PM da Irlanda sugere referendo sobre reunificação da ilha

À boleia do referendo no Reino Unido, Enda Kenny ressuscita ideia contida no Acordo de Sexta-Feira Santa de 1998.

"As discussões e as negociações que tiverem lugar doravante devem ter em conta a possibilidade, por mais remota que seja, de ser ativada a cláusula do Acordo de Sexta-Feira Santa. Se for evidente que a maioria das pessoas prefere sair do Reino Unido e unir-se à República [da Irlanda] isso deve ser contemplado nas discussões que vierem a ter lugar". O autor destas frases podia muito bem ser Gerry Adams, líder do Sinn Féin, defensor de longa data da reunificação da ilha da Irlanda. Mas desta vez o suspeito não é o do costume. Quem disse aquelas palavras, na passada segunda-feira, foi mesmo o primeiro-ministro da República da Irlanda, Enda Kenny, líder do conservador Fine Gael.

A sugestão de um referendo sobre a reunificação da ilha surge na sequência do resultado da consulta popular realizada a 23 de junho no Reino Unido, na qual 52% dos eleitores votaram a favor da saída do país da União Europeia, 48% votaram pela permanência. Na Irlanda do Norte (parte norte da ilha, que pertence ao Reino Unido), 55,8% votou pelo ficar na UE, 44,2% manifestou-se favorável ao sair. Daí que a questão surja agora. "Se essa possibilidade ocorresse, teríamos a Irlanda do Norte a querer deixar de ser parte do Reino Unido (não membro da União Europeia) para ser parte da República da Irlanda (Estado membro da União Europeia), declarou Enda Kenny aos jornalistas, à margem das jornadas de verão da Universidade MacGill de Glentiees, no condado de Donegal.

Instado pela imprensa a desenvolver a ideia do referendo, o chefe do governo da Irlanda foi mesmo ao ponto de dar o exemplo alemão, após a queda do Muro de Berlim. "Da mesma maneira que foi possível à ex-Alemanha de Leste integrar a Alemanha Ocidental, sem ter de percorrer um longo e tortuoso caminho para se juntar à UE, estas negociações devem ter em conta todas estas coisas", disse Kenny, numa altura em que a nova primeira-ministra britânica, Theresa May, procura a melhor forma de responder à vitória do brexit.

A ideia de um referendo sobre a reunificação da ilha da Irlanda foi também defendida naquela universidade por Michéal Martin, líder do centrista Fianna Fáil, maior partido da oposição irlandês. "Se se tornar claro que uma maioria quer o fim da partição da ilha (...) é triste a realidade de que o nosso governo e os media tentam a ignorar a Irlanda do Norte, salvo se for em alturas de crise". Recorde-se que foi um primeiro-ministro saído do Fianna Fáil, Bertie Ahern, que em 1998 negociou o Acordo de Sexta-Feira Santa. Do lado britânico, o chefe do governo era, na altura, o trabalhista Tony Blair. Pelo meio ficou um conflito sectário que durou três décadas e fez 3500 mortos.

O acordo, de facto, "reconhece a legitimidade de uma escolha livre permitida pela maioria do povo da Irlanda do Norte em relação ao seu estatuto: se prefere continuar a apoiar a união com a Grã-Bretanha ou se escolhem uma Irlanda unida e soberana". O Sinn Fein, que foi, durante anos, o braço político dos paramilitares do Exército Republicano Irlandês (IRA), ressuscitou a ideia assim que foi conhecida vitória do brexit na consulta popular de 23 de junho. Com um governo frágil (Kenny depende da boa vontade do Fianna Fáil para aprovar medidas no Parlamento), numa altura em que o Sinn Féin é o terceiro partido da Irlanda (está representado nos Parlamentos da Irlanda e da Irlanda do Norte), o primeiro-ministro irlandês sabe que não pode ignorar a questão da reunificação da ilha. O brexit é o pretexto ideal para a trazer à atualidade.

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