"Os alemães não querem que 60% da população seja muçulmana"

Membro do partido que começou por ser só eurocético e agora se virou contra os imigrantes e o islão, Frank-Christian Hansel explica que o Alternativa para a Alemanha (AfD) não é populista, apenas ouve as pessoas, ao contrário de partidos como o de Merkel

O seu partido arrancou com 4,7% dos votos nas legislativas de 2013 e nas últimas regionais, em março, conseguiu entre 12% e 14 % em três estados federados. Imaginava estes resultados há três anos, quando surgiu o Alternativa para a Alemanha [AfD]?

Sim. Tinha a certeza de que íamos ser bem-sucedidos, mas talvez não tão depressa. No ano passado sofremos uma divisão no partido mas felizmente recuperámos e conseguimos resultados de dois dígitos. Isto aconteceu porque o eleitorado confia cada vez menos nas grandes coligações. Continuamos com a crise do euro, as políticas de recuperação falharam ainda que, à superfície, tudo pareça bem. E também vivemos com a crise dos migrantes, que tem afetado principalmente a Alemanha, já que a senhora [Angela] Merkel convidou praticamente todos os refugiados a virem para aqui.

Já mencionou a divisão que o partido sofreu no ano passado, com a saída de um dos líderes. No passado fim de semana decorreu o congresso nacional do partido, em Estugarda. Ficaram sanadas as diferenças internas? Foi decidido um novo rumo para o AfD?

Não ficou decidido um novo rumo mas sim um programa que reforça algumas das medidas que defendemos desde o início, por exemplo, a saída do euro. Acreditamos que o euro está a dividir a UE porque os países do Sul continuam com enormes dificuldades. Outro dos pontos do nosso programa é a crise dos refugiados. Reconhecemos que precisamos dos que vêm de fora, mas de uma imigração baseada no talento, de pessoas com vontade e capacidade de pertencerem à sociedade.

"O islão não faz parte da Alemanha" foi o slogan do vosso congresso...

É verdade. Sabemos que a maioria dos muçulmanos que vive na Alemanha é pacífica, assumimos que são cidadãos perfeitamente normais, isso não é um problema. Mas o islão tem uma ideologia própria e isso sim é uma preocupação. Basta olharmos para a Turquia, onde o islamismo foi banido por Mustafa Kemal Atatürk (em 1924), e agora restituído por Recep Erdogan (nos últimos 10 a 15 anos). E percebemos o que acontece quando o islamismo é reconhecido como um movimento político, é isso que não queremos. Mas se for seguido apenas de uma forma espiritual, não constitui nenhum problema para nós.

Mas o AfD quer, por exemplo, que seja proibido o uso da burqa em público e a interdição dos minaretes (torres das mesquitas de onde é feito o chamamento para as orações). Isso não constitui um ataque à liberdade religiosa?

Não. Em França, por exemplo, já é proibido o uso da burqa. Os minaretes são um símbolo ao qual os alemães se opõem. E nós ouvimos as pessoas. Os alemães não querem que nos próximos 30 anos 60% da população seja muçulmana.

O Zentralrat der Muslime in Deutschland [o Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha] comparou a atitude do AfD com a de Hitler em relação aos judeus.

É completamente ridículo, uma estupidez. Não há nada mais a dizer sobre isso.

Continuam a ser um partido eurocético. Defendem que Portugal, e os restantes países do Sul da Europa, abandonem a moeda única.

Acho que Portugal e Espanha já fizeram alguns progressos mas o modelo económico continua a não encaixar com o euro. Não é vantajoso para estes países, nem mesmo para França. Portugal poderia partilhar a mesma moeda com Itália, Grécia, Espanha e França.

E a Alemanha?

A Alemanha devia sair da zona euro, juntamente com a Áustria e a Finlândia. Talvez a Suécia também se juntasse para, em conjunto, formarmos uma nova moeda. A Polónia não faz parte do euro, o Reino Unido também não. É possível existirem economias competitivas, de países que estão na União Europeia, e que não fazem parte da zona euro.

A renegociação do Tratado Europeu é condição para a Alemanha continuar na UE, caso o AfD chegue ao poder?

A questão foi levantada pela Juventude do partido. Precisamos primeiro de votar internamente. Para já mantemos a posição: Bruxelas não está a conduzir a Europa no caminho do progresso. É preciso renegociar o Tratado Europeu e dotar as nações de mais poder para legislar. Mas defendemos mercados livres e a livre circulação dos cidadãos. Lembro-me, quando era criança, de cruzar a fronteira, de viajar para Itália, por exemplo, e contar as liras. A moeda não tem necessariamente de dividir as pessoas.

Mas nem sempre as vozes do partido coincidem nestes e noutros assuntos. O Alternativa para a Alemanha é, muitas vezes, acusado de fraturas, de divisões internas.

Há quem queira abandonar o euro e a União Europeia. Há diferentes opiniões dentro do partido, nem todos temos de concordar com tudo. Pessoalmente, não gostaria que o partido se afirmasse mais de direita. Mas também depende do que considerarmos "ala direita". Devido à nossa história, a Alemanha nem sempre vê com bons olhos os partidos de direita mais vincada. Acho que neste momento somos um partido realista. Somos muitas vezes acusados de populismo, o que até é divertido. Se populismo significa que ouvimos as pessoas, então não vejo mal nenhum nisso. Eu acho que os restantes partidos alemães vivem num universo paralelo, longe dos problemas reais das pessoas.

No próximo ano há eleições legislativas na Alemanha. As sondagens apontam para um terceiro lugar para o AfD. Quais são as vossas expectativas?

Acredito que o resultado vai ser muito bom, talvez 15%. Mas num ano muita coisa pode mudar.

Em Berlim

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