O que aconteceu à CDU de Angela Merkel?

A chanceler alemã terá já decidido que Annegret Kramp-Karrenbauer - AKK - não serve para ser sua sucessora na chancelaria alemã apesar de ser sua sucessora na liderança da CDU.

Seis meses depois de ter sucedido a Angela Merkel como líder da União Democrata Cristã (CDU), Annegret Kramp-Karrenbauer - conhecida por AKK - deu vários tiros nos pés e pode ter arruinado as suas hipóteses de chegar a chanceler - pelo menos se isso depender da vontade da atual líder do governo alemão.

A 29 de abril, AKK, de 56 anos, convocou uma reunião da liderança da CDU para 2 e 3 de junho, numa jogada que apanhou a chanceler de surpresa e que, segundo fontes citadas pela Bloomberg, foi pensada para pressionar Merkel a abandonar a liderança do governo e cedê-la àquela que já foi chegou a ser apelidada de mini-Merkel.

A última vez que houve uma reunião deste género dentro do partido foi no outono do ano passado, quando Merkel anunciou que deixava a liderança da CDU após 18 anos no cargo na sequência dos maus resultados eleitorais obtidos pelos democratas-cristãos - e pelos seus aliados da CSU - nas eleições regionais dos estados federados do Hesse e da Baviera. O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, os Verdes e até o Die Linke estão a apresentar melhores prestações em termos de resultados eleitorais do que a CDU/CSU e os seus parceiros do SPD na Grande Coligação.

Se AKK planeava agora usar esta reunião para afastar a chanceler que já vai no quarto mandato, o facto de a CDU ter conseguido o seu pior resultado de sempre nas europeias poderá obrigá-la a recuar. A CDU ganhou, é certo, mas se em 2014 elegeu 34 deputados, desta vez só elegeu 29, tendo perdido o seu domínio como maior partido nacional no Parlamento Europeu (o Partido do Brexit de Nigel Farage elegeu também 29 deputados e a Liga de Matteo Salvini 28).

A juntar aos maus resultados, a polémica com os youtubers, com AKK a qualificar como "manipulação eleitoral" o apelo lançado pelos mesmos, nas vésperas das eleições europeias, em nome da proteção do ambiente.

70 youtubers divulgaram um vídeo apelando ao voto contra a CDU/CSU e o SPD, acusando a coligação de governo de conduzir políticas que promovem o aquecimento global.

O vídeo em causa surgiu cerca de uma semana depois de um influente youtuber alemão, Rezo, ter divulgado um vídeo de 55 minutos criticando a política da CDU, designadamente em matéria ambiental, tendo este sido visto milhões de vezes. O título desse vídeo, já com quase 13,8 milhões de visualizações, é precisamente "A Destruição da CDU".

"Com reagiria o país se 70 jornais apelassem juntos, a dois dias de uma eleição, ao voto contra a CDU e o SPD? Seria manipulação eleitoral", disse Karrenbauer, designada na imprensa como AKK, na segunda-feira, após uma reunião do partido.

A dirigente defendeu na altura a criação de regras para aplicar "ao mundo digital". As declarações suscitaram polémica, nomeadamente no Twitter, onde nas últimas horas lideram palavras-chave como "censura" e "AKKdemissão". Agora, depois da reação de AKK, os youtubers, entre os quais Rezo, lançaram uma petição contra os ataques à liberdade de imprensa.

A polémica deu origem até a capas de jornais, com o Die Welt a publicar uma montagem de AKK com franja azul, acompanhada da frase: "A CDU contra-ataca". Rezo, o youtuber em causa, usa uma franja azul.

Karrenbauer foi igualmente criticada por adversários políticos, como o líder do Partido Liberal (FDP), Christian Lindner, que afirmou que "custa a acreditar" nas declarações de Karrenbauer e defendeu a "necessidade de mais debates abertos".

Antes da polémica, numa sondagem divulgada pela ARD, de 2 de maio, já AKK surgia com uma taxa de aprovação de apenas 36%. É o valor mais baixo desde que chegou à liderança da CDU. E tem menos 20 pontos do que Merkel.

Face a tudo isto, segundo disse uma fonte à Bloomberg, "a liderança do partido [CDU] volta a estar completamente em aberto e o que vai acontecer depois de 2021 [data das próximas eleições] é uma incógnita total". Questionada sobre esta notícia e sobre eventuais desavenças entre si e AKK, à margem do Conselho Europeu de terça-feira, em Bruxelas, Merkel respondeu que isso são rumores "sem qualquer sentido" sobre as quais "não há mais nada a comentar".

Porém, numa entrevista à CNN, transmitida na véspera da cimeira, à noite, Merkel, de 64 anos, afirmou: "Eu disse às pessoas que iria sair no final deste mandato. Mas prometi que iria ficar até ao fim desta legislatura. Não estaria a dar esta entrevista se não tivesse nada para dizer de substancial sobre política. Gosto de conhecer novas pessoas e isso para mim é uma fonte de força para desempenhar este cargo".

Na mesma entrevista, conduzida pela jornalista Christiane Amanpour, a chanceler admitiu que é preciso fazer mais no que toca à questão do clima. Piscando o olho ao eleitorado dos Verdes. "É um desafio para nós encontrar respostas melhores e soluções para estas questões. Acima de tudo, temos que levar a bom porto aquilo que definimos como os objetivos para nós próprios", declarou a política que, no tempo de Helmut Kohl, foi ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear (entre 1994 e 1998). Apesar disso também foi a chanceler do chamado escândalo do Dieselgate. E, por isso, nas últimas legislativas alemãs, em 2017, os Verdes recusaram qualquer tentativa de aproximação para integrar o governo.

Também Andrea Nahles, sucessora de Martin Schulz na liderança do SPD, piscou o olhos aos votantes dos Verdes. "Parece que a proteção do clima foi decisiva para muitos eleitores. É preciso tornar a proteção do clima numa questão social", declarou no domingo, confessando-se "extremamente desiludida" com os resultados eleitorais, não só os das europeias, mas também os das eleições regionais no estado federado de Bremen. Aí o SPD perdeu pela primeira vez em 73 anos. Ficou em segundo lugar, atrás da CDU, logo seguido, na terceira posição, precisamente pelos Verdes.

No passado, a Alemanha já teve um governo de coligação SPD-Verdes, durante a qual Joschka Fischer foi vice-chanceler e ministro dos Negócios Estrangeiros de Gerhard Schroeder no período entre 1998 e 2005. Porém, os Verdes evoluíram e têm hoje em dia muito mais de pragmáticos do que de ideológicos.

Citada pela ZDF, AKK diz que quer, na reunião de 2 e 3 de junho da CDU, discutir o trabalho que tem sido feito pelos ministérios que o partido tem e quais devem ser as novas prioridades dos mesmos. "Os ministérios relevantes para o futuro estão nas mãos da CDU no governo federal e, por isso, temos que colocar as prioridades certas para o resto do ano igualmente em cima da mesa". A 13 e 14 de junho deverá haver nova reunião, desta vez das lideranças da CDU/CSU e SPD, parceiros naquela que é a terceira Grande Coligação liderada por Merkel na Alemanha.

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