Nasceu na Calheta, caçou baleias, casou-se com índias e já tem estátua em Lisboa

José Silva inspirou livros e um documentário. Esta quarta-feira às 12.00 foi inaugurada em Belém uma estátua da autoria do seu trineto

José Silva terá deixado a ilha do Pico em 1846, ainda a entrar na adolescência, embarcando num barco baleeiro americano. Mas a corrida ao ouro que na altura atraia muitos aventureiros à Califórnia acabou por fazer que nunca mais voltasse aos Açores ou a essa Calheta de Nesquim onde nasceu. A busca do metal amarelo acabaria por levá-lo bem mais para norte, com os registos a darem conta da chegada de um Joe Silvey (um inglesamento de José Silva) e de quatro outros portugueses à Colúmbia Britânica cerca de 1860.

Depois de alguns confrontos com tribos índias, Joe e os colegas acabam recebidos de forma amigável pelo grande chefe Kiapilano. Será este a abençoar o casamento do português com a sua neta Khaltinaht - uma "rapariga bonita com olhos escuros e cabelo até à cintura", como o próprio Joe a descreveria anos mais tarde. A filha, Elizabeth, foi a primeira criança de sangue europeu nascida em Vancouver. E Joe acabou por se tornar, em 1867, o primeiro europeu a receber a nacionalidade canadiana. Instalado em Gastown, o português abriu um saloon chamado The Hole in the Wall (O Buraco na Parede), onde tinha como principais clientes os trabalhadores das primeiras fábricas da cidades que ainda estava a nascer.

Após o nascimento do segundo filho, Khaltinat morre de gripe. Devastado, Joe vendeu o saloon e instalou-se em Stanley Park, onde hoje se pode ver a estátua em sua homenagem esculpida pelo trineto Luke Marston. Este inaugurou hoje, às 12.00 no Terreiro das Missas, em Belém, uma estátua semelhante, oferecida a Lisboa no âmbito dos 150 anos do Canadá.

Foi em Stanley Park que Joe se dedicou à pesca, tendo sido o primeiro a conseguir uma licença oficial para pescar com a técnica da rede de cerco.

Terá sido numa das suas muitas viagens que Joe conheceu Kwatleematt, a trisavó de Luke, uma índia salish também conhecida como Lucy. Casaram-se e tiveram dez filhos até à morte do português, em 1902. Nos últimos anos de vida, o açoriano mudou-se de novo, desta vez para Reid Island, onde comprou um vasto terreno. A pesca continuou a ser o seu sustento, tornando-se bastante bem-sucedido e não hesitando em partilhar o peixe com os mais pobres e tendo ajudado a construir uma escola para os seus filhos e para os do resto da comunidade.

Ascendência portuguesa

Quando era miúdo, Luke Marston costumava ouvir as histórias de José Silva. "Apesar de ser índio, sempre soube que tinha ascendência portuguesa", contou o escultor ao DN em fevereiro de 2017, diante de uma maquete da sua obra Shore to Shore, que em 2015 inaugurou no Stanley Park de Vancouver em homenagem a esta dupla herança.

"A minha mãe e a minha tia, a irmã mais velha dela, sempre me contaram histórias do trisavô pioneiro, vindo do Pico, essa grande ilha dos Açores", recordou Luke numa das salas da Embaixada do Canadá em Lisboa, em plena Avenida da Liberdade. Eram histórias de Portugal, algumas que o tempo tornara fantasiosa. "Houve uma altura em que alguém chegou a dizer que o Joe vinha de um castelo e eu pensei. "O quê?""recordou, a rir.

Confrontado com a história daquele que para ele é apenas Joe - "great-great-grandfather [trisavô em inglês] não dá jeito nenhum numa conversa" -, Luke decidiu que queria homenagear o antepassado português. Mas também a trisavó Kwatleematt. O resultado foi a escultura Shore to Shore, inspirada na pesca. Com cinco metros de altura, esta tem no seu centro uma reprodução de um isco usado para pescar bacalhau. Foi esse isco que Luke decidiu "adaptar e usar quase como um totem para registar a história da minha família", contou.

Colocada sobre uma base em calçada portuguesa, a estátua de madeira coberta de bronze inclui ainda as figuras de Joe Silvey e das duas mulheres, Khaltinaht e Kwatleemat.

Hoje, estima-se que haja entre 500 e mil (as fontes divergem) descendentes vivos do Portuguese Joe. A vida deste pioneiro da ilha do Pico inspirou à historiadora Jean Barman o livro The Remarkable Adventures of Portuguese Joe Silvey (As Notáveis Aventuras do Português Joe Silvey) mas também pode ser vista no documentário televisivo Portuguese Joe - o Pioneiro Esquecido, que em 2015 foi exibido no Museu do Pico.

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