Marcelo defende na ONU o contrário do que disse Trump

Tal como Emmanuel Macron, discurso de Marcelo Rebelo de Sousa na ONU foi no sentido inverso ao de Donald Trump, que na véspera usara o mesmo palco para defender o patriotismo contra o globalismo

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou esta quarta-feira na Assembleia Geral da ONU que há várias visões do mundo que podem ser seguidas. Mas que a visão certa é a do multilateralismo. E não a do unilateralismo e do desinvestimento nas organizações internacionais multilaterais.

"Mutilateralismo reforçado sempre, por isso não compreendemos o unilateralismo, o desinvestimento nas instituições, correndo o risco de se repetirem os erros de há cem anos", defendeu o presidente português, em Nova Iorque. O verdadeiro patriotismo é o que se completa com o cosmopolitismo. Portugal entende que o multilateralismo é a única via. Visões de curto prazo, por muito apelativas que pareçam ser, constituem o fogo-fátuo que não resolverão os problemas do mundo", acrescentou Marcelo, fazendo um discurso que vai em sentido inverso ao realizado na véspera, no mesmo palco, pelo presidente dos EUA Donald Trump.

"Temos de proteger a nossa soberania e a nossa querida independência acima de tudo", defendeu Trump, na ONU, garantindo: "Vamos escolher um futuro de patriotismo, prosperidade e orgulho, de liberdade frente ao domínio e à derrota". Alvo de risada geral quando disse que a sua Administração conseguiu mais em menos de dois anos do que qualquer outra Administração dos EUA, Trump não viu o seu discurso ser aplaudido por Marcelo Rebelo de Sousa, algo que não faria sentido, como disse o líder português, uma vez que Portugal defende o multilateralismo - ideia base do nascimento das próprias Nações Unidas a seguir à II Guerra Mundial.

Multilateralismo contra o patriotismo

"Sei que muitos podem estar cansados do multilateralismo, numa sociedade em que se diz as piores coisas nas redes sociais como se nada fosse falar de multilateralismo pode não estar na moda. Mas a mim não me importa estar na moda. Não se habituem a este unilateralismo. Isso é uma traição à nossa história. Eu não me habituarei", declarou na terça-feira, também já depois de Trump, o presidente de França. Macron falou de forma eloquente, não disfarçando uma certa irritação, batendo com o punho serrado no púlpito de onde falava. "A lei do mais forte, a do unilateralismo, que nos leva a um confronto de todos contra todos, sem ninguém ganhar, [é uma lei que] não protege ninguém", sublinhou o líder francês, garantindo que acredita " numa soberania dos povos e, ao mesmo tempo, numa cooperação reforçada de múltiplos tipos". Por isso garantiu: "Não deixarei a soberania dos povos nas mãos dos nacionalistas que utilizam a soberania dos povos para atacar a universalidade dos nossos valores".

No discurso que fez esta quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa saudou o trabalho de António Guterres, reafirmando o apoio às prioridades definidas pelo ex-primeiro-ministro português como secretário-geral da ONU. Multilateralismo, reforma da ONU, prevenção de conflitos, sustentação e manutenção de paz, preocupação com as migrações e os refugiados, igualdade de género, defesa do planeta e dos oceanos foram algumas dessas prioridades que o chefe do Estado português fez questão de enumerar. Marcelo defendeu uma reforma da ONU. "Não reformar o Conselho de Segurança", disse, "é ignorar a geopolítica do século XXI, que exige pelo menos a presença do continente africano, Brasil e Índia" entre os membros permanentes do máximo órgão decisor da ONU. A configuração atual é um resultado da Guerra Fria. Por isso, os cinco membros permanentes são EUA, Rússia, China, França e Reino Unido.

"Portugal continuará a receber refugiados"

"Portugal participa atualmente em nove missões da ONU", enumerou Marcelo, sublinhando que Portugal aposta no combate ao terrorismo e defende a garantia de justiça para as vítimas de crimes internacionais através do Tribunal Penal Internacional de Haia. "Portugal continuará a receber migrantes e refugiados", assegurou o chefe do Estado português, perante a Assembleia Geral da ONU, referindo o trabalho desenvolvido pelo ex-presidente Jorge Sampaio com os refugiados sírios em Portugal.

No que toca à defesa dos oceanos, o presidente assinalou que Portugal está envolvido, de forma ativa, na preparação da II Conferência dos Oceanos da ONU em 2020. Esta vai realizar-se em Lisboa. Sobre o combate às alterações climáticas, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que esta é uma luta justa "de todos nós" e "não mudamos com modas e protagonistas de curto prazo". A visão "que é a nossa, multilateral, aberta, favorável à procura da governação global" é " a visão certa", insistiu o chefe do Estado português, destacando o papel da diplomacia para a paz e segurança regionais e dando como bom exemplo do diálogo diplomático o acordo assinado entre Timor-Leste e a Austrália.

Sublinhando a importância da cooperação entre a CPLP e a ONU, Marcelo defendeu o português como língua oficial da ONU, saudando os desenvolvimentos na península coreana com vista a uma desnuclearização da mesma e apelando a um consenso para que seja aprovada a resolução sobre a moratória à pena de morte apresentada na Assembleia Geral da ONU". O presidente instou ainda israelitas e palestinianos a retomarem o processo negocial, com vista a uma solução para a criação de dois Estados, vivendo lado a lado e em paz.

Marcelo, que antes de discursar comprou o livro Medo: Trump na Casa Branca, do jornalista Bob Woodward, na famosa livraria Strand, terminou a sua intervenção perante a Assembleia Geral da ONU citando o ex-líder sul-africano e Nobel da Paz Nelson Mandela: "As Nações Unidas não são um luxo", lembrou o chefe do Estado português, "as Nações Unidas são uma necessidade". Aqui, uma vez mais, uma declaração que pode ser entendida como um recado a Donald Trump, que já cortou algumas das contribuições dos EUA para ONU, como aconteceu por exemplo com a Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinianos (UNRWA).