No Butão o primeiro-ministro é médico aos sábados

Lotay Tshering​, de 50 anos, chegou ao poder em 2018. O seu partido ganhou 30 dos 47 deputados em jogo, Tornou-se conhecido como urologista, pelo seu trabalho junto das comunidades rurais mais desfavorecidas, pelas suas ações de voluntariado, pela sua participação num programa de televisão, pela sua compaixão

Lotay Tshering fez 50 anos esta sexta-feira e os funcionários do governo fizeram-lhe uma festa. Sorridente, o primeiro-ministro do Butão surge nas fotografias da sua página oficial de Facebook com um bolo e um cartaz a dizer "Parabéns chefe". Fotografias essas que foram também partilhadas numa outra página sua: a Dr. Lotay Tshering. Isto porque o chefe do governo butanês também é médico e, mesmo depois de eleito, continua a exercer. Às quintas-feiras de manhã faz aconselhamento a futuros profissionais de saúde e aos sábados vê pacientes e faz cirurgias.

"Há quem goste de jogar golfe, há quem goste de tiro ao arco, eu cá gosto de operar. Vou continuar a fazer isto até morrer e sinto falta de não poder estar aqui todos os dias. Quando vou de carro para o trabalho, durante a semana, gostava de poder voltar à esquerda na direção do hospital", diz Lotay Tshering aos repórteres da agência internacional AFP, que num sábado destes o encontraram no Hospital Central Jigme Dorji Wangchuck. Apesar de tudo, o líder do Partido Unido do Butão diz que encontra alguns pontos de ligação entre a profissão de médico e o cargo de primeiro-ministro.

"No hospital eu faço raio-X e trato os pacientes. No governo faço raio-X e trato da saúde das políticas. Tento melhorá-las", diz o governante, naquele hospital de Thimphu, a capital do Butão. Lotay Tshering, que estudou no Bangladesh e durante muito tempo foi o único urologista com formação superior no seu país natal. Mais tarde fez especializações em universidades de países como o Japão, Singapura e Austrália. Continuar a exercer como médico, diz, é para ele um anti-stress.

No ano passado Lotay Tshering tornou-se o terceiro primeiro-ministro democraticamente eleito do Butão. E o seu Partido Unido do Butão nem sequer tinha antes qualquer deputado no Parlamento do Butão. Conhecido dos butaneses pelo seu trabalho junto das comunidades rurais mais desfavorecidas, centrou o seu discurso nas questões sociais, no combate ao desemprego, na melhoria dos cuidados de saúde. Estes já são, tal como a educação, gratuitos no Butão. Na televisão butanesa participava num programa sobre medicina e até recebia telefonemas para dar conselhos médicos enquanto estava no ar. Tshering dominou nas duas voltas do escrutínio e a sua formação política obteve maioria de 30 deputados num total de 47.

Entalado entre a China e a Índia, os dois países mais populosos do mundo, o Butão tem cerca de 750 mil habitantes e a sua área, 38,3 Km2, é praticamente metade da de Portugal Continental. Predominantemente budista, o país tem seguido o seu próprio caminho de desenvolvimento, defendendo e respeitando o ambiente e a mãe natureza, como manda a Constituição. Segundo a lei fundamental deste país asiático é obrigatório que 60% do território continue coberto por floresta. Talvez por isso o Butão seja o único país do mundo com taxa negativa de carbono, ou seja, absorve mais emissões de CO2 do que produz.

Para proteger a sua floresta e os seus templos, o Butão impõe quotas rígidas aos turistas, ou seja, quem quiser ser aceite no país como turista tem que se comprometer a gastar pelo menos 250 dólares por dia (223 euros). No Butão, o Produto Interno Bruto era, em 2017, segundo o CIA WorldFactbook, de 9 mil dólares. Mas, por contraponto ao PIB, o desenvolvimento do país é avaliado também através do índice de Felicidade Interna Bruta. Este foi criado, em 1972, pelo rei Jigme Singye Wangchuck, em resposta aos que afirmavam que a economia do seu país apresentava níveis de crescimento muito pobres.

Baseada nos valores espirituais budistas a Felicidade Interna Bruta tem como pilares a promoção da educação para a inclusão social, a preservação e promoção dos valores culturais, a boa governança, a saúde na garantia da vida, o desenvolvimento sustentável para a inclusão e potencialização dos níveis de vida, a diminuição da jornada de trabalho na promoção do tempo livre e do lazer, o estimulo da prática de desporto, a igualdade de género e a liberdade de pensamento.

Apesar de tudo, o país debate-se com muitos problemas que também existem noutros países, como o desemprego, o crime, a obesidade... Segundo um estudo publicado no Bhutan Health Journal um em cada três butaneses sofre de obesidade. A taxa de desemprego era, em 2017, segundo o CIA WorldFactbook, de 3,2% e 12% das pessoas viviam abaixo do limiar da pobreza. A taxa de criminalidade aumentou em 95%, segundo o governo do Butão, devido ao desemprego jovem e devido ao facto de até há três anos o registo de crimes não ser obrigatório no país, nota a página do Overseas Security Advisory Council dos EUA.

De qualquer forma, para os butaneses é um privilégio ser tratado pelo primeiro-ministro, sublinha a reportagem da AFP. "Agora que fui operado pelo primeiro-ministro, que é considerado um dos melhores médicos do país, sinto-me mais aliviado", confessa Bumthap, um butanês que naquele sábado foi operado à bexiga, no hospital Jigme Dorji Wangchuck por Lotay Tshering.

Pai de três filhos, dois deles adotados durante o tempo em que esteve no hospital regional de Mongar, distrito do Butão, Tshering candidatou-se a primeiro-ministro pela primeira vez em 2013. Falhou. À segunda, em 2018, foi de vez. A sua primeira visita oficial ao estrangeiro foi à Índia, sem dezembro, onde se reuniu como o primeiro-ministro Narendra Modi. O seu governo tem 10 ministros. Voluntário durante o terramoto do Nepal, em 2015, teve que reembolsar o Estado por toda a formação que recebeu por forma a poder assumir o cargo de primeiro-ministro.

Agraciado pelo Dalai Lama com o prémio de herói da compaixão, em 2005, segundo o DailyBhutan.com Lotay Tshering diz inspirar-se numa oração atribuída a Madre Teresa de Calcutá, freira católica, que dedicou a sua vida a servir os outros: "As pessoas, por vezes, são pouco razoáveis, irracionais, centradas em si mesmas. Perdoa-lhes na mesma. Se fores simpático, as pessoas podem acusar-te de ser egoísta, por motivos ulteriores. Sê simpático na mesma. Se tiveres sucesso, ganharás alguns amigos infiéis e alguns fiéis inimigos. Sê bem-sucedido na mesma. Se fores sincero e honeste, as pessoas podem desiludir-te. Sê sincero e honesto na mesma. Aquilo que passaste anos a construir, outros podem destrui-lo da noite para o dia. Cria na mesma. Se encontrares serenidade e felicidade, alguns terão ciúmes. Sê feliz na mesma. O bem que fizeres hoje, será por vezes esquecido. Faz o bem na mesma. Dá o melhor que tiveres, e nunca será suficiente. Dá o teu melhor na mesma. No final de contas, é tudo entre ti e Deus. Nunca foi entre ti e eles".

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