"Se não fosse congressista podia ganhar a vida a ordenhar vacas"

Os avós de Jim Costa chegaram à Califórnia no início do século XX, vindos dos Açores. Começaram na indústria do leite, iniciando o negócio da família. A leitaria foi vendida há 30 anos quando o pai morreu, mas a quinta ainda produz. Mais jovem eleito no Congresso da Califórnia com 25 anos, e hoje, aos 65, congressista em Washington, os pais sempre incentivaram Costa a interessar-se pela política americana. Mas Portugal está no seu coração.

A conversa tinha como tema Donald Trump e o primeiro ano do republicano na Casa Branca, mas, com tudo no gabinete de Jim Costa no Rayburn House Office Building, ao lado do Capitólio, em Washington DC a lembrar Portugal e sobretudo os Açores de onde os avós do congressista democrata emigraram no início do século XX, depressa passou a centrar-se na paixão deste californiano pela terra dos antepassados. Apontando para uma fotografia emoldurada na parede onde se podem ver duas crianças e um adulto vestidos de cowboy, explica que o rapaz é ele. "Estava a ceifar em Tulare na Califórnia. O fato de cowboy já não me serve!", brinca, antes de retomar o tom sério para explicar que o pai e a prima, também na imagem, "já não estão connosco".

Continuando a visita guiada pelo gabinete aponta para uma outra fotografia - "aqui é o meu pai e o meu tio ao pé da máquina de apanhar algodão. Eu costumava conduzir esta máquina", recorda. Mesmo ao lado da imagem com os dois homens de chapéu na cabeça está uma fotografia de Jim Costa com o presidente Barack Obama na Casa Branca. "Gosto de pensar que por muitos sucessos que se tenha na vida não podemos esquecer de onde viemos. É importante pensar que o menino da quinta na Califórnia chegou até à Sala Oval", sublinha.

Prova dessa apego às origens foi em 2004, quando anunciou a candidatura ao Congresso federal - onde primeiro representou o 20.º distrito da Califórnia e desde 2013 representa o 16.º - na estação de comboios onde os avós chegaram à Califórnia. "Não falavam uma palavra de inglês. Nunca imaginaram que cem anos depois o neto estaria a candidatar-se à Câmara dos Representantes dos EUA".

Eles não falavam inglês, mas hoje Jim Costa já luta com o português. Além de umas expressões a pontuar o discurso ainda se ensaia numa frase completa quando questionado sobre se costuma visitar Portugal: "Lisboa é uma cidade muito linda. Gosto muito", diz em português, acrescentando na mesma língua "não falo muito bem".

De volta ao inglês, Jim Costa explica que em abril de 2017 esteve em Lisboa para participar no Diálogo de Legisladores , iniciativa que este ano o traz de volta à capital portuguesa. Mas agora, aos 65 anos, é visita frequente aos país dos avós, tendo estado no vale do Douro no verão passado e lamentando ainda não conhecer o Alentejo, só aos 19 anos foi conhecer os Açores. "Fui com os meus pais em 1971. Eles já nasceram cá. Mas ainda tenho primos na Terceira".

Foi daquela ilha açoriana que os quatro avós de Jim Costa partiram para a América. Primeiro o avô Costa, em 1897, Depois de um breve regresso à Terceira, este voltou para a Califórnia. Foi aí que conheceu a "avó Ana", de apelido Teixeira. Ela e a irmã tinham perdido os pais devido a uma epidemia e foram viver para a América com uns tios. "Tinham 14 e 16 anos. Não havia meios para as sustentar nos Açores e os tios vieram para os EUA com a ideia de lhe encontrar um marido português", explica o congressista. O avô Costa foi o escolhido. "O meu avô tinha 25 anos, a minha avó Ana tinha 16. Ele trabalhava todos os dias, mas terá ouvido falar destas jovens e num domingo à tarde vestiu o melhor fato e foi até casa dos Teixeira. Viu a avó Ana a dar comida às galinhas. Ela tinha bom aspeto. No domingo seguinte ganhou coragem para voltar e dizer ao tio dela que tinha intenções honradas e que queria pedir a mão da jovem".

