Netanyahu falha em formar governo e Israel vai para eleições antecipadas

74 deputados do Knesset votaram a favor da dissolução do parlamento e 45 contra. Após as legislativas de 9 de abril, Benjamin Netanyahu, do Likud, não conseguiu formar um governo de coligação com maioria absoluta até à meia noite de hoje, ou seja, 22.00 em Lisboa

Esta quarta-feira foi dia de corrida contra o tempo no que à política israelita diz respeito. O primeiro-ministro e líder do partido Likud, Benjamin Netanyahu, tinha até à meia-noite, 22.00 em Lisboa, para formar um governo de coligação que garanta uma maioria absoluta de 61 dos 120 deputados do Knesset. Na sequência das legislativas de 9 de abril. As quais foram ganhas pelo Likud, com uma diferença de apenas 14 489 votos em relação à Coligação Azul e Branca, do rival Benny Gantz.

O presidente israelita, Reuven Rivlin, avisou, desde logo, que se não houvesse acordo de governo até ao prazo limite, iniciaria na manhã desta quinta-feira, logo às 09.00, menos duas horas em Lisboa, consultas com os partidos para encarregar outro líder, que não o do Likud, da tarefa de formar um novo Executivo em Israel. O chefe do Estado israelita prometeu "fazer tudo o que for possível para evitar que o país entre novamente em campanha eleitoral".

Ao longo do dia, Netanyahu, de 69 anos, fez de tudo para conseguir formar um governo. Ofereceu pastas ministeriais a partidos, que recusaram, ofereceu compromissos sobre coisas a negociar depois de o governo entrar em vigor, que foram igualmente recusados. Em paralelo, os deputados do Knesset discutiam uma lei para dissolver o parlamento, na ausência de acordo em tempo útil. A ser aprovada o país iria de novo para legislativas antecipadas. E foi. 74 deputados do Knesset votaram a favor da dissolução do parlamento e 45 contra.

Os israelitas deverão agora regressar às urnas a 17 de setembro. A dissolução e o escrutínio deverão custar 475 milhões de shekels, ou seja, 117 milhões de euros, disse um responsável do Ministério das Finanças israelita, à AFP. A acrescentar a isto o custo de um dia de trabalho perdido pois os israelitas não trabalham no dia em que votam.

No centro desta crise política está o facto de um dos aliados de coligação de Netanyahu, o líder do partido de extrema-direita e laico Yisrael Beitenu, o ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, ter repescado uma exigência antiga em Israel: que o serviço militar obrigatório passe a ser igual para todos e se acabe com a isenção concedida aos estudantes seminaristas judeus ultraortodoxos, a qual é entendida, por grande parte da população, como uma injustiça.

O problema é que os outros parceiros que o primeiro-ministro queria incluir na sua coligação são formações ultraortodoxas que representam os cerca de 10% de israelitas que seguem de forma rigorosa as regras do judaísmo. O mais intransigente desses partidos é o Judaísmo Unido da Torah, tendo o seu líder, Yaakov Litzman, ameaçado na quarta-feira à noite: "Talvez apoiemos então outros que não o Likud para conseguir formar governo".

Lieberman foi ex-chefe de gabinete de Netanyahu entre 1996 e 1997 e é considerada uma personalidade muito influente junto das centenas de milhares de israelitas oriundos da antiga URSS. Lieberman considera que os homens ultraortodoxos devem partilhar o fardo do serviço obrigatório com os outros judeus israelitas, em vez de estarem isentos do recrutamento, como tem acontecido desde a fundação do Estado de Israel, em 1948.

Apesar de tudo, após a votação pela dissolução do parlamento, Lieberman e Netanyahu trocaram acusações. O primeiro acusou, no Facebook, o segundo de ser o único responsável pela repetição das eleições por se ter recusado em apoiá-lo na votação do projeto de lei para acabar com a isenção concedida aos ultraortodoxos. E o segundo, citado pelo Haaretz, acusou o primeiro de enganar os eleitores e de ser um esquerdista que derruba governos de extrema-direita.

Esta é a primeira vez na história do país que há eleições antecipadas num intervalo de tempo tão curto devido ao facto de não ter sido possível encontrar um consenso e uma coligação para formar governo. Não é de esperar que Netanyahu, que está no poder há 13 anos, embora de forma não consecutiva, ceda o lugar a outro candidato e o mais provável é que as próximas eleições sejam uma segunda volta da disputa entre ele e o seu rival Benny Gantz. No escrutínio de 9 de abril, o Likud teve 26,46% dos votos e elegeu 35 deputados e a Coligação Azul e Branca teve 26,13% e conseguiu 35 deputados.

Aliás, esta noite, após conhecido o resultado da votação dos deputados do Knesset, Netanyahu garantiu que será candidato. "Vou voltar a candidatar-me, vou fazer uma campanha inteligente e clara, que nos trará a vitória. Vamos ganhar, vamos ganhar e os cidadãos ficarão igualmente a ganhar", declarou, aos jornalistas, citado pela Reuters.

O atual primeiro-ministro, que tem tido o apoio do presidente dos EUA, Donald Trump, na sua abordagem do conflito com os palestinianos e com os iranianos, sobretudo, tem visto o seu nome envolvido em escândalos de corrupção. E não é o único. Esta quarta-feira foi noticiado que a sua mulher, Sara, fez um acordo num caso de fraude por uso indevido de fundos estatais para o fornecimento de refeições. Pelo acordo pagará ao Estado 45 mil shekels, ou seja, 11.130 euros de reembolso. E ainda uma multa de 10 mil shekels, tendo-se dado como culpada, avançou a Rádio Israel.

Segundo a acusação inicial, a mulher de Netanyahu e um empregado do governo obtiveram do Estado, de maneira fraudulenta, mais de 89 mil euros de refeições fornecidas por restaurantes, contornando regulamentos que proíbem a prática se houver um cozinheiro empregado em casa. O acordo judicial foi fechado graças a um processo de mediação de seis meses e entrará em vigor depois de ratificado por um juiz. A família Netanyahu recusou, porém, comentar.

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