"Quando os timorenses morreram à minha frente senti que tinha de valorizar o sacrifício deles"

O arquivo de imagens captadas por Max Stahl em Timor vai passar a estar disponível online através da Universidade de Coimbra. São mais de 25 anos em vídeos e filmes realizados pelo repórter que filmou o massacre de Santa Cruz. A apresentação é esta quinta-feira, às 16.00, na reitoria da Universidade de Coimbra.

São mais de 25 anos a filmar Timor. O que é que encontramos nestes arquivos?
Isto podia começar há mil anos, mas não há muitas imagens de há mil anos. [Risos] Na realidade começa com as imagens da Segunda Guerra, que obviamente não são minhas, mas a nossa intenção é tentar uni-los com outros arquivos. Mas, basicamente, começamos com material que filmei em Timor a partir de 1991, quando lá cheguei, depois em 1993, a seguir fora de Timor, também em Portugal durante a ocupação, a solidariedade e, dentro de Timor, nos momentos-chave dos anos 90 e 2000. No início levei este material porque Timor perdeu quase tudo na destruição de 1999, depois pensei que tinha o dever de tentar oferecer novamente algumas histórias dos que já morreram e dos que sobreviveram, mas depois vi que o lançamento de uma nação não acontece com o içar da bandeira e há tantas questões, tantas áreas, que eu nunca tinha sequer imaginado como jornalista. Então, tem muito interesse, porque a história do lançamento de uma nação não acontece todos os dias. Eu tenho este privilégio de estar presente em vários momentos-chave. Passámos de ambulâncias a toda a hora para ver o que iria acontecer a seguir, a construção da vida normal, desportiva, cultural, política entre 2006 e 2008, mas a história continua, porque é uma história do passado, mas o arquivo também é uma plataforma de diálogo entre diferentes relações. Esta é a magia de um arquivo: mesmo os mortos estão vivos. Podemos ver e ouvir essas pessoas, mesmos as que sacrificaram tanto por causa de Timor podem participar no nascimento da nação. Isso é uma coisa que tem um impacto real. No arquivo também somos uma plataforma de diálogo, de perspetivas. A cada geração, a cada situação, surgem novas questões, novas dúvidas, novos desafios.

É também por isso que decidiu avançar com este protocolo com a Universidade de Coimbra, para tentar que este arquivo venha a acrescentar às gerações do futuro?
O grande problema é a preservação do audiovisual, que depende de uma gestão sustentável, contínua, e não pode ficar igual porque os formatos mudam - a cassete que funciona hoje, amanhã não há maneira de lhe aceder. Agora há câmaras que têm três ou quatro formatos numa só câmara. É complicado preservar e dar acesso, porque não tem sentido só preservar. Uma instituição qualquer, pequena como a nossa, não é credível, não é sustentável, por outro lado, uma sustentabilidade precisa de uma colaboração, não só de gestão, e na Universidade de Coimbra há muita gente com interesse, com capacidade. É uma instituição que já dura há setecentos e tal anos e, por isso, acreditamos que possa ser sustentável [risos] e, para nós, ter esta parceria com uma instituição como esta é um grande privilégio. Nós sentimo-nos realmente muito contentes e privilegiados.

O arquivo-mãe, de qualquer forma, vai continuar no Centro Audiovisual Max Stahl em Timor. É um arquivo que foi considerado pela UNESCO como "registo da memória de um mundo". Daqui a 20/50 anos, o que é que espera que tirem dali, quando virem essas imagens?
Há várias coisas que aconteceram historicamente num período-chave quando nós, principalmente eu, estava lá a filmar. Estávamos mesmo no início do que era uma ideia social. A internet não funcionava realmente, mas houve uns indivíduos que utilizaram uns códigos e conseguiram mandar mensagens, imagens, e provocar reações em diversos contextos. Timor foi o primeiro país na História a beneficiar disto, até a proclamar a sua independência através dos meios audiovisuais. Isto que a UNESCO reconhece é uma questão técnica, pode dizer-se, mas historicamente muito importante. Para nós que somos jornalistas afeta tudo. Já estava um pouco cínico em relação ao jornalismo que tenho encontrado no mundo, vi os orçamentos da televisão, digamos, burocráticos, burocráticos do Estado, burocráticos comerciais; pagaram muito dinheiro para os hotéis, pagando camas, equipamentos... Eu consegui, às vezes, com muita dificuldade, um orçamento que era normalmente metade do deles. Mas com uma pequena cama, sem equipamentos, consegui utilizar esse dinheiro para ficar no lugar, para realmente pesquisar. Isto é um mito do jornalismo, o jornalismo de investigação.

