NATO "mais forte" após ameaças de saída do EUA em "conversa franca"

O presidente dos EUA, Donald Trump, apresentou-se esta quinta-feira como um "génio muito estável", clamando vitória no final de uma cimeira da NATO em que ameaçou deixar "sozinhos" os membros da Aliança Atlântica

O momento tenso obrigou a uma reunião de crise para discutir o futuro da organização. Trump referiu-se a um "encontro fantástico", porém, sem levantar a ameaça de retirada, sem apoio do Congresso, ainda que, por agora, a considere "desnecessária".

"Penso que provavelmente posso [retirar os Estados Unidos da Nato], mas é desnecessário", disse o presidente americano, manifestando satisfação por "as pessoas terem avançado até onde nunca tinham ido antes", relativamente à "partilha de encargos".

"Estamos a fazer muito mais do que estávamos a fazer. Francamente, estamos a fazer mais relativamente à partilha de encargos. Tivemos um encontro fantástico e, no final, 29 países já estão a contribuir muito. A Alemanha está a aumentar muito substancialmente", disse Donald Trump, relativamente ao grau de compromisso assumido por Angela Merkel.

"Lembrem-se de da palavra: 33 mil milhões de dólares a mais que eles estão" pagar", vincou Trump, dizendo que tal só foi possível pela pressão que tem colocado aos aliados. "Todos na sala me agradeceram. Houve um belo espírito naquela sala, como não creio que tenham tido em muitos anos. Eles são muito fortes. Muito unidos e muito fortes. No problem!"

"Tu, Angela"

Horas antes, os aliados assistiram ao espectáculo da insatisfação de Trump, que colocou as negociações num nível pouco comum, em encontros de chefes do Estado ou de governo. Algumas fontes, citaram Trump dizendo que este se dirigiu à chanceler alemã, como "tu, Angela" e o tom não agradou a ninguém na sala. Mas isto viria a ser apenas um pormenor da discussão.

Antes da conferência de imprensa, fontes oficiais estiveram na sala reservada aos jornalistas, lançando o caos, ao avançar que Donald Trump disse aos aliados que "devem aumentar os gastos até janeiro de 2019 ou os Estados Unidos continuarão sozinhos". Depois disto decorreu uma reunião de crise, à porta fechada, sem a presença de líderes de países convidados, para encontrar soluções.

Porém, vários lideres, entre os quais o presidente francês, Emmanuel Macron, não interpretaram as declarações como uma ameaça de retirada dos Estados Unidos da NATO. António Costa considerou que se tratava de "um estilo negocial", que é diferente para "cada líder e para cada país". "Mas a NATO não é uma organização que tenha nascido ontem, nem é um evento conjuntural", disse.

Merkel disse mais tarde que houve uma discussão em que "o presidente americano exigiu o que tem sido discutido há meses e que há uma mudança na divisão de encargos".

"Deixei claro que estamos neste caminho. E que isso é de nosso interesse e vai tornar-nos mais fortes", afirmou Merkel, numa frase aparentemente polida para o discurso público, comum a todos, nomeadamente ao secretário-geral. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, referiu-se a "uma discussão muito franca e aberta (...) e essa discussão tornou a Nato mais forte".

Dores de ciática

Para celebrar o encontro, os aliados juntaram-se ontem numa cerimónia no Parque Cinquentenário, em Bruxelas, para a qual foram convidados os líderes institucionais da União Europeia. Jean-Claude Juncker, que horas antes tinha assinado um acordo para reforçar a cooperação entre a União Europeia e a Nato, foi visto em dificuldades, tendo sido ajudado por várias pessoas.

Alguns dos líderes presentes, entre os quais o chefe do governo português, ajudaram o presidente da Comissão Europeia, visivelmente debilitado. Antonio Costa esclareceu hoje na conferência de imprensa, que "sim" sabia o que se passou com o luxemburguês. "Ciática. Só a ciática", respondeu subitamente o primeiro-ministro a um dos repórteres que filmou a cena.

Em Bruxelas

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Anselmo Borges

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