O bancário de sucesso cuja família fugiu ao vulcão dos Capelinhos

Raymond Simas é responsável pela agência do HomeStreet Bank em Point Loma, San Diego, um banco regional vocacionado para servir a comunidade. Natural do Pico, nos Açores, foi para os Estados Unidos com 5 anos, mas teve sempre preocupação de manter a ligação a Portugal. Do folclore à Festa do Espírito Santo. De férias, visita o país de origem sempre que pode e costuma ter à mão o cartão do cidadão

Um acontecimento-limite, daqueles capazes de virar a vida do avesso, levou a família de Raymond Simas aos EUA. Foi a erupção do vulcão dos Capelinhos, na ilha açoriana do Faial, que durou entre setembro de 1957 e outubro de 1958. "A irmã do meu pai emigrou no tempo do vulcão e isso deu ao meu pai a oportunidade de emigrar também em busca de uma vida melhor e com melhores oportunidades nos EUA. Ela veio primeiro e o meu pai foi visitá-la. Gostou tanto que depois viemos então todos para aqui", conta ao DN, em San Diego, Califórnia do Sul, o açoriano que aos 5 anos foi do Pico para os EUA. Hoje tem 55 anos e é o responsável pela agência do HomeStreet Bank em Point Loma, San Diego, um banco comunitário que dá financiamento tanto a privados como a empresas.

Raymond chegou aos EUA em 1967, dez anos após a erupção do vulcão. A lei Azorean Refugee Act, impulsionada na altura pelo então senador do Massachusetts John F. Kennedy (o 35.º presidente dos EUA assassinado em 1963), permitiu que milhares de açorianos, e não apenas as vítimas do vulcão, aproveitassem a oportunidade, melhorando a sua qualidade de vida em território americano. Com os vistos concedidos emigraram um total de 2500 famílias para os EUA, o que somou cerca de 12 mil pessoas. Devido ao mecanismo de reunificação familiar, nas décadas seguintes mais de 175 mil açorianos partiram para os EUA.

"Foi muito difícil para mim, na escola, por causa do inglês, porque eu não sabia o que era. Os americanos viam os portugueses como pessoas que estavam um pouco atrasadas. Quando víamos futebol, às vezes, perguntavam porque não íamos para Portugal porque os americanos cá o que viam era futebol americano e basebol", explica, lembrando que, em casa, os pais (ambos já falecidos) só falavam português com ele e os irmãos. "Para os meus pais era importante termos orgulho no sítio de onde viemos, respeito, regras e ligações às nossas bases. Íamos a Portugal de três em três anos passar férias. Tinha lá os avós. Mas muita gente daqui nunca mais lá voltou", nota, constatando que os pais sempre se envolveram muito na vida da comunidade portuguesa. "É importante para nós crescer na comunidade, integrar-nos na comunidade, porque no início éramos olhados de alto."

O pai de Raymond esteve, como a maioria dos emigrantes portugueses, envolvido na vida da pesca do atum. Trabalhou nela durante quatro anos. "O sucesso dos portugueses na pesca do atum em San Diego revelou uma das três indústrias mais fortes da cidade nos anos 1980. Foi muito importante para a cidade de San Diego", conta o bancário natural do Pico. Inicialmente a pesca do atum era feita com caniço, mas como assim se apanhava pouco peixe tornou-se depois difícil competir com a concorrência. Com a purse-seiner tudo mudou. Os navios foram adaptados para a pesca com redes de cerco, de nylon, tendo a quantidade de atum capturado aumentado consideravelmente. E a indústria voltou a sorrir. Não por muito tempo. Depois veio a problemática dos golfinhos, que ficavam presos nas redes e, apesar dos esforços dos pescadores, alguns não eram resgatados com vida. A polémica foi engrossando, a pressão dos ambientalistas também, levando a uma série de proibições por parte do governo dos EUA. O declínio da indústria do atum tornou-se inevitável. Na baía de San Diego, mostram as fotos, não havia lugar para tantos atuneiros. Hoje em dia, encarrega-se de mostrar a realidade: na mesma paisagem imperam os navios de cruzeiro, iates de luxo, veleiros. Atuneiros, esses, nem vê-los. Os que restam, andam mais para sul, na zona da Samoa Americana.