Ter tempo?
Leva muito tempo, e capacidade de ficar no terreno, ouvir, aprender a língua, a maneira de comunicar. Quantos jornalistas conhecemos que fazem isso? É impossível. Agora ficamos à espera que o jornalista vá e, mesmo antes de chegar lá ao hotel, já esteja a mandar uma reportagem. Isto não tem nada que ver com investigação. A única maneira de realmente fazer um filme investigativo é ir até lá na companhia da televisão e, a seguir entregar uma coisa que eles querem realmente usar. Por exemplo, eu nunca tive seguro, nunca. Porquê? Porque eles não queriam pagar. Quando mandavam alguém diziam: "Isso tudo? É muito caro". Nunca mandavam o tempo necessário, portanto pagavam caro para nada. Eles não queriam aceitar certas coisas nem me convidavam para fazer tal e tal coisa, porque tinham medo das consequências na gestão, na contabilidade. Eu tentava sempre trabalhar com coproduções com diferentes companhias - uma não queria tal e tal coisa e eu respondia que estava bem, a outra estava interessada.

Acabou por arranjar uma forma de conseguir ir estando e de conseguir fazer o trabalho que considerava que era aquele que era importante e, daí, resultaram imagens como as do massacre de Santa Cruz.
Sim. No caso de Santa Cruz passei quase um ano à procura de dinheiro para fazer esse filme, no fim tinha de colaborar com outro grupo que também tinha uma ideia, mas eram empregados de uma companhia. Agora, eu sabia que os empregados de qualquer empresa não tinham a capacidade de fazer aquilo, mas tudo bem, assinei um contrato com eles em que eles podiam ter o poder de edição, sabendo que eu iria procurar um buraco para fazer o que precisava de fazer. E foi assim. Depois de um mês, em setembro, eles voltaram, não aguentaram; um mês já era muito tempo para uma televisão. Eu, basicamente disse que estava bem e que ia ficar lá e perguntei se eles queriam que eu continuasse a trabalhar com eles, se sim tudo bem, se não tudo bem na mesma. Decidiram que eu continuasse. Depois saí e voltei novamente, também da mesma maneira. Eles não queriam, mas eu sabia que era necessário para fazer o filme que queria fazer, por isso, no mês de outubro voltei sozinho e, sozinho, as coisas andaram muito melhor.

Felizmente voltou e felizmente captou aquelas imagens. Sente que mudou o curso da História quando pôs estas imagens no mundo?
Muita gente, muitos timorenses me fizeram essa pergunta. Disseram-me: "Para Timor ganhar a sua independência, qualquer coisa tem de acontecer porque, por enquanto, está muito difícil" - isto, meses ou semanas antes do massacre de Santa Cruz. Eu falei com muitas pessoas em todo o mundo e não encontrei nem um jornalista nem um político nem um académico sequer, que acreditasse na possibilidade - não na probabilidade, mesmo na possibilidade - da independência para Timor Leste. Os únicos que acreditavam eram os timorenses. É interessante, ninguém, nem os estudos universitários - eu estava a procurar opiniões - acreditava, diziam que isso não era possível, e aconteceu. Essa história é para mim uma história muito interessante para contar. Como? De que maneira? Como esses timorenses, jovens, conseguiram uma coisa que ninguém achava possível. Eu segui a construção de uma nação, que é uma coisa que não acontece muitas vezes. Ainda há pouco Timor Leste foi classificado pela Freedom House como o único país no sudeste asiático que é livre, muito mais livre do que Singapura, do que a Tailândia, do que as Filipinas, é o único. Quando eu penso como era Timor em 1991 ou em 1993 quando lá cheguei, é impressionante para mim.

