NATO relança nos Balcãs política de expansão a Leste

Oito anos após adesão da Croácia e da Albânia, integração do Montenegro na Aliança Atlântica relança a sua política de alargamento

A adesão do Montenegro à Aliança Atlântica, formalizada há uma semana, tem antes de mais um pesado alcance simbólico. A Rússia e o Montenegro estão ligados por uma cumplicidade histórica com mais de 300 anos e uma profunda proximidade cultural e religiosa. A bandeira do Montenegro, doravante içada na sede da NATO em Bruxelas, ostenta a mesma águia bicéfala da cota de armas da Rússia.

Desde que o Montenegro assumiu a independência, em 2006, Moscovo e Podgorica desenvolveram intensos laços políticos e económicos. Kotor, Budva, Ulcinj, Bar e outras cidades montenegrinas tornaram-se destino privilegiado dos turistas e de muitos investidores russos nos últimos anos - 80 mil russos compraram propriedades no Montenegro e 15 mil vivem em permanência no país. Quando, em dezembro de 2015, a NATO convidou formalmente o Montenegro a tornar-se o 29.º membro da Aliança, Moscovo reagiu em termos irritados denunciando a iniciativa como um gesto de "confronto aberto" e como mais um passo naquilo que o Kremlin vem denunciando como uma "manobra de cerco" à Rússia.

Recebida a luz verde de Washington, o governo de Milo Djukanovic juntou-se às sanções à Rússia decretadas pela União Europeia em março de 2014, na sequência da crise ucraniana, e multiplicou gestos de demarcação em relação a Moscovo.

As relações entre os dois velhos aliados não tardariam a azedar. O Kremlin denunciou aquilo a que chamou uma "histeria antirrussa" em Podgorica e prometeu retaliar. Em novembro do ano passado, o governo montenegrino denunciou um plano orquestrado por elementos do GRU (intelligence militar) russo destinado a ocupar o Parlamento de Podgorica e matar o então primeiro-ministro Milo Djukanovic - o homem que liderou a separação da Sérvia e a aproximação à NATO, e que é apontado por instâncias internacionais como o grande patrão o crime organizado no Montenegro.

Guerra de influências

Com uma população de 650 mil almas e um exército de dois mil homens, o Montenegro dificilmente representará um contributo militar significativo para a Aliança Atlântica. Nem por isso a adesão do pequeno Estado balcânico assume menor relevância.

O Montenegro dispõe de um importante trunfo - a costa do Adriático, que, além do seu interesse turístico e económico, tem elevada relevância estratégica. A baía de Kotor albergou grande parte da antiga Marinha jugoslava e fora antes uma importante base para o império austro-húngaro. Após a adesão da Croácia, em 2009, a integração do Montenegro permite à NATO fechar o círculo do acesso ao Adriático.

Mais, a adesão do Montenegro garante à NATO uma conquista de peso na disputa coma Rússia pelo controlo dos Balcãs.

A Albânia e a Croácia são membros da Aliança desde 2009. A NATO mantém um quartel-general militar em Sarajevo e apoia as reformas militares e a política de defesa da Federação croato-muçulmana.

A Bósnia e a Macedónia aderiram ao Membership Action Plan (MAP) da Aliança com vista a uma futura integração, embora ambos os processos se arrastem há vários anos. O da Bósnia continua refém das divisões internas do país. Quanto à Macedónia, o chefe da diplomacia de Skopje correu a Bruxelas para anunciar ao secretário--geral da NATO, Jens Stoltenberg, um compromisso próximo com a Grécia sobre o nome do país - um conflito que dura há 27 anos e que mantinha até agora tudo em suspenso.

Sob o pano de fundo do conflito étnico entre a maioria eslava e a minoria albanesa da Macedónia, a cena política de Skopje tem vivido dias conturbados numa crise em que se percebe uma guerra de influências entre a Rússia e o Ocidente. Em jogo, a miragem de um futuro lugar na União Europeia, mas passando primeiro, de acordo com uma estratégia bem definida desde 1995, por uma integração prévia na NATO.

