"Queimava-nos as costas e mergulhámos na água"

Foi na aldeia costeira de Mati, perto de Atenas, que os socorristas encontraram os corpos de 26 das 80 vítimas mortais dos incêndios na Grécia.

Situada na região de Rafina, Mati é uma aldeia costeira popular entre os turistas locais, sobretudo reformados e crianças que frequentam os campos de férias. Foi ali, a 40 quilómetros de Atenas, que o fogo apanhou todos desprevenidos e matou pelo menos 26 pessoas. Os seus corpos foram encontrados esta manhã, fazendo subir o número de vítimas mortais nos incêndios na Grécia para 50. O último balanço já fala em 80 mortos e 187 feridos.

"Mati já nem existe. Vi corpos, carros queimados. Tenho sorte em estar viva", explicou uma residente à Skai TV, uma televisão local citada pela Reuters.

Kostas Laganos também sobreviveu às chamas e agradece: "Felizmente o mar estava ali, porque as chamas perseguiram-nos até à água". E acrescentou: "Queimava-nos as costas e mergulhámos na água. Disse: meu Deus, temos de correr para nos salvarmos".

"Estou a ligar ao meu primo mas ele não responde", disse à BBC Spiros Hatziandrou. No local mais atingido, o grego explicou ter visto "chamas nas árvores e nos postes de eletricidade. Depois a polícia bloqueou o acesso a toda a gente".

Em declarações ao The Guardian, o presidente da Câmara de Rafina-Pikermi garante ter visto "pelo menos cem casas em chamas. Vi com os meus próprios olhos. É uma catástrofe total".

Esta catástrofe foi sintetizada por Nikos Economopoulos, líder da Cruz Vermelha grega, que encontrou 26 corpos em Mati. "Eles tentaram encontrar um caminho de fuga mas infelizmente estas pessoas e os filhos não conseguiram chegar a tempo. Instintivamente, vendo o fim chegar, abraçaram-se", contou Economopoulos à BBC. A catástrofe não terá sido maior porque centenas de pessoas foram socorridas pela guarda costeira grega.

"Felizmente o mar estava ali e fomos até ao mar, porque as chamas nos perseguiam até à água", contou Kostas Laganos, O sobrevivente disse à BBC como "queimava-nos as costas e mergulhámos no mar. Disse, meu Deus, temos de correr para nos salvarmos".

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, interrompeu a viagem oficial que estava a fazer à Bósnia-Herzegovina, regressou ao país e reuniu de urgência o governo de Atenas, declarando o estado de emergência em toda a região de Ática, onde fica a capital do país. Ática tem uma população de 3,5 milhões. Além de Atenas e do porto do Pireu, a região tem ainda várias outras cidades.

Já ao fim do dia de segunda-feira, as autoridades regionais gregas tinham declararado o estado de emergência nas partes leste e oeste da grande Atenas, à medida que os incêndios provocados pelos ventos fortes se espalhavam pelas florestas de pinheiros e pelas cidades junto ao litoral, em ambos os lados da capital grega.

Um primeiro incêndio florestal deflagrou a nordeste de Atenas, na área de Penteli, estendendo-se à cidade de Rafina. E, às primeiras horas da noite de segunda-feira, na cidade vizinha de Mati, a guarda costeira enviou um barco de patrulha para retirar as pessoas de uma praia que tinha ficado cercada pelas chamas. Não se antecipava ainda a dimensão da tragédia, com os seus 80 mortos e 187 feridos (últimos números às 11:45 de quarta-feira).

Um segundo incêndio começou por devastar florestas montanhosas de pinheiros, a 50 quilómetros a oeste de Atenas, criando uma nuvem de fumo tão espessa que as principais vias rodoviárias entre o Peloponeso (extensa península no sul da Grécia) e Grécia continental foram fechadas enquanto uma nuvem alaranjada se abatia sobre Atenas, no final do dia de segunda-feira.

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