E assume a sua responsabilidade nisso também, como aquilo que fez, as imagens que mostrou, o papel que assumiu quando denunciou ao mundo o que se estava a passar também é um bocadinho seu?
Quando vi que as pessoas não estavam a ouvir, não estavam interessadas, também vi que isto era possível para mim, porque a minha maneira de fazer não era igual à dos outros. O que eles faziam, eu não tinha oportunidade para fazer, mas quando os timorenses morreram lá à minha frente, também senti que havia qualquer coisa que eu podia fazer. Tinha de o fazer para valorizar o sacrifício deles, mas também para contar ao mundo como eram aqueles que morreram - eram jovens, crianças. Muitas vezes as pessoas não estão conscientes disso e essa consciência é uma coisa que os meios audiovisuais, ao longo do tempo, têm capacidade para fazer despertar. O audiovisual, obviamente grava informação, mas a mim, o que me interessa, é que também abre o caminho para a troca de experiências. Eu sou uma pessoa que faço filmes porque queria levar as pessoas, o público, a entrar num mundo onde elas podiam, através das imagens, encontrar-se com as outras pessoas num contexto que elas nunca tinham visitado.

E pudessem elas próprias ver como era.
Exatamente, e o arquivo que nós estamos agora a fazer faz isso. Tocamos, convidamos pessoas para fazerem as perguntas e também darem as respostas. Procuramos memória, memória oral, que é uma forma histórica que me interessa muito, mas também memória audiovisual. As pessoas, muitas vezes simples, pobres, sem educação, às vezes não conseguem explicar quando lhes perguntamos o que fez ou porque é que aceita isto ou aquilo, mas levar essas pessoas para um sítio onde elas combateram e pedir-lhes para mostrarem como era, como foi, como funcionava, elas imediatamente conseguem contar uma história. O que é interessante é que são pessoas que, na sua maioria, ficaram mudas, não tinham acesso à História. A História escrita é uma História de opiniões, mas não é a História onde as pessoas falam. Esta é a maior riqueza do audiovisual e que não existia antes dele.

O Max chega a Timor em 1991, regressa em 1999 e em 2000, e em 2002, na altura da independência quis assistir ao nascimento de uma nação. Acabou por ficar, é lá que vive hoje. Que país é este?
É um país, como a gente diz, em desenvolvimento. O que quer dizer isto? Quer dizer muita coisa, mas era um país onde a maioria das pessoas não sabia ler, era pobre, morria cedo de doenças, de falta de comida; agora há um esforço dos timorenses, principalmente, para mudar as coisas. Não é nada fácil. Muitas vezes as pessoas perguntam qual é o maior problema de Timor agora. Eu tenho uma resposta: a gestão. A gestão é uma coisa que precisamos de aprender ao longo de uma vida, com uma educação de 30 anos ou vinte e tal e a seguir com a experiência de mais 30 anos e, mesmo assim, muitas vezes não se consegue. Em Timor, a grande maioria dos gestores não tem preparação e não tem experiência, e não faz um bom trabalho. Mas agora estão a avançar, em algumas coisas é impressionante o que se conseguiu fazer. Como disse antes, na área da liberdade, como resolver os problemas de conflitos, contradições, dentro da sociedade. Em África, os países recém-independentes, no geral não conseguiram resolver, mesmo agora continua a violência e a divisão. Alguns conseguiram: Timor, nos seus 17 anos de independência chegou até esta classificação de um dos mais democráticos países em toda a Ásia. Houve várias eleições em que o poder mudou, não eram só eleições para a vista; tem vários partidos que entram e saem do poder; tem algum sistema judicial - não funciona muito bem mas existe -, [risos]; a polícia está lá - não funciona muito bem, mas está lá -, não tem autoridade para tutelar as pessoas, mesmo se às vezes as coisas acontecem... Quer dizer, é um país um bocado caótico onde, por exemplo, nós procuramos orçamento para fazer o nosso trabalho e é muito caótico, é muito difícil, mesmo quando eu conheço pessoalmente o primeiro-ministro e ele tem interesse no nosso trabalho, mesmo assim... No ano passado consegui apoio ao fim de dez meses, em 2016 nada. Agora temos uma promessa, mas por enquanto ainda nada. Temos o apoio para quatro ou cinco anos, no total. O dinheiro que era para chegar em julho, normalmente chegava em novembro ou dezembro, algumas vezes chegou depois do ano terminado, e legalmente já não se podia usar nada.

