Rutte vai ter dois titulares por ministério em quatro pastas

Negociações dos quatro partidos foram as mais longas desde a II Guerra Mundial. Primeiro-ministro terá três vices

Sete meses depois das eleições, a Holanda tem finalmente governo, sendo que Mark Rutte irá liderar o primeiro executivo do país em 40 anos composto por quatro partidos - o VVD do primeiro-ministro, os conservadores do CDA e da União Cristã e os liberais do D66. São 16 ministérios e oito secretarias de Estado, cuja composição mostra o difícil que foi chegar a um acordo. Rutte, que sempre defendeu governos pequenos, terá três vices, um de cada partido.

Talvez o mais insólito deste novo executivo seja o facto de três pastas chave - Justiça, Educação e Saúde - passarem a terem não um, mas sim dois ministros, de partidos diferentes. Assim, na Justiça, o VVD ficará com a pasta da Justiça propriamente dita, enquanto que o ministro do CDA tutelará as polícias. Na área da Educação, o ministro da União Cristã terá a pasta do ensino primário e secundário e media e a ministra do D66 a do ensino superior, cultura e ciência. Finalmente, na pasta da Saúde, o ministro do VVD tutelará hospitais e médicos, enquanto o do CDA (Hugo de Jonge, que também será vice-primeiro-ministro) terá sob sua alçada as políticas relacionadas com a terceira idade e dependências.

Esta solução bicéfala já era usada - e vai manter-se - no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que agora terá um membro do VVD encarregue da parte diplomática e da política e uma representante do D66 terá a tutela do comércio externo e desenvolvimento.

"Todos os partidos apresentaram desejos de última hora", declarou Mark Rutte há duas semanas, quando foi finalizado o acordo de coligação e que pôs fim a sete meses de negociações entre os quatro partidos, o maior período de conversações deste tipo na Holanda desde a II Guerra Mundial. Até agora, o recorde era de 208 dias, em 1977.

O novo governo marca também a saída das Finanças de Jeroen Dijsselbloem. O ainda presidente do Eurogrupo (função que manterá até final do mandato, em janeiro, apesar de já não ser ministro) será substituído por Wopke Hoekstra, do CDA.

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Anselmo Borges

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1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.