Política ambiental de Trump causou menos estragos do que Al Gore temia

Antigo vice-presidente dos EUA destaca intervenção dos tribunais e do Congresso no bloqueio de várias propostas da Administração Trump

As políticas ambientais de Donald Trump têm causado menos estragos do que inicialmente se temia, afirmou segunda-feira o Nobel da Paz e antigo vice-presidente norte-americano Al Gore.

"[O presidente Trump] teve menos impacto do que temia", disse Al Gore em entrevista à agência Associated Press, à margem de uma conferência na Carolina do Norte sobre questões ambientais.

Argumentando que os atuais governantes republicanos "cometeram alguns erros" nalgumas das medidas adotadas, Gore observou que "os tribunais bloquearam algumas" delas - algo que o próprio Congresso, igualmente dominado pelos republicanos, também fez nalgumas ocasiões.

"O sistema norte-americano é muito resiliente", pelo que "é difícil para uma pessoa, até mesmo o presidente, mudar as coisas muito rapidamente se a maioria dos americanos não quiser", sublinhou aquele que é há anos um dos líderes mundiais na defesa do meio ambiente.

A decisão de retirar os EUA do Acordo de Paris sobre o clima ou a reversão dos limites mais restritivos de poluição automóvel, aprovados pela administração Obama, são dois exemplos das decisões políticas de Trump que contrariam o consenso internacional generalizado em matéria ambiental.

Al Gore, que fundou recentemente o Projeto Realidade Climática, recebeu o Nobel da Paz em 2007 devido ao seu papel em defesa do meio ambiente, além de ter escrito livros e produzido documentários críticos da atual evolução climática do planeta e da responsabilidade dos governos em a inverter.

A propósito do Acordo de Paris, o antigo vice-presidente dos EUA admitiu - após breve interrupção para juntar as mãos em oração - que, "se houver um novo presidente" dos EUA em 2020, Washington "poderia simplesmente" anunciar o regresso aos compromissos ali estabelecidos num prazo de 30 dias.

A conferência em que Al Gore participou destinou-se a destacar a maior vulnerabilidade das comunidades pobres aos efeitos negativos das alterações climáticas - como é exemplo o estado da Carolina do Norte, onde há muitas instalações que utilizam carvão como combustível.

As pessoas mais pobres são particularmente afetadas por não terem "poder económico e político necessário para defender" aquela causa, disse Gore.

Normas menos rígidas sobre depósitos de cinzas de carvão (com metais tóxicos como chumbo, mercúrio e arsénio) é outro dos exemplos da política ambiental de Trump, que elegeu a defesa dos combustíveis fósseis e dos trabalhadores das minas de carvão como uma das suas prioridades políticas.

"E há centenas de outros procedimentos e regulamentações ambientais" que a administração Trump "começou a desfazer", observou ainda Al Gore. "Ele está provocar alguns estragos mas, em geral, menores do que eu temia", concluiu.

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