É burocrático, é difícil, é um país em construção.
Sim, é um país em construção e essa construção vai durar. [Risos]

Nesta construção que papel é que assumem Portugal e os portugueses? Há cerca de dois anos o Max esteve cá a apresentar um documentário que se chama "A Língua, a Luta, a Nação" e a expor esta importância do português em Timor como uma língua de resistência. Ele levanta algumas questões, quando acabamos de o ver, nós questionamo-nos: O português vai sobreviver como língua em Timor? Como é que os jovens timorenses olham para Portugal e para a própria língua?
Obviamente não há uma resposta, mas a língua não é só uma maneira de comunicar. A língua faz parte da identidade das pessoas. Como jornalista e como pessoa que conta histórias, essa não é uma coisa em que eu tenha realmente pensado bem, mas vi que o caso de Timor mostra que mesmo as pessoas que não falam uma língua podem ter uma identidade ligada a essa língua. Mesmo as pessoas que eram vítimas, ou os seus antepassados eram vítimas, podiam também identificar-se com os autores e não só com as vítimas. Agora, uma nação, qualquer nação, não é uma coisa feita no papel, muitas vezes não tem lógica, muitas vezes há uma série de contradições, muitas vezes ao longo de muitos anos. No caso de Timor, houve um grupo, pode dizer-se, de pré-timorenses que eram portugueses lá perdidos, casaram-se com timorenses e ficaram. Eles faziam negócio, faziam uma ponte entre os portugueses mercadores que iam lá para comprar a madeira, etc., e os timorenses. Já esse grupo valorizava muito o português, era importante para eles falar português, e também tinham de falar as outras línguas, mas as outras línguas, em si, eram várias e não eram suficientes. Os portugueses tinham algum dinheiro e tinham armas, tinham coisas para oferecer e isso ligou essas pessoas a uma identidade portuguesa também, porque também aprenderam a falar português. Eles enviavam as crianças para estudar numa escola religiosa portuguesa. Os padres ligavam muito bem com Timor, em parte porque Timor sempre teve uma consciência, pode dizer-se, espiritual, uma maneira de ver o mundo onde os antepassados não estavam mortos, estavam presentes. Os antepassados vivem lá, no terreno. Deus tem várias formas, às vezes femininas outras masculinas... Mas o português era a língua dos padres, agora, com esta combinação dos padres preparados, educados - vários deles têm um impacto muito grande -, e Portugal que andava a comprar e a vender através das diferentes companhias mercantis ao longo de muitas gerações, as pessoas identificavam-se com a bandeira portuguesa, a bandeira e a língua. Este grupo de pessoas era, pode dizer-se, o pré-Timor, porque ligava-se com todos os reinos, falava várias línguas, mas com uma identidade ligada à bandeira portuguesa, à língua portuguesa. Sem essa identidade, Timor não existiria hoje. A identidade timorense está ligada a Portugal, mas não é portuguesa, quer dizer, eles não aceitavam ordens, mas identificam-se com alguns aspetos culturais e valores. Valores religiosos, mas não só ligados a Deus, valores humanos, o valor da vida, por exemplo, foi muito importante durante a luta. Os timorenses não aceitavam a maneira como os indonésios pensavam em relação à vida - matar as pessoas como se fossem lixo. Isso foi para eles inaceitável. Mesmo a consequência da morte das pessoas, a dignidade era muito importante, eles falavam muito na dignidade que valia mais do que a vida. No fim, os indonésios perderam porque não tiveram isso.

Não perceberam esse valor que, como diz também, se herda muito da cultura portuguesa, mas a língua hoje fala-se pouco, o português fala-se pouco em Timor.
O português é a língua da educação, mas não só, estão agora também a introduzir o tétum que é a outra língua, mas como os portugueses têm livros, têm matérias, ligação com o mundo, têm professores - o Governo português ajudou com professores portugueses - preparados que chegam lá com competência profissional, com experiência.

Isso vai fazer com que o português continue a ser falado em Timor?
Estudado sim, e falado em certas áreas, por exemplo, jurídicas. A lei é um dialeto muito especial [risos], mas esse dialeto vai também existir em Timor, porque a linguagem da lei em tétum é mais outro dialeto tão especial que ninguém entende. Os timorenses querem estudar em português e ler livros, poder ligar para a Universidade de Coimbra ou uma universidade no Brasil ou em outro país. Isso tem um valor e estabelece uma ligação com esta identidade que se pode chamar subterrânea.

