OMS anuncia fim da epidemia de Ébola na África Ocidental

Anúncio foi feito esta quinta-feira, depois de a Libéria, último dos países com maior número de infetados, ter sido declarado livre do vírus

A Organização Mundial de Saúde declarou hoje o fim o surto de Ébola que assolou a África Ocidental ao longo dos últimos dois anos, mas afirma que "o trabalho ainda não acabou". Segundo o órgão das Nações Unidas, é possível que ainda apareçam casos esporádicos de infetados e uma "forte vigilância e resposta eficaz do sistema será essencial nos próximos meses".

O anúncio foi feito esta quinta-feira, depois de a Libéria, o último dos países com maior número de infetados, ter sido declarado livre do vírus. Conforme o comunicado da OMS, é "a primeira vez desde o início da epidemia há dois anos que os três principais países atingidos relatam ter zero casos de ébola há 42 dias". Os 42 dias correspondem a dois ciclos de 21 dias, o tempo máximo de incubação do vírus e após o qual o doente começa a apresentar sintomas e o vírus se torna contagioso. Hoje, os exames ao último doente confirmado com Ébola deram negativos pela segunda vez.

A OMS pede, no entanto, precaução pois não é a primeira vez que este anúncio é feito. Em maio de 2015, a Libéria foi declarada livre de Ébola mas, até novembro do mesmo ano, o vírus regressou duas vezes.

Tendo começado em dezembro de 2013 na Guiné-Conacri, a epidemia propagou-se depois aos vizinhos Libéria e Serra Leoa, os três países que concentraram 99% dos casos, bem como à Nigéria e ao Mali.

A Serra Leoa foi declarada livre de ébola no dia 7 de novembro e a Guiné-Conacri no dia 29 de dezembro de 2015.

O balanço desta epidemia, que a OMS admite estar ainda subavaliado, é de que vírus infetou mais de 28 500 pessoas no mundo e matou mais de 11 300. Números que são superiores aos de todas as epidemias de Ébola acumuladas desde a identificação do vírus na África Central, em 1976.

A data que hoje se assinala é um marco, porque foi possível travar a cadeia de transmissão de um vírus altamente contagioso, mas o risco mantém-se: como explica a OMS em comunicado, apesar de o vírus desaparecer rapidamente do sistema dos sobreviventes, pode alojar-se no sémen dos homens infetados até um ano e, em raras situações, garante a OMS, ser transmitido.

"Estamos num período crítico da epidemia", afirmou Bruce Aylward, Representante Especial de Resposta ao Ébola da OMS, pois "passamos de gerir casos e pacientes para gerir o risco de possíveis novas infeções".

Rick Brennan, diretor de Emergências e Resposta Humanitária da OMS, afirmou que hoje é "um bom dia, um dia importante".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.