Rainha portuguesa nasceu na cidade da Juventus

Se CR7 é o rei dos relvados, Turim, onde agora brilha, é a cidade onde nasceu D. Maria Pia. Filha e irmã de reis italianos, foi mulher de D. Luís e mãe de D. Carlos

Noticiava o primeiro número do Diário de Notícias que "suas majestades e altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes". Ora, essas majestades referidas a 29 de dezembro de 1864 pelo jornal era o rei D. Luís e a rainha D. Maria Pia, uma italiana nascida em Turim, a cidade sobre a qual agora se voltou a falar muito em Portugal desde que Cristiano Ronaldo passou a ser futebolista da Juventus. E quando se diz que D. Maria Pia é italiana, é tanto mais verdade quanto o seu pai, Vitor Emmanuel II, se tornara em 1861 o primeiro rei da Itália reunificada, processo liderado pelo reino da Sardenha-Piemonte e que só terminaria em 1870 com a conquista de Roma.

Nascida a 16 de outubro de 1847, D. Maria Pia pertencia à Casa de Saboia, que católica e com créditos de liberal se perfilava como parceira ideal para uma aliança por casamento com os Bragança portugueses (havia também o ramo brasileiro). Casou em 1862 com D. Luís, que no ano anterior ascendera ao trono português por morte do irmão, D. Pedro V. E passou os seguintes 48 anos da sua vida em Portugal, até a implantação da república a obrigar ao regresso a Turim. Viu o filho D. Carlos ser rei, assim como o neto D. Manuel II.

"Maria Pia chegou a Portugal ainda adolescente. Como rainha cumpriu plenamente a sua principal função de dar à coroa dois descendentes. Assistiu muitos anos depois ao assassinato do filho mais velho e teve de abandonar o país aquando da mudança de regime em 1910. Estes dois acontecimentos marcam em tons fortes a vida desta mulher que não foi feliz. Os desentendimentos com o marido, as preocupações com a leviandade de D. Afonso e as desavenças com D. Amélia completam esse quadro de infelicidade pessoal. Ainda que a certa altura se tivesse interessado pela política interna, sendo uma grande adepta de Fontes Pereira de Melo, e tivesse tentado assumir a função, ainda que circunstancialmente, de conselheira do rei, não teve deste ponto de vista um papel significativo", explica Luís Nuno Espinha da Silveira, biógrafo de D. Luís e professor na Universidade Nova de Lisboa.

Ana Anjos Mântua, conservadora da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves e historiadora, tem uma visão um pouco diferente: "Muitas vezes acusada de ser uma mulher desequilibrada, perdulária e dada a luxos, pela historiografia pós revolução republicana, Maria Pia de Saboia, rainha de Portugal, tem vindo a ser reabilitada, principalmente pela historiadora Maria Antónia Lopes, na sua biografia Rainhas que o povo amou. Detentora de uma verdadeira noção do papel da monarquia, tudo indica que reinava em conjunto com D. Luís, aconselhando-se mutuamente."

Acrescenta ainda a autora do romance histórico A Americana que Queria ser Rainha de Portugal, sobre a mulher de D. Afonso, o filho mais novo de D. Maria Pia, que a italiana de nascimento, "considerando a obra assistencial como sua obrigação, construiu uma imagem de rainha protetora dos aflitos. Imagem que teve total correspondência quando, no dia 20 de Março de 1888, deflagrou um incêndio no Teatro Baquet, no Porto, provocando a morte de 52 pessoas. D. Maria Pia acompanhada do filho, o infante D. Afonso, apesar de tentarem persuadi-la do contrário, reuniu cerca de nove contos e partiu imediatamente de comboio. Vestida de luto, percorreu os bairros mais pobres da cidade, visitando as famílias das vítimas e distribuindo esmolas a todos os afetados."

Ana Anjos Mântua sublinha que D. Maria Pia, "muito atenta e preocupada com a instrução e comportamento dos filhos, proporcionou-lhes um ensino profundo a nível intelectual, artístico e desportivo, com resultados notáveis em D. Carlos, mas nem tanto em D. Afonso, sempre muito mais tendente às atividades físicas. Com a morte de D. Luís, a sua cumplicidade com D. Afonso acentua-se. Acompanhou-a no exílio para Itália e permaneceu junto dela até à morte".

Depois da morte do marido e do atentado de 1908 contra D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, veio o derrube da monarquia dois anos depois. D. Maria Pia não seguiu D. Manuel II e D. Maria Amélia (viúva de D. Carlos) no exílio em Inglaterra, preferindo o regresso a Itália. Morreu em Turim a 5 de julho de 1911, já a Juventus existia há 14 anos e tinha até ganho em 1905 o seu primeiro campeonato a jogar no Estádio Velódromo Humberto I da Itália, batizado em honra de um irmão de D. Maria Pia, rei que foi assassinado por um anarquista em 1900.

Sobre a cidade onde D. Maria Pia nasceu (primeira capital de Itália, antes de Florença e Roma) e onde hoje se exibe o português que é rei dos relvados, diz Goffredo Adinolfi, italiano e investigador em Lisboa no ISCTE-UL: "Turim permanece o lugar de onde nasceu o reinado de Itália. Não é um acaso que a contagem das legislaturas parlamentares não volta ao zero (ou a um). Assim a primeira Câmara dos deputados, 18 de fevereiro de 1861, é contada como a oitava, Vítor Emanuel II mantém também a contagem do antigo reino dos Saboia (depois Humberto I, Vítor Emanuel III e Humberto II). Isso, embora tenha havido polémicas, para não esquecer a cidade de onde tudo começou."

Humberto II, último rei italiano, o último dos Saboia monarcas, reinou apenas um mês em 1946 e exilou-se depois em Cascais, nesse Portugal que foi pátria da sua tia-avó Maria Pia, que terá chegado a conhecer em Turim, pois tinha sete anos quando ela morreu.

Ler mais

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.