Aliás, nós vimos isso, por exemplo, no Europeu, no campeonato de futebol, quando Portugal vence o Europeu chegaram-nos imagens de timorenses a festejar de bandeira portuguesa na mão. Que perceção é essa que eles têm de Portugal, que os jovens timorenses têm hoje de Portugal?
Os jovens são como muitos outros jovens do mundo, são adeptos, têm uma equipa. Nos Estados Unidos, as equipas de basquetebol e de outros jogos mudam de uma cidade para outra e depois conseguem ter adeptos nesse novo lugar. Esta questão de porque é que os adeptos apaixonados pelo Benfica ou pelo Sporting são tão apaixonados e, às vezes, há violência é uma questão muito interessante. Em Timor, a lógica de apoiar e de se identificar com uma equipa portuguesa é, pelo menos, um bocado mais coerente. A identidade histórica deles tem essa ligação a Portugal. Os ingleses não têm, outros povos não têm.

É uma relação desse género. E do lado de cá que perceção é que tem? Portugal ainda continua atento a Timor?
Obviamente depende do caso. Na educação continua, a questão do papel dos portugueses está estabelecida na educação, não vai desaparecer de Timor, mas pode diminuir ou pode ter diferentes maneiras de se aproximar do português através das línguas maternas, para cima de 15, ou através do tétum ou, de forma inata, as pessoas seguem para casa, entram na aula e começam a falar português. Eles não temem nada e precisam de aprender. No arquivo temos muitas imagens dessas questões todas. Houve momentos difíceis, em que não havia nada, nem uma escola com teto, nem um livro, nem uma mesa, e o professor não falava nada de português, mas a língua do ensino era o português. Daí até hoje chegámos a uma situação em que se pode dizer que com as escolas, especialmente as religiosas, temos agora timorenses que conseguem falar, ler e escrever português. Não vou dizer que o nível é muito, muito alto, mas está lá. Depois há outro grupo maior onde é realmente uma confusão. Não conseguem ter um ensino em português nem em qualquer outra língua, é tudo adaptado para tétum, interpreta-se algum livro em português e os estudantes não aprendem muito.

Para além dessa área da educação onde continua claramente a haver um apoio, deveria haver um outro olhar de Portugal sobre Timor?
Continua, mas o apoio de um país distante com umas centenas de professores é um apoio mínimo, mas importante. Os meus filhos, tenho dois, vão à Escola Portuguesa, essa escola pelo menos tem um currículo, o currículo português, tem professores profissionais, alguns bons, outros não tão bons. O nível dessa escola não é alto, comparado com as escolas portuguesas no mundo inteiro, porque mais de metade de cada aula tem crianças que falam mal ou escrevem mal, mas estamos a ver já, na outra metade, uma aproximação aos níveis aqui em Portugal. Isto vai levar tempo.

Como tudo, é um país em construção, uma vez mais...
Sim, mas a questão da educação fascina-me, em parte porque tenho filhos e sou patrono da Escola Portuguesa, apesar de eu não ser português, obviamente.

Voltamos às imagens de arquivo do Max e, em particular, àquelas imagens de Santa Cruz para falar de jornalismo, porque para o Max conseguir mostrar ao mundo o que se tinha passado no cemitério de Santa Cruz teve de esconder as fitas, escondeu-as numa campa, depois entregou-as a outras pessoas para que pudessem sair do país - algumas delas saíram enroladas em roupa interior. Hoje, com os meios que estão à nossa disposição, a internet, a facilidade que nos permitem todos os meios técnicos, teria sido diferente?
Sim. O meu colega, o Tony, o nosso encarregado da informática lá no arquivo, entende de informática, sabe como ligar a internet, eu não sou muito competente nessa área. Não sei se teria conseguido enviar. Mas por outro lado, há um contexto em que qualquer poder existente vai também tentar manipular, controlar a circulação, como já se está a passar na China e noutros lugares. Quer dizer, nós não podemos saber onde é que vamos encontrar um caminho. Para se fazer um filme, uma reportagem a sério, numa situação difícil, não se pode utilizar a mesma maneira, os mesmos caminhos que usamos normalmente. Agora, estamos aqui em Lisboa para fazer reportagem, enviamos a reportagem e pronto, mas isto é um contexto específico. Um jornalista que quer realmente contar histórias sobre os oprimidos no mundo, normalmente vai encontrar obstáculos e para ter a possibilidade de contar essas histórias provavelmente vai ter de sair do caminho normal. Agora o problema é que estamos a ver uma diferença enorme entre a maneira de fazer jornalismo e o que é preciso para realmente contar uma história difícil. Apesar de termos agora câmaras pequeninas e telefones que dão imagens boas, muito melhores do que antes, temos muito pouco trabalho investigativo, muito pouco.