A defesa do Kosovo independente é garantida na prática por uma força de 4500 homens da NATO e os Estados Unidos têm mais de sete mil militares na base de Bondsteel, instalada ao abrigo da intervenção internacional no Kosovo em 1999.

Dividida entre os laços tradicionais com a Rússia e o objetivo da integração europeia, a Sérvia assume oficialmente uma posição de neutralidade, mas nem por isso tem um papel menor na guerra de influências entre russos e americanos nos Balcãs. Belgrado tem um importante acordo de cooperação militar com a Rússia e nos últimos anos têm-se multiplicado manobras militares conjuntas russo-sérvias. Em novembro do ano passado, a Rússia, a Sérvia e a Bielorrússia realizaram importantes treinos militares conjuntos, a Fraternidade Eslava 2016, no preciso momento em que a NATO realizava exercícios no vizinho Montenegro.

Ao mesmo tempo, a Sérvia assinou em 2014 um acordo de cooperação com a NATO, unidades sérvias participaram em exercícios da Aliança e o senador John McCain, líder Senate Armed Services Committee, esteve em Belgrado em abril último para discutir formas de aprofundar a cooperação militar entre os EUA e a Sérvia.

Os Balcãs vivem, assim, uma situação inteiramente nova. As soluções impostas pela NATO para os conflitos que mergulharam a Jugoslávia na guerra nos anos 1990 deixam muitas feridas mal saradas. A surgirem novas erupções na região, elas ocorrerão num quadro estratégico bem diferente do século findo.

Crise existencial

Longe de reunir o consenso dos montenegrinos, a opção pela NATO ameaça gerar uma séria crise política interna no país. A integração na Aliança foi consumada sem um debate nacional e à revelia de qualquer consulta à população. Os laços sentimentais e as simpatias pró-russas são muito marcados entre os montenegrinos e a memória dos bombardeamentos da NATO contra a Sérvia e o Montenegro (então ainda unidas numa federação) em 1999 estão ainda muito presentes. O Parlamento de Podgorica está virtualmente bloqueado e a oposição já anunciou, a pensar nas legislativas de 2021, que tenciona congelar a adesão à NATO e convocar um referendo sobre a questão.

A integração do Montenegro nem por isso deixa de representar um trunfo importante para NATO. Dizia James Baker, secretário de Estado de George W. Bush pai, em 1990, na sequência da queda do Muro de Berlim e do colapso do bloco de Leste, que a Aliança Atlântica ou se alarga ou morre. Oito anos depois da integração da Albânia e da Croácia, a NATO retoma a política de alargamentos, e num contexto preciso.

Na Ucrânia, a Verhovna Rada, o Parlamento de Kiev, debate uma alteração ao quadro de princípios que regem a política externa do país de modo a abandonar o estatuto de neutralidade e retomar o processo de aproximação à NATO - gesto que promete uma nova escalada de tensão com a Rússia e torna ainda mais longínqua qualquer hipótese de entendimento entre Moscovo e o Ocidente. Nove anos depois do conflito russo-georgiano, em Tbilissi alimentam-se de novo projetos de integração na Aliança.

O colapso do antigo bloco de Leste retirou à NATO a ameaça que inspirou a criação da organização em 1948 e mergulhou a Aliança Atlântica numa espécie de "crise existencial". Os sucessivos alargamentos a Leste, a intervenção nos conflitos Balcânicos, o Conceito Estratégico de 1999, aprovado em plena campanha de bombardeamentos à Sérvia e ao Montenegro, e depois a campanha afegã - com pesadas baixas e que esteve longe de atingir os objetivos - foram adiando a questão, mas sem a resolverem em definitivo.

Na narrativa euro-atlântica, a Rússia passou, em particular depois da crise ucraniana, de "parceiro estratégico" a "ameaça". Um quarto de século depois do colapso da URSS, a NATO reencontra assim no confronto com a Rússia uma renovada razão de ser.

A hostilidade face a Moscovo assume assim hoje uma dimensão estratégica crucial para os Estados Unidos. O presidente Donald Trump terá cometido um erro fatal ao deixar escapar esse dado fundamental - e claramente suprapresidencial - da política externa americana.

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