Porque é que Trump está a separar famílias?

Não há uma lei, mas uma forma diferente de ver uma lei que já existia. É isso que justifica a separação de mais de duas mil crianças das suas famílias que entraram ilegalmente nos EUA.

Como e porque é que os EUA estão a separar crianças das suas famílias imigrantes?
Não há nenhuma regra oficial a dizer que as crianças têm de ser separadas. O que acontece é que desde abril, o procurador Jeff Sessions iniciou uma política de tolerância zero para com qualquer crime - avisando que todos seriam julgados. Ora esta política aplicada aos ilegais que são apanhados a cruzar a fronteira implica que sejam julgados como criminosos, e, nesse sentido, presos num estabelecimento federal onde não são admitidas crianças. É então que acontece a separação.
As crianças passam a ser tuteladas pelo Gabinete de Realocação de Refugiados.
A administração Trump tem alegado que só separa famílias em que as crianças estão em risco mas a Associated Press tem dados de que mais de 2000 já foram tirados aos pais e familiares.

O que é que acontece às crianças?
As crianças separadas dos pais transformam-se naquilo a que os serviços de estrangeiros chamam "unaccompanied alien children" - criança estrangeira não acompanhadas. E são entregues pelos serviços de refugiados a uma família de acolhimento - ou a centros de acolhimento, até que os serviços encontrem os seus familiares.
Alguns oficiais têm referido encontrar crianças em jaulas, a dormir no chão, ou a serem tratadas por outras crianças mais velhas.

Quanto tempo podem ficar separados?
Não há um limite. Na verdade a única questão é quanto tempo levam os seus familiares a serem julgados. No Texas tem havido julgamentos conjuntos, de mais de mil pessoas.
Na verdade, grupos de defesa dos imigrantes ilegais dizem que tem sido difícil reunir famílias e crianças - e já há até números verdes para onde os pais, libertados, podem ligar. Se um pai ou mãe for deportado, não há nenhuma garantia de que volte a ser reunido com o seu filho.

Isto já aconteceu?
Não. Em 2014 houve uma crise semelhante, com muitas famílias da América do Sul a chegarem aos EUA pedindo asilo - o que impediu o governo de as deportar. Regras internacionais também impediam de manter crianças refugiadas em centros de detenção. Quando Obama tentou colocar as famílias em centros destes foi parado pela administração federal.
A grande diferença é que a administração Trump não considera os imigrantes refugiados, mas criminosos. E o Departamento de Justiça passou a criminalizar os imigrantes apanhados à primeira a cruzar ilegalmente a fronteira, ao contrário do que dantes acontecia. O que permite o julgamento, a separação e todas as questões que se têm levantado. As organizações humanitárias alegam que a administração não devia fazê-lo - porque sabe que as crianças vão ficar separadas dos pais, deviam colocá-los noutros locais onde pudessem ficar juntos.
A administração Trump, e o próprio, defendem-se dizendo que a lei é que está mal feita. Mas a verdade é que a sua aplicação é que foi alterada.

O que é que a administração Trump pretende com isto?
É muito claro que o efeito pretendido é o dissuasor. Sessions, o procurador geral, já disse que estas detenções são essenciais para impedir que os imigrantes ilegais entrem nos EUA. John Kelly disse que "o nome do jogo é desencorajamento".

Quanto tempo isto irá durar?
Não se sabe. Trump tem alegado que há um crescente número de migrantes, mas na verdade os números são idênticos ao ano de 2016 - depois de uma quebra no ano passado.
Não há, portanto, nenhuma pista de que os procedimentos sejam alterados. Até porque um antigo Walmart no Texas foi recentemente transformado num centro de detenção para crianças. E já há planos para construir cidades de tendas - onde as temperaturas nesta altura rondam os 40 graus.

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