Jim Costa tinha cinco anos quando a avó Ana morreu, por isso pouco se lembra dela. "Tenho memórias falsas", diz. Muito do que sabe chegou-lhe através da irmã, 14 anos mais velha. "Ela um dia perguntou: "avó Ana, nem conhecias o homem, como é que foste casar com ele?" Ela terá respondido: "éramos órfãs, sabíamos que não podíamos ficar com os nossos tios para sempre. Tínhamos de arranjar um marido como devia ser e ele parecia um rapaz simpático"", recorda entre risos. A verdade é que o casamento funcionou e tiveram duas filhas e quatro filhos.

Do lado materno, a história não é muito diferente. O avô Cardoso já tinha estado na América mas voltou aos Açores para encontrar uma noiva portuguesa. Na Terceira conheceu Georgina Salvador, cujo pai foi "uma espécie de superintendente das escolas" da ilha, havendo hoje uma rua com o nome dele em Angra do Heroísmo. Única dos quatro avós de Jim Costa a saber ler e escrever, de Georgina o congressista guarda uma cassete gravada pela sobrinha em que esta recorda a viagem de navio da Terceira para Boston e depois a ida de comboio até à Califórnia, onde chegou em 1904 à tal estação onde Jim Costa anunciou a candidatura ao Congresso federal. A avó viveu até aos 90 anos e, lembra Jim Costa, ainda votou três vezes no neto - em 1978, 1989 e 1982 - "levei à assembleia de voto".

Os açorianos que chegavam à Califórnia naquele início do século XX dedicavam-se a uma de duas atividades: a pesca ou aos produtos lácteos. "A minha família não pescava, trabalhava nas leitarias. O meu avô em 1897 veio ter com o irmão que ordenhava vacas em Hanford. Não falava inglês. Quando chegou a Fresno apontaram-lhe uma direção e ele foi caminhando. Hanford fica a 30 milhas [mais de 50 quilómetros]. Encontrou alguém que falava português e levaram-nos até à morada que ele tinha apontada. Começou a trabalhar nessa mesma tarde", conta Jim Costa, sem esconder o orgulho. "É o tipo de coragem que sempre fez parte da imigração portuguesa desde que chegaram os primeiros baleeiros, da costa da Nova Inglaterra até ao Havai", garante.

No negócio dos laticínios até à morte do pai, há 30 anos, a família Cardoso-Costa vendeu então a leitaria e dividiu a quinta. "Mas ainda cultivamos a terra. Produzimos uvas, amêndoas e ameixas. O marido da minha prima cultiva cenouras, etc", explica Jim Costa. E garante, meio a sério, meio a brincar que "se não fosse congressista podia ganhar a vida a ordenhar vacas". Metade do leite da Califórnia, lembra, é ainda hoje produzido por famílias de origem portuguesa. 35% pelos holandeses. A piada quando um português casa com uma holandesa é que não é um casamento, é uma fusão", ri-se.

Dar de volta

Bem-sucedidos no negócio da família, os pais de Jim Costa sempre se interessaram pela política americana. "Achavam que deviam dar algo de volta e envolver-se na política americana", conta o congressista. E quando o filho foi para a escola, encorajaram essa faceta nele. "Vim fazer um estágio [a Washington] quando tinha 21 anos, entre o meu primeiro e segundo ano na universidade e trabalhei para dois congressistas. Aos 25 anos concorri ao Congresso da Califórnia. Fui eleito e servi lá durante 25 anos". Na altura era o mais jovem eleito. Hoje há três lusodescendentes a representar a Califórnia na Câmara em Washington - Costa e os republicanos David Valadao e Devin Nunes.

Nunca longe do coração do congressista, Portugal também está presente na música que houve, mas sobretudo na comida. Confessando-se um foodie, este apaixonado por culinária destaca como especialidade o caldo verde que faz nos feriados, mas também faz bacalhau e arroz doce - "Era a sobremesa favorita da minha mãe. Mas tenho de ter cuidado com o peso, sou um homem solteiro ainda ando no mercado", remata com uma gargalhada.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.