Os meios são melhores, mas perdeu-se aqui alguma coisa no caminho?
Sim, o mais importante é que se perdeu o tempo. Sem tempo não há maneira de procurar informação fidedigna, e é por isso também que o arquivo, para mim, é uma maneira de contar uma história totalmente diferente, porque tem tempo, é ao longo de muito tempo. Ao longo de uma história, ao longo dos anos, mesmo um snapshot, uma fotografia breve, mal feita, pode ser interessante. Este trabalho de um arquivo não é o trabalho de uma pessoa, é o trabalho de várias pessoas, algumas competentes, outras incompetentes, mas a presença delas, o acesso à história em momentos em que os outros não estão, às vezes dão histórias que são equivalentes. Pode-se dizer que há vários caminhos, alguns andam muito devagar, outros não andam, mas a mera existência deles e a sua motivação podiam oferecer maneiras de contar e mesmo histórias totalmente diferentes, originais. Nós procuramos agora recuperar memórias históricas do passado, a luta não só dos mais conhecidos, mas das pessoas simples, e procuramos fazer a mesma coisa não só no tempo da luta, mas mesmo agora. Às vezes a História é difícil, é uma História de violência, de sofrimento, outras vezes de celebração. Temos este ano em Timor um aniversário importante - são 20 anos passados de 1999, quando as forças internacionais entraram e realmente Timor ganhou a sua longa luta. Eu estive lá sozinho, com muitos refugiados a fugirem para as montanhas e quando desci da montanha encontrei os helicópteros australianos, aqueles helicópteros agressivos que fazem muito barulho, que estavam a dar voltas, mas os indonésios ainda estavam nos camiões, armados até aos dentes, e vi ali três meninas timorenses sentadas a cantarem canções timorenses. Fui lá filmar e filmei também os helicópteros e os camiões cheios de soldados, as milícias, etc. Esse pequeno momento do arquivo, passámo-lo agora, há questão de dias. Encontrámos essas três pessoas, agora com famílias e filmámos novamente no mesmo lugar, agora neste novo contexto. Elas contaram a história e uma delas disse que por uma questão de uns instantes conseguiu escapar dos soldados que a queriam violar, quando chegou ali e viu os indonésios e os australianos já não tinha medo de nada, só disse: "Nós estamos aqui". Um momento como aqueles nunca apareceu na televisão, só agora porque temos o arquivo. Esta é uma pequena história da vida de três pessoas ao longo de 20 anos. Para mim isto é fantástico.

São as histórias que importam contar.
É novamente o velho problema do jornalismo. A gente vai a um lugar, vai falar com alguém, tem uns minutos ou umas horas para fazer aquilo e o que conseguir é a reportagem. Mas com um arquivo, podemos abrir as páginas, voltar ao passado e mostrar o que lá está, o que continua a estar e isso motiva as pessoas, a sua maneira de ver, a sua maneira de atuar. Esta é uma realidade que nós conseguimos mostrar aquém viveu os acontecimentos.

Hoje é tudo muito mais rápido, mas também houve uma mudança em termos do poder da imagem. Hoje em dia, nós recebemos imagens da Síria, do mundo inteiro a todas as horas e, se calhar, banalizou-se aqui alguma coisa, as imagens estão a perder poder porque há demasiadas, porque nos bombardeiam, porque as coisas são diferentes do que eram em 1991?
Para mim, é como dizer que banalizamos as palavras, porque utilizamos as palavras para vender sabão e também para adorar a Deus. O arquivo de imagem, como qualquer palavra, tem um contexto, tem uma história. Sozinha fica banalizada, porque não tem sentido, não tem contexto, não tem realidade. Para mim, isso é um crime contra a própria imagem e contra a humanidade, porque a humanidade não vive em pedaços assim. Mesmo se estamos todos confusos, temos alguma realidade, e para entender e para comunicar precisamos de pôr uma imagem num contexto, senão é fazer lixo de um aspeto fundamental da nossa humanidade - a relação com o mundo. É por isso que a questão de procurar dar sentido tem uma importância profunda, e o arquivo é uma maneira de valorizar e pôr no contexto. É outra maneira de dizer a esta pessoa, o camponês que fala e ninguém entende o que fala, mas é uma pessoa interessante, de valor, que nós queremos ouvir, entender e pôr no contexto aquele momento. Pode ficar à espera 20 anos até ter uma ligação e toda a gente o ouvir.

É essa a missão do Max hoje?
Não só minha, também de todos os colegas aqui.

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