Protestos contra Bolsonaro em mais de 50 cidades do Brasil

Mulheres, e homens, grupos a favor da agenda LGBT, membros de movimentos sociais e eleitores declarados do PT manifestam-se contra o líder nas sondagens. Mas houve atos em sentido contrário

"Se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista", cantou-se na cidade de Ribeirão Preto, 350 quilómetros a norte de São Paulo, uma das mais de 50 no Brasil, onde se registaram atos no contexto dos movimentos "Mulheres Contra Bolsonaro" e #elenao, contrários ao candidato de extrema-direita do PSL. Outra hashtag associada aos protestos, #ÉPelaVidaDasMulheres foi o assunto mais comentado em todo o mundo da rede social twitter ao longo do dia.

Na manifestação de Ribeirão Preto, em que o DN esteve presente, juntaram-se grupos diversos em frente ao Teatro Pedro II, na Praça 15 de Novembro, a principal da cidade. Por motivos de segurança - as organizadoras receberam ameaças de morte nos dias anteriores - em vez de passeio o protesto restringiu-se a um encontro apenas naquele local. "Não saiam do pé do grosso dos manifestantes, nunca andem em grupos de menos de três, usem o telefone celular para filmar qualquer incidente ou agressão, ele é que é a nossa arma", ouviu-se de um altofalante.

Embora de cariz apartidário e suprapartidário, segundo a organização, participaram desde manifestantes com autocolantes do PT, partido de Lula da Silva, hoje detido por corrupção e impedido de ser candidato, e de Fernando Haddad, o candidato que persegue o líder Bolsonaro nas sondagens, a militantes do PSOL, força de extrema-esquerda, representada por Guilherme Boulos na corrida ao Palácio do Planalto. Por isso, o nome de Marielle Franco, a vereadora do partido executada no Rio de Janeiro em Março, foi dos mais cantados ao longo das três horas de protesto.

Além de Marielle houve vivas a Áurea Moretti, prisioneira política nos tempos da ditadura militar natural da cidade que foi companheira de cela da ex-presidente Dilma Rousseff. "O mais difícil era sermos torturadas em cima do sangue onde companheiros nossos haviam sido mortos", contou a ativista em entrevista ao DN de 2015.

Também esteve em foco, pela negativa, outro político, João Doria, candidato a governador de São Paulo pelo PSDB, de centro-direita: surgiu na manifestação um "dorioquio", boneco famoso noutros protestos de rua, que combina a imagem de Doria e do personagem Pinóquio.

Movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Terra, fizeram-se representar oficialmente por alguns dos seus membros. Grupos a favor da agenda LGBT também compareceram em bom número. "Contra o conservadorismo, orgasmos", dizia um dos cartazes em tons de arco-íris. Artistas aproveitaram para efetuar performances durante o evento.

"Você vai ver, Bolsonaro, quem é "fraquejada"", gritaram feministas, numa alusão a uma frase do capitão na reserva de que depois de ser pai de quatro filhos, deu "uma fraquejada" e teve "finalmente uma filha mulher". "Contra o porte de arma, a favor do porte de livro", diziam outros.

Manifestação a favor

Na mesma cidade, está marcado para domingo, às 9 horas, uma manifestação a favor de Bolsonaro, com saída prevista do estádio do cube local Botafogo de Ribeirão Preto. Já ontem se registaram atos a favor do candidato em duas dezenas de localidades do Brasil, com os participantes a optarem por camisas verde e amarelas, as cores da bandeira e da seleção.

Os protestos #elenao, porém, foram mais numerosos e disseminados pelo país, movimentando centenas de milhares de mulheres (e homens). Até às 19 horas, em Portugal, já havia registo de mais de 50 cidades em protesto, em 12 das 27 unidades federativas do país.

As maiores manifestações, com milhares de participantes, decorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro, as duas cidades mais populosas do país. Em São Paulo, no Largo da Batata, e no Rio, na Cinelândia. Em Copacabana, por sua vez, houve um evento a favor de Bolsonaro. Não houve registos, até ao momento, de incidentes, dados os enormes dispositivos de segurança.

Os atos começaram a ser marcados na internet, através dos movimentos #elenao e Mulheres Contra Bolsonaro, que reuniram mais de um milhão de mulheres, antes de ser hackeados. Houve agressão à organizadora do evento no Rio de Janeiro, que é assessora de um candidato a deputado do PSOL, e de ameaças em cidades como Ribeirão Preto, em São Paulo, e Fortaleza, no Ceará.

Jair Bolsonaro tem um histórico de confrontos com mulheres ao longo da carreira de 27 anos como deputado. Disse um dia que para um empresário era preferível remunerar mais um homem do que uma mulher porque elas engravidam, disse a uma colega parlamentar que só não a estuprava porque ela era feia e foi acusado de comportamento agressivo por uma ex-mulher, em 2008. Essa ex-mulher, porém, afirmou que as declarações foram ditas no contexto do processo de divórcio e que não correspondem à verdade.

Em Ribeirão Preto, Brasil

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