Mas durante os anos em que o atum dava, os homens estavam ausentes e tudo era entregue às mulheres. "Elas tiveram um grande papel no desenvolvimento da comunidade portuguesa aqui em San Diego. Eram as mães, as educadoras, as enfermeiras. Os maridos não estavam para ajudar", constata Raymond, ao DN, no seu escritório no HomeStreet Bank. O seu pai, que nos Açores trabalhava como agricultor, nem foi dos que passou mais tempo fora. Trabalhou num estaleiro a maior parte da vida. Até se reformar. A mãe esteve empregada numa fábrica de costura de fatos de homem. Raymond estudou em San Diego. Mas não chegou a frequentar a universidade.

"Comecei em part-time no escritório do Security Pacific National Bank e gostei do trabalho. Aproveitei um programa de formação de gestores. Tinha 28 anos na altura e, desde então, tenho desenvolvido uma carreira de sucesso no setor da banca", afirma, lembrando os anos da crise do subprime. "Trabalhei com bancos que foram abaixo com a crise, como o San Diego National Bank. Mas tenho uma grande carteira de clientes que trabalham há muitos anos comigo. Há mais de 20 ou 30 anos. São muito leais e muito importantes para mim." O luso-americano, com dupla nacionalidade, admite que, tal como na Europa, também nos Estados Unidos muitas pessoas ficaram a odiar os bancos. "Durante anos, como se viu na crise financeira, houve práticas que decorriam há anos no setor bancário com o conhecimento de todos. Há uma palavra para isso: ganância. Eu não a sinto, porque, para mim, as necessidades dos meus clientes são o mais importante e o objetivo é proporcionar-lhes uma boa experiência." Antes do HomeStreet Bank, um banco regional comunitário, Raymond trabalhava no Pacific Premiere Bank. Depois decidiu mudar, a convite do CEO do HomeStreet Bank, Mark Mason, que tem igualmente raízes portuguesas. Tal como os primeiros patrões que teve.

"Ser português hoje em dia nos EUA não é ter um nome português, como por exemplo Simas ou Silva. Pode ser Chanelle, Gweeney ou outro... Com todos os casamentos as coisas mudam", refere, garantindo que faz questão de que os sobrinhos, Travis e Jacob, a estudar no Arizona e Michigan, respetivamente, mantenham também uma ligação à cultura portuguesa e sintam orgulho nela. E eles sabem falar português? "Não muito, percebem melhor do que falam", confessa Raymond Simas. O bancário sempre foi muito ligado à comunidade: muito envolvido na igreja, dançou folclore e foi presidente da organização Portuguese American League e da Irmandade do Espírito Santo em San Diego. Conforme o próprio nome indica, tem que ver com a famosa Festa do Espírito Santo celebrada pelos açorianos.

"Há uma história muito rica dos Açores. Não me farto das rochas negras. Cada vez que lá vou sinto-me renascer. Cada vez que aterro lá sinto que estou a chegar a um lugar sagrado. E o Carl, que é o meu companheiro há 20 anos, também sente o mesmo. É americano, mas também apaixonado pelo Pico", diz Raymond, que já subiu ao Pico, a montanha mais alta de Portugal. No mesmo ano que Mário Soares (1989). "Só que eu fui a pé e ele de helicóptero", recorda, entre risos bem dispostos. "Quando vou a Lisboa, vou a pé pelas ruas, é um dos meus sítios favoritos do mundo por causa da sua história. Estive também no Porto. Fui ao Douro. Apaixonei-me pelo Porto. Também fomos ao Algarve. Os EUA são um país muito jovem. É diferente. Eu sou português e sou americano. Ando sempre com o meu cartão de cidadão", confessa, com orgulho.

Em San Diego
A jornalistas viajou no âmbito de uma parceria DN/FLAD

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