Amazónia. Quem é o ministro do ambiente que queria correr a esquerda a tiro

Nas últimas eleições, o cartaz de campanha de Ricardo Salles fez furor: contra os ladrões de tratores, os javalis, a esquerda e outras pragas propunha pólvora. O homem a quem Bolsonaro entregou a gestão da maior floresta do mundo, entretanto, diz-se doutorado em Yale - mas Yale não sabe. E agora nem o seu próprio partido quer nada com ele.

"Contra a praga do javali, contra o roubo de trator, de gado e de insumos, contra a esquerda e o Movimento dos Sem Terra, contra a bandidagem no campo, bala: vote Ricardo Salles, do Partido Novo, para deputado federal", dizia o cartaz de campanha do hoje ministro do ambiente mais pressionado do planeta.

Não se sabe se foi esse panfleto das eleições de 2018 ou se foi o processo por fraude ambiental que o ministério público lhe moveu um ano antes enquanto secretário do ambiente de São Paulo que convenceram Jair Bolsonaro a escolhê-lo para a pasta.

Talvez ambos.

Advogado de formação, com cursos de pós-graduação em Lisboa e Coimbra, o ministro é mestre em direito público por Yale, a prestigiada universidade norte-americana - bom, pelo menos era esse o seu currículo de apresentação, quer, por exemplo, na entrevista ao Roda Vida, programa da TV Cultura, deste ano, quer em artigos publicados pelo jornal ​​​​​Folha de S. Paulo, desde 2012. Mas investigação do site The Intercept Brasil, o mesmo da Vaza-Jato, revelou que em Yale ninguém o conhecia. Salles culpou a sua assessoria de imprensa pela divulgação de um currículo errado.

Paulistano de 44 anos, Ricardo de Aquino Salles militou de 2006 a 2018 no DEM, partido de direita, e a partir de então no Novo, o mais liberal, na economia, dos partidos que se apresentaram à última eleição e cujo líder, João Amoêdo, surpreendeu ao ser o quinto mais votado nas presidenciais.

Primeiro membro do partido a integrar um executivo federal, seria de esperar que o Novo se orgulhasse de Salles. Nem tanto: "Esclarecemos, mais uma vez, que o ministro do meio ambiente Ricardo Salles não foi uma indicação do Novo e, portanto, não representa a instituição. O ministro foi escolhido e responde ao presidente Jair Bolsonaro", escreveu perfil oficial do partido nas redes sociais, um comunicado compartilhado por Amoêdo.

"Não há qualquer interferência ou participação do partido na gestão do ministério do meio ambiente. O ministro não mantém nenhum contacto com o partido quanto aos seus planos, metas e objetivos para a pasta. Só temos conhecimento das suas ações quando divulgadas publicamente", insistiu o presidente do Novo, para não deixar dúvidas, instantes depois, novamente nas redes sociais.

Alvo de pedido de impeachment protocolado pelo partido Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, na mira de Ciro Gomes, terceiro classificado nas últimas presidenciais, que exigiu que Bolsonaro o demita, e pressionado pelo mundo, na sequência da devastação que se abateu sobre a Amazónia, o ministro exerceu, no entanto, com autoridade, talvez excessiva, o seu mandato até aos últimos dias.

Em março, demitiu 21 dos 27 superintendentes regionais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) sem explicação.

Em abril, levou à demissão do presidente do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Adalberto Eberhard, depois de, dois antes, em uma reunião com ruralistas na cidade de Tavares, ter afirmado que instauraria processo administrativo contra os funcionários do órgão que faltaram ao encontro.

No início de agosto, após sugestão de Bolsonaro, exonerou Ricardo Galvão, o presidente do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) porque o cientista havia alertado para... o perigo de queimadas. As tais queimadas que deixaram São Paulo, a 2500 km da Amazónia, às escuras a meio da tarde e com a água da chuva preta por contaminação da fuligem do fogo. As tais queimadas que são hoje manchete em todos os jornais do mundo e o principal motivo de preocupação dos governos das maiores economias mundiais.

Houve, sob o nariz de Salles, um aumento de 83% das queimadas em relação ao mesmo período de 2018, com 72.843 focos de incêndios até o momento, 68 dos quais em territórios indígenas e áreas de conservação só nesta semana, a maioria deles na Amazónia.

Antes de exercer o cargo de secretário do ambiente de São Paulo, o ministro destacara-se como fundador do Movimento Endireita Brasil, que tinha entre as suas motivações a abominação do estado, o ataque ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a defesa do regime militar. Em entrevista, Salles fez um reparo: afirmou que não defendeu esse regime, apenas uma visão histórica mais equilibrada.

Nisso, difere de Bolsonaro.