam, uma ONG britânica, revelava como a desigualdade está fora de controlo, a ponto de os megamilionários terem visto a sua riqueza crescer 12% em 2018, enquanto a metade mais pobre da humanidade perdia 11%. Assim, os 26 mais ricos do planeta têm tanto património como os 3,8 mil milhões mais pobres.

Já em 2016 um estudo de Lucas Chancel e Thomas Piketty alertava para o crescimento das desigualdades nos Estados Unidos, na China e na Rússia e um pouco menos na Europa.

A própria OIT sublinha que "entre 1980 e 2016, o 1% mais rico da população mundial teve um aumento global de rendimentos de 27%, enquanto os 50% da população mundial mais pobre só teve um aumento de 12%". E 300 milhões de trabalhadores vivem em extrema pobreza, mesmo tendo um emprego formal.

Em Portugal, há empresas em que ganhando o salário médio o trabalhador demorará 46 anos a atingir o rendimento de um CEO, segundo um artigo recente do Dinheiro Vivo. Nos Estados Unidos, numa empresa como os supermercados WalMart, essa diferença é de mais de mil, segundo a CNN.

"Podemos moldar o mundo em que vivemos. A OIT faz 100 anos, podemos trabalhar para fazer dos próximos 100 anos mais justos para a sociedade e em especial para os trabalhadores", disse Ramaphosa, antigo dirigente sindical que hoje preside a um dos países do G20.

O DN viajou a convite